Em dezembro de 2015, em nota oficial, governo de Mato Grosso informava que o Estado era o maior responsável pela redução do desmatamento. Os casos continuavam ocorrendo, mas numa proporção menor na comparação a outros anos. Não era a primeira vez que a contenção do avanço na degradação ambiental tinha sido registrada, e naquele ano a redução alcançou 87% da meta estipulada para 2020.
Mas, em 2017 e 2018, Mato Grosso teve avaliações que contrariam o quadro positivo que começava a se desenhar. Os índices de desmatamento ficaram na casa dos 20%, deixando o Estado em segundo lugar na lista dos desmatadores mais agressivos. Conforme o ICV (Instituto Centro Vida), no ano passado o Estado foi responsável por desmatar 20% da Amazônia. E no início desta semana, o Ministério do Ambiente informou que o número subiu para 22%. Segundo o ministério, Mato Grosso desmatou uma área de 1.749 km².
O que levou o Estado a retrocedeu na redução do desmatamento? O professor de geografia da UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso), Hugo José Werle, tem duas hipóteses que servem de explicação para a mudança. A primeira tem motivo técnico. Ele diz que os satélites na função de captar as atividades em mata possuem capacidade limitada, conseguindo identificar o desmatamento de área a partir de 30 metros. Toda derrubada menor que esse tamanho passa despercebida aos órgãos responsáveis pelos serviços.
“Os satélites que o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) não identificam que se há desmatamento de 10 ,20 metros. Aqui tem fator importante. Imagine você que em uma área menor que isso, os produtores conseguem produtores um número X de sacas de soja e vendem até por R$ 3 mil, tirando ganho líquido de R$ 1 mil”.
Essa seria a estratégia que os produtores estariam adotando para driblar a fiscalização via satélite. O professor não aponta números sobre essa atividade camuflada, mas afirma que elas ocorrem, por ser um procedimento “natural” na abertura de áreas.
O geógrafo diz ainda que a falha cegueira dos satélites é reforçada pelo baixo número técnicos disponível para verificar in loco a situação de desmate. Os fiscais contratados pela Sema (Secretaria de Meio Ambiente) estariam em número minguado e com recursos escassos.
“Há área de desmatamento que precisa ser averiguada no local, elas não são necessariamente do tamanho de 30 metros, mas causam estragos. O problema é que não há técnicos o suficiente para acompanhar essas atividades, ou seja, o controle efetivo é muito precário”.
A segunda hipótese é relacionada pelo professor Hugo Werle ao âmbito político. Ele afirma que desde 2016, o governo Michel Temer vem tomando decisões que mostram desinteresse pela questão do meio ambiente.
“Além de não priorizar a questão de combate ao desmatamento, ela passa uma mensagem de liberação para cometer ilícitos. Ele passa essa mensagem através de votação no Congresso Nacional, através das decisões normativas tomadas”.
Werle afirma que a posição do presidente da República relaxa medidas que vinham sendo tomadas desde 2003 para a preservação ambiental. E isso seria explicado identificação de desmatamento em larga medida nos últimos dois anos.
“A partir de 2016 nós tivemos um aumento do índice do nível de desmatamento. Se você olhar os dados estatísticos vai perceber que estava ocorrendo recrudescimento gradativo até 2015 e em 2016, [o desmatamento] volta a crescer de novo, em questão de percentuais”.
Na divulgação dos números do desmatamento, o Ministério do Meio Ambiente diz que, apesar do aumento, houve também maior desempenho da fiscalização, resultado de ações conjuntas de órgãos federais e estaduais. Houve aumento de 6% nas autuações, de 56% de áreas embargadas e de 131% de madeira apreendida. A apreensão de equipamentos utilizados no desmate ilegal teria subido 138%.



