Após a morte de um detento por tuberculose na Penitenciária Central do Estado (PCE), os olhos se voltam para o local insalubre que abriga, apesar de tudo, seres humanos. Informações repassadas pelo juiz da Vara de Execuções Penais Capital e corregedor da penitenciária, Geraldo Fidelis apontaram que 62 presos fazem tratamento da doença e que o número de infectados poder ser maior.
Ao Circuito Mato Grosso a médica infectologista Zamara Brandão Ribeiro explicou que a doença é muito comum em regiões tropicais e é considerada uma endemia (doença infecciosa que ocorre habitualmente e com incidência significativa em dada população e/ou região). A médica ainda relatou que a tuberculose causada por uma microbactéria (Mycobacterium tuberculosis) Bacilo de Koch (BK) geralmente afeta os pulmões, mas que pode afetar outra área do corpo, como a pleura (membrana que recobre o pulmão), rins, peritônio, entre outros.
A transmissão da tuberculose é direta, de pessoa a pessoa, portanto, a aglomeração de indivíduos, como ocorre na PCE, é o principal fator de transmissão. “Ela é uma endemia, que possui picos de surto em determinados locais, como no sistema carcerário, onde a facilidade de contato entre os infectados é grande, assim como a má qualidade de higiene e baixa imunidade contribuem para a proliferação da microbactéria entre os presos”, explicou Zamara.
Má alimentação, falta de higiene, tabagismo, alcoolismo ou qualquer outro fator que gere baixa resistência orgânica também favorece o estabelecimento da tuberculose. Em ambientes pouco ventilados e arejados como as celas, a possibilidade de transmissão da doença é maior porque os bacilos sobrevivem por até 8 horas no ambiente.
A doutora ainda alegou que o risco de se transformar em uma epidemia é baixo, pois hoje pessoas vacinadas com a BCG ao nascer já diminuem o risco de contrair a doença. “Temos um sistema imunológico muito forte e o breve contato com algum infectado não significa que a pessoa possa contrair tuberculose; geralmente ocorre quando há um período muito longo junto à pessoa contaminada”, explanou a doutora.
Em relação aos riscos que os agentes penitenciários correm no dia a dia, Zamara explicou que o método para prevenção dos agentes seria uma máscara respiratória azul N95/PFF2, diferente da máscara cirúrgica. De acordo com a médica, as máscaras cirúrgicas não oferecem proteção adequada contra a tuberculose.
O tratamento geralmente é realizado por um coquetel composto por quatro medicamentos: Isoniazida, Rifampicina, Etambutol e Pirazinamida. O tratamento começa a surtir efeito depois de duas semanas do início da medicação.
“O grande problema da tuberculose é que quando o tratamento não é feito precocemente, a pessoa deixa de fazer uso de medicamentos de forma adequada. Além disso, o tratamento incorreto pode levar a outras doenças como gripe e até a um estado mais grave que é a pneumonia”, comentou a médica.
Na visão da médica, para um combate eficaz da doença nos presídios, seria necessário o trabalho de prevenção, orientação e o diagnóstico precoce da doença, com início imediato de tratamento, e até mesmo a criação de um espaço ventilado onde possa circular ar: “quando falamos em ambiente arejado, é um ambiente onde o ar possa circular; por se tratar de microbactérias, um ambiente com ventilação faz com que essas bactérias se dispersem do local”.
Em relação ao caso do jovem Cícero Junior Oliveira Dias, a médica explicou que somente o laudo final poderá elucidar a causa da morte, porém pelo laudo de atendimento do dia em que ele foi a UPA, possivelmente pode ter sido vítima de outra enfermidade que, aliada à tuberculose, pode ter causado a morte dele.
Para finalizar, ela explicou que o relato de ele ter deixado de tomar o remédio corretamente possa ter feito com que a doença evoluísse para uma forma grave, e a medicação aplicada a Cícero estava surtindo efeito, como mostra o exame de baciloscopia realizado no dia 8 de agosto e que foi assinado pela farmacêutica-bioquímica Maria de Lourdes Lesse.



