Pegar ônibus coletivo é a parte do dia mais estressante de qualquer trabalhador que acorda cedo e enfrenta a espera, veículos sucateados, lotados, além da falta de preparo de alguns profissionais deste setor. É assim que muitos cuiabanos veem o serviço prestado à sociedade pelas empresas que exploram o transporte coletivo há quase 20 anos em Cuiabá.

O diretor de Transporte da Secretaria de Mobilidade Urbana de Cuiabá (Semob), Nicolau Jorge Budib, explica que o contrato firmado com as empresas e a Prefeitura de Cuiabá ainda no ano de 2002 não atende a população e a cidade se modificou desde então.
De acordo com Budib, Cuiabá não aguenta esperar a conclusão do VLT para só então realizar a licitação do transporte. Ele ainda aponta para a falta de cuidado quando o contrato foi elaborado, pois não previram o crescimento vertiginoso da capital.
“Esse tema tem que ser tratado com muito cuidado, pois a concessão do transporte coletivo é de 15 a 20 anos, então o que nós decidirmos agora vai impactar a vida dos nossos filhos. É isso que está acontecendo hoje, porque não tomaram o devido cuidado lá atrás ao não prever o crescimento da cidade da forma como ela cresceu”, afirma Nicolau.
Nicolau explica que a demora em realizar a licitação se deve à preocupação do prefeito em colocar regras claras no certame. Além disso, existem questões como o Buscar [serviço de atendimento aos cadeirantes], falta de ar condicionado, wi-fi, serviços que não estavam previstos naquela época e que são oferecidos hoje.
O diretor da Semob ainda observa que como todos os veículos possuem rampa de acessibilidade, o serviço Buscar poderia ser absorvido pelo transporte tradicional. Ele ainda prevê que a empresa deverá investir em construção de novos terminais, além de definir a responsabilidade de manutenção e construção de abrigos, uma vez que atualmente cada empresa é responsável por apenas 25 abrigos.
Frota deve reduzir em 40%
De acordo com Nicolau Jorge Budib, com a implantação total do VLT, a frota de ônibus deve diminuir em 30% ou 40%. Por isso, ele orienta cuidado para não sofrer um revés jurídico posterior, como uma indenização às empresas devido à diminuição da frota e, como consequência, dos lucros.
“Como seria feita essa indenização? Isso não está bem claro no estudo da licitação. Outra coisa são os alternativos, se vamos ou não contemplar os alternativos. Se formos contemplar, é preciso fazer uma licitação apenas para os micro-ônibus. Tudo isso o prefeito precisa definir antes de fazer a licitação”, explicou Nicolau Budib.
Segundo Budib, o estudo sobre a licitação realizado no final da gestão do ex-prefeito Mauro Mendes não deixou clara a questão de uma possível indenização, além de não apontar quem seriam os responsáveis pelos pontos de ônibus, dentre outras questões. Nicolau explica que no momento Emanuel Pinheiro estuda o trabalho realizado na gestão Mauro Mendes, para ver se concorda ou não.
“Foi realizada inclusive uma audiência pública, mas a gente entende que é insuficiente, até porque nesta audiência não houve muita participação popular”, afirmou Nicolau.
Usuários reclamam de demora e da qualidade dos ônibus

O estudante Vinicius Gustavo Martins, 25, avalia que para realizar a licitação seria interessante aumentar a frota de ônibus, pois assim iria diminuir o tempo de espera no bairro onde ele mora, o Santa Inês. “No bairro onde eu moro passa ônibus a cada 40 minutos e em finais de semana é mais de hora para passar”, argumentou.
Já a babá Annyelly Medeiros, que mora no bairro 1º de Março, reclama do estresse dos motoristas, e que estes descontam suas dores nos passageiros, além do tempo de espera gasto para recarregar o cartão transporte. Ela se queixa também do tratamento dos motoristas dispensado ao público idoso, já que muitos se recusam a parar para essas pessoas nos pontos.
“Eu saio do meu serviço às 15 horas, da Avenida Miguel Sutil, tenho que pegar dois ônibus e vou chegar em minha casa lá pelas 17 ou 18 horas. Então é muito demorado. Com esse negócio que eles fizeram de cartão para enrolar menos, muitas vezes acaba atrasando ainda mais a viagem”, diz a babá.
Para a aposentada Cleonildes Ferreira de Gois, 75, que mora em Cuiabá há 52 anos, o serviço é péssimo e precisa melhorar em tudo. Ela protesta contra a má qualidade dos ônibus, além do tempo de espera do que atende a linha 225, ao qual ela já esperava há 40 minutos no momento em que concedia esta entrevista.
“É péssimo, porque nem todos eles querem parar no ponto para pegar o idoso. Muitos não deixam o cidadão acabar de sair do ônibus e já saem, como já aconteceu comigo e eu caí. Não têm educação. Eles acham que os idosos não podem ter prioridade. Não sei se é mandado pelas empresas, mas o atendimento é péssimo”, pontua a aposentada.
Já a psicóloga Stefany Bastos defende a realização de uma nova licitação, mas desde que a sociedade seja ouvida por meio de audiências públicas. Ela afirma que é necessário melhorar qualidade e quantidade dos ônibus, principalmente para as pessoas com necessidades especiais e idosas.
“Acredito que a licitação irá ajudar, mas com debate junto à população. Não adianta eles tomarem a decisão lá no meio deles, sendo que os maiores interessados, que somos nós, não estão sabendo como que será. Eles que estão lá andam de carro próprio, não sabem da nossa necessidade real”, diz Bastos.
População deve fazer denúncia à Ouvidoria
A população cuiabana usuária do sistema de transporte coletivo deve fazer reclamações na Ouvidoria da Prefeitura em relação à qualidade dos serviços prestados.
“Assim podemos apurar a informação e punir a empresa ou o funcionário, caso seja necessário”, diz o diretor Nicolau Budib, observando que o cidadão precisa informar o itinerário, o número do veículo e o horário e o dia.
A maioria das irregularidades denunciadas se refere a problemas comportamentais, segundo o diretor. Quando isso ocorre, o motorista é chamado para prestar esclarecimentos e caso seja reincidente ele pode até ser suspenso ou excluído do sistema, tudo dependendo da gravidade. O número da ouvidoria da Semob é 3315-4220.
“O transporte coletivo é uma coisa meio estigmatizada, como se fosse o SUS. As pessoas reclamam do transporte, mas quando você vai verificar na Ouvidoria, que é onde a gente tem um termômetro para tomarmos as decisões, a gente praticamente não encontra reclamações”, afirmou.
Nova licitação deve contemplar os alternativos e o Buscar
O procurador-geral do Município (PGM), Nestor Fidelis, afirma que o problema do transporte coletivo na capital não é de hoje e que o prefeito Emanuel Pinheiro, quando candidato, afirmou que a situação não ficaria do jeito que está. As dificuldades, segundo o procurador, são diversas, incluindo o transporte alternativo que trabalha com liminares.
Segundo Fidelis, a prefeitura firmou um Termo de Ajustamento de Conduta no qual o município se comprometeu em impedir a circulação dos micros até o final deste ano, enquanto há liminares apontando na direção contrária, de que o transporte alternativo não pode ser impedido de trabalhar.
“É necessário um estudo bem elaborado para que o município possa preparar uma licitação que contemple todos os atores deste cenário. Nessa política do prefeito Emanuel Pinheiro de humanização, ele não exclui nenhuma categoria, mas sempre primando pelo interesse maior que é da sociedade cuiabana”, afirmou Fidelis.
Na nova licitação, Nestor defende que ela contemple o transporte Buscar, os alternativos e o VLT. “Mas como vai contemplar o VLT se a gente não sabe se ele vai ser uma realidade ou não? Vai fazer uma medida transitória? Em que momento passa a contemplar? Então, para tudo isso tem que ser feito um estudo, que está sendo feito pela Semob”, disse Fidelis.
O procurador não soube informar com certeza se a licitação será realmente realizada ao final do prazo dado pelo prefeito Emanuel Pinheiro, que venceria em meados de setembro.



