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Turismo receptivo no Brasil cresce 30% em 6 anos e perfil das atividades muda para experiências

Nos últimos anos, o Brasil ascendeu no turismo receptivo, segmento de operadoras e agências especializadas em receber estrangeiros ou brasileiros, oferecendo serviços de transporte, guia local e passeios. As empresas ouvidas pelo Viagem são consolidadas e existem há mais de 25 anos no turismo receptivo brasileiro. Seu faturamento cresceu aproximadamente 30% de 2019 até 2025, quando o Brasil bateu recorde com 9 milhões de visitantes do exterior.

Em relação ao estilo de viagem, segundo os entrevistados, o momento pós-pandemia modificou as preferências dos turistas: as experiências alternativas, como conhecer comunidades e acompanhar a produção de artesanato ou comida local, ganharam mais atenção. “Houve uma mudança muito grande no serviço exclusivo e nas experiências. Por exemplo: vamos à praia, mas, antes, passamos em uma comunidade quilombola para conhecer a cultura deles”, conta Christiane Teixeira, diretora do Luck Receptivo de João Pessoa, na Paraíba.

A Luck atua no Nordeste e, nos últimos seis anos, a empresa viu seu faturamento subir 30%. “Enquanto as agências de viagens mandam os passageiros para fora, a gente recebe no nosso local. Uma empresa de receptivo é indutora e fomentadora do desenvolvimento do turismo regional. Recebemos o passageiro, levamos do aeroporto para o hotel e fazemos vários passeios, desde os padrões, como city tour, até os mais diversificados”, explica Christiane.

Esse comportamento também foi destacado pela CEO da Brocker, empresa de turismo receptivo na Serra Gaúcha, Any Brocker. “Estamos cada vez mais fortes nos roteiros de natureza, gastronomia e cultura. Temos um roteiro no Parque do Caracol com limitação diária de passeio, em grupos de até 35 pessoas, e a programação está praticamente lotada. Claro, os roteiros tradicionais também têm ótima demanda, mas os de natureza estão com alta procura”, disse.

Na comparação com 2019, a empresa encerrou 2025 faturando mais 51%. Nesse ciclo positivo, 2024 é exceção: as enchentes no Rio Grande do Sul tornaram inviável o turismo na região, com o aeroporto de Porto Alegre interditado. A Brocker teve queda de 40% no faturamento na época. No ano passado, a empresa fechou com 2% a mais do que o valor de 2023, o esperado para a retomada. Agora quer continuar se recuperando em 2026.
Cascata do Caracol, com queda de 131 métros, é vista em Canela-RS. 18/05/2010
Interesse por passeios na Serra Gaúcha cresce entre os turistas que a Brocker recebe

A operadora Orinter, de São Paulo, com atuação B2B no mercado de agências receptivas ou seja, não vende para o público final, cresceu 384% no faturamento de 2019 a 2025. A empresa atende cerca de 6 mil agências e, atualmente, 15% são de receptivo. Nos últimos cinco anos, havia em torno de 3%.

Roberto Sanches, diretor-geral da Orinter, informou que a empresa tem uma área de incoming (receptivo) para acompanhar as tendências dos estrangeiros. “A questão cultural está muito forte. Vemos praias sendo referência de beleza natural e prestação de serviços, como pousada de luxo e gastronomia. Os turistas querem desbravar. Além dos argentinos e chilenos, que são os principais, temos recebido mais europeus e asiáticos”, completou.

No entanto, ainda há resistência do público brasileiro nas viagens para dentro do próprio país em contratar uma agência de receptivo, dizem os entrevistados. “Principalmente por conta do idioma, o brasileiro pouco se programa para uma viagem no Brasil, nem sempre contrata um receptivo para ter a experiência no destino. Mas nós buscamos desmistificar essas situações. Por exemplo, pôr oportunidades em valores, como oferecer um pacote de experiências mais vantajoso do que comprar separadamente”, contou.

Estrangeiros gastam mais em serviços

Dados da Civitatis, plataforma que vende tours em diversos países do mundo, apontam que em 2025, o segmento de experiências cresceu quase o triplo se comparado com o turismo em geral, gerando um faturamento de US$ 253 bilhões somente na venda de experiências – e é por onde as agências de receptivo buscam crescer, principalmente entre o público estrangeiro.

Segundo o Banco Central, em 2025 os estrangeiros gastaram no Brasil US$ 7,8 milhões, enquanto os brasileiros deixaram no exterior US$ 21,7 milhões, quase o triplo. O motivo para tanta diferença é o perfil de turista: enquanto os brasileiros muitas vezes associam as viagens no exterior às compras, o estrangeiro busca no Brasil experiências e serviços.

“O estrangeiro pode consumir hotéis e restaurantes melhores gastando menos. Em relação ao dólar, esse gasto é cinco vezes menor. Há um poder de compra maior, mas é atrelado ao gasto em serviços. É diferente do turista brasileiro, que normalmente é o turismo associado a fazer compras”, explicou a coordenadora do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Claudia Yoshinaga.
português (BR) Português

Infinitas Travel, baseada no Rio de Janeiro, é também uma operadora brasileira de turismo receptivo que atende o mercado latino-americano, sendo os clientes outras operadoras de turismo. Nos últimos 10 anos, a empresa saltou de 160 para 256 clientes e aumentou o faturamento em 62% entre 2019 e 2025.

“Hoje em dia o menos é mais. O espaço vira luxo, se sentir único é luxo. É um contato mais perto com a natureza, um serviço personalizado. Além disso, uma tendência do mercado latino-americano é o turismo de esporte e musical: Fórmula 1 e Tomorrowland, por exemplo”, informou Mônica Marzulo, sócio-fundadora da Infinitas.

Ao Estadão, Bruno Reis, diretor de Marketing, Negócios e Sustentabilidade da Agência de Promoção Internacional do Turismo (Embratur), explicou que são realizados investimentos para ampliar a malha aérea de cidades secundárias de outros países, o que favorece a chegada de turistas principalmente da América do Sul.

“Nos últimos três anos, a gente leu melhor cada um desses mercados emissores, não só argentinos, mas paraguaios, uruguaios, chilenos, bolivianos, peruanos e colombianos. Pela primeira vez, a Embratur desenhou um programa de subsídio tanto para voos fretados, quanto voos regulares, serem apoiados pela Embratur em conjunto com aeroportos de outros países. Além de incentivarmos as companhias aéreas a realizar novas ligações”, explicou.

Recentemente, mais de 30 novas rotas regulares de voo internacionais foram implementadas no Brasil, entre o último semestre do ano passado e as previstas para esse ano. Entre as novidades, está o voo inédito saindo de São Luís para Lisboa e do Rio de Janeiro para Montreal e Toronto. Em 2025, a Embratur fez parcerias com a Associação Brasileira das Operadoras de Turismo (Braztoa) e com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) para criar catálogos de experiências para oferecer para estrangeiros no Brasil.

Estadão Conteudo

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