Cidades

‘A sociedade incita a espetacularização’, afirma psicóloga de MT sobre ataque em Suzano

Em entrevista ao Circuito Mato Grosso, a mestre em psicologia social Vanessa Furtado, 35 anos, professora da área na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), conversou sobre o massacre na escola estadual professor Raul Brasil, em Suzano (SP) ocorrido dia 13 de março passado e explicou sobre a saúde mental dos culpados, das vítimas e da sociedade.

Pensando nos dois rapazes que cometeram o crime e no terceiro adolescente suspeito de envolvimento no caso, Vanessa aponta acreditar que o crime era de projeção, ou seja, “era algo que pudesse ser um crime que marcasse a história do país e eles pudessem ser projetados como pessoas que fizeram isso. Isso está diretamente ligado ao que a gente vai chamar de sociedade do espetáculo”, explicou.

Vanessa defende que é preciso ter um olhar amplo e pensar questões sociais para conseguir compreender o comportamento. “Parece que desresponsabiliza outras questões sociais e coloca em algo individual, como se fosse algo privado e não do coletivo. Nesses momentos a gente fica buscando um culpado, como os jogos, o apelo às armas, o bullying…”.

Vanessa Furtado já trabalhou como psicóloga em escolas públicas com ações voltadas para o bullying. A especialista explica que essa prática, que geralmente ocorre em ambiente escolar, tem uma estrutura de desigualdade social. “Muitas vezes o que a gente chama de bullying é racismo, é machismo, lgbtfobia, gordofobia, ou seja, são determinados preconceitos que são mascarados quando a gente chama isso de bullying, mas que expressam coisas que são da sociedade”.

Pânico e ameaças

A psicóloga Vanessa Furtado chama atenção para os comentários que apoiam, incitam e as ameaças recentes de atentados em escolas do Brasil e afirma que vem notando que o discurso de ódio vem representando parte da sociedade e as pessoas dão likes e incitam ao crime.

“Se antes as pessoas tinham certo pudor de ter comportamentos assim, agora não tem mais. Parece que o discurso que incita esse tipo de comportamento prevaleceu. Parece que vale mais o espetáculo do que o quanto isso afeta diretamente as pessoas. Se esse discurso conservador é o que me da likes, eu não me importo em como isso vai afetar as pessoas”.

Voltando a falar da espetacularização, ela ressalta que a educação, e a sociedade como um todo, não deve se eximir de discutir o assunto. “ Esses meninos são frutos de uma sociedade que tem valores que ratificam esse tipo de comportamento. Tanto é que outros casos vão surgindo e vão ganhando ibope”.

Lembrando do recente ataque a mesquitas na Nova Zelândia, a profissional aponta que as vidas são espetacularizadas e as redes sociais reforçam isso. Como nesse ataque, em específico, cujo atirador transmitiu os ataques ao vivo no Facebook. “Essa coisa de transmitir crimes ou desafios ao vivo, para ganhar likes, está muito presente. E pelo que eu vi no depoimento a questão desses meninos em Suzano era isso”.

Vanessa aponta, novamente, a busca incansável pelo culpado, mas que na verdade são diversos fatores que culminam em comportamentos como este do massacre em Suzano. Fala ainda sobre os discursos do “politicamente corretos” que são ridicularizados frequentemente. “As pessoas não percebem que o politicamente correto é uma tentativa de pensar a não agressão a outros seres humanos. É uma sociedade que historicamente vem se construindo para isso, que referenda esse tipo de valor. É a forma que a gente se organiza em sociedade e pensa seus valores que é a raiz da questão”.

Como profissional da área, ela declara que é necessário um trabalho que pense a convivência escolar. Defende que como há um comportamento mais agressivo na sociedade, deve ser realizado um trabalho preventivo, um bom trabalho pedagógico, para tentar lidar com isso.

“Não é um trabalho só do campo da psicologia, mas que deve ser multiprofissional de pensar as questões que estão latentes no mundo e trazer para a realidade do ensino. Isso ajuda a organizar algumas angustias”, defendeu Vanessa.

Em Cáceres, estudantes incitaram massacres em uma rede social e pais denunciaram à polícia.

Apoio aos sobreviventes

“A minha família mora em Mogi das Cruzes, uma cidade muito perto de Suzano, e eu os ouvi contando o quanto a cidade ficou muito abalada. As pessoas estavam muito tristes e desacreditadas porque foi algo muito perto deles. A cidade estava com um clima diferente e essa sensação de proximidade com esses eventos vai dando um contato com a realidade”, relatou Vanessa.

Ela explicou que as pessoas que se afetaram de alguma forma com o massacre aos poucos vão voltando ao normal, vão minimizando o acontecimento ao entrarem na rotina novamente, mas os sobreviventes e as famílias envolvidas, mesmo as que não perderam amigos e familiares precisam de apoio por um longo período.

“Sempre que a gente passa por situações emocionalmente fortes, a gente fica com resquícios disso com a memoria, com medo… E isso demora a passar. Fazer coisas parecidas com o que você estava fazendo no momento do ataque pode te remeter a memória daquilo. Varias pessoas estão muito abaladas, quem estava na escola e quem não estava, a sociedade inteira, mas é diferente. Quem passou por isso vai levar tempo e bastante”.

Vanessa contou que o período de luto, de dor, não é possível de prever. Tudo depende de cada pessoa, pois alguns podem durar anos. “As pessoas que foram afetadas diretamente por isso precisam de acompanhamento ao longo prazo”, declarou a psicóloga.

Ela aponta que com o tempo o foco vai saindo do acontecimento, as pessoas vão indo embora, a mídia interrompe a cobertura e a população local, os afetados, vão ficando sozinhos.

Vanessa esclareceu que cada pessoa pode ter uma reação após o massacre. Alguns podem desenvolver crises de ansiedade, insônia e alguns podem demorar algum tempo para sentir o que realmente foi a tragédia.

“Os sobreviventes, alunos e funcionários, e até mesmo as famílias que não perderam alguém ali, ficam marcados. Vários pais em todo pais pensaram ‘meus filhos estão indo para a escola, será que é seguro?’ O efeito da tragédia vai atingir toda a sociedade em níveis diferentes”, concluiu.

 

Redação

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Reportagens realizada pelos colaboradores, em conjunto, ou com assessorias de imprensa.

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