Texto e fotos de Valéria del Cueto
Jurei que não passaria de hoje a primeira crônica de 2026.
Apesar de distante adotei o modus operandi de Cuiabá e outras praças. O de veranear.
Me larguei com a condição de, nesse período, manter uma alimentação saudável. O eterno projeto de ano novo em plena execução!
Isso não quer dizer que nesse espaço de tempo tenha conseguido me desligar dos acontecimentos que não param de se suceder sem interrupções para um descanso ou pausas para reflexões mais profundas.
Haja nuvem e HDs para registrar as mudanças inesperadas que trazem reflexos imprevisíveis à vida em todo o planeta.
Falando em planeta fico pensando no trabalho que Pluct Plact, o extraterrestre, terá para colocar em dia as notícias do cotidiano do lado de fora da cela em que se encontra enclausurada voluntariamente a cronista com quem ele se corresponde.
Tudo que aconteceu nos últimos dias!
Sugiro que comece por uma notícia boa. A liberação pela ANVISA dos testes clínicos com o medicamento polilaminina no tratamento de lesão da medula espinhal. Uma inovação desenvolvida por pesquisadores da UFRJ.
Lembrando que foi na Escola de Comunicação da instituição na Praia Vermelha que nossa reclusa preferida iniciou sua insípida vida acadêmica.
E que “o outro lado do túnel” (sempre mencionado por Pluct Plact para indicar o local de recolhimento da amiga e correspondente das suas cartas enviadas pelo raio de luar que banha a cela) fica bem ali, entre a UFRJ, o Botafogo e o antigo Canecão que, prometem, ressurgirá em breve.
Viajei pensando no viajante da galáxia e sua relação com a cronista pra dizer que, assim como ele, só me cabe observar e, se possível, acompanhar a pantomima universal.
Confesso que não vou poluir este texto com uma narração precisa das efemérides porque nesse momento minhas atenções são outras.
Estão embaladas pelos sons da cascata desviada do riozinho e, dependendo dos horários, da cantoria dos passarinhos que bordejam em busca de frutas e flores. As frutas da estação são da goiabeira e das jabuticabeiras. As pitangas ainda estão floridas ou seus frutinhos muito verdes para o banquete da passarinhada.
Nesse calorão a sinfonia acontece na manhãzinha ou quando o sol se põe.
Pouco depois das cigarras começarem a ciciar anunciando que o bom tempo continua pelos próximos dias. Até a aguardada chegada de mais uma frente fria maluca, como a que tivemos nos primeiros dias do ano. Quem não se rende a um refresco?
Meu olhar é desviado para o filhotinho de teiu. Novinho, ele ainda não aprendeu que, por uma questão de sobrevivência, deve se esconder dos humanos com o mesmo afinco que os imigrantes perseguidos pelo ICE, a polícia agora assassina dos EUA.
Não que vá fazer alguma coisa contra ele, um pouco maior que as várias lagartixas que habitam (e matam mosquitos) no pedaço. Pra elas não há limites de acesso.
Ao contrário do gato da vizinha que bate ponto na microvaranda 2X2, conhecida como latifúndio, que dá acesso à casa do moinho. Volta e meia tenta me dar um vareio e, distraidamente adentrar a sala pela janela.
Enfim, antes do meu mundo começar a andar (e olha que ele vai desembalar na corrida com a proximidade do carnaval), observo e gravo na memória as pequenas nuances do entorno.
Ao som do rio e do vento no bambuzal folhas passeiam pelo ar caindo na superfície espelhada da água.
Já observou o caminho das formigas, o voo das libélulas, o nascer e desabrochar de uma flor ou de cogumelinhos no gramado?
Sentiu o prazer de ver brotar e se desenvolver uma semente que você plantou num vasinho na varanda?
Não dá like nem engajamento. Não viraliza, mas proporciona a um ser humano sensível uma indescritível e sutil sensação de prazer.
Como ser testemunha de um pôr do sol cinematográfico imponderável.
Sim, a vida ultimamente tem sido mais surpreendente que qualquer ficção. Especialmente para o mal.
Mas quando não temos a opção de mudar essa realidade contundente, resta a opção de voltarmos nossos olhos às coisas miúdas que fazem valer a pena.
Até que o marinheiro novamente avise que vem aí bom tempo…*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Não sei onde enquadrar” do SEM FIM… delcueto.
Valéria del Cueto
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