Se em Roraima a violência e o medo geraram nas últimas duas semanas retorno em massa de mais de ao menos 50% dos imigrantes venezuelanos, os poucos que escolheram Mato Grosso como destino afirmam que estão satisfeitos com a acolhida. Os venezuelanos que vivem em Cuiabá relatam haver ‘calor humano’ e oportunidades para recomeçar.
Apesar da onda migratória na fronteira com a Venezuela, em Pacaraima (RO), que soma mais de 100 mil pessoas em busca de refúgio no Brasil, apenas 119 venezuelanos passaram neste período pela Pastoral do Migrante de Cuiabá, que vem prestando apoio às famílias, mesmo sem receber apoio em recursos do programa de interiorização do governo federal.
Rafael Roja, de 29 anos, veio de bicicleta com outros três amigos (Rafael, João e Robson) para Cuiabá. Eles viajaram de Santa Elena de Uairén, cidadezinha venezuelana a 15 km da fronteira com o Brasil, depois, seguiram até Santarém, no Pará, mas, em razão do clima de tensão e da falta de trabalho, preferiram descer a Mato Grosso.
Com pouco mais de quatro meses em solo cuiabano, todos estão trabalhando, dois em uma empresa de transportes, outro em uma fábrica de Várzea Grande e o quarto obteve uma vaga em Campo Grande (MS), para onde se mudou recentemente. “Já comecei a juntar dinheiro para trazer minha esposa e meus dois filhos”, conta Rafael, que alugou uma quitinete e está se adaptando ao clima e à cultura cuiabana.
Pintor e funileiro profissional em seu país, Roja sonha em encontrar uma vaga na área em que já tem mais de 10 anos de experiência, para poder comprar uma casa e se estabelecer em solo brasileiro. Por enquanto, quer ficar. “Ainda não consigo me sentir parte desta terra, porque tenho muita saudade da Venezuela, mas sem dúvida aqui é um paraíso se compararmos ao que estávamos vivendo”.

Sim, gente do bem existe em toda a parte. Durante a viagem, ele conta que dependeu da compaixão da população mato-grossense nas cidadezinhas, fazendas, postos de gasolina e principalmente de caminhoneiros às margens das rodovias, que ofereceram abrigo nos dias de chuva, alimento, água e espaço para descansar nas noites geladas debaixo da boleia do caminhão. “A gente começava a rodar às 4 da manhã e só parava às 8 da noite, foram mais de 3 mil quilômetros, chegamos exaustos e sujos, mas esperançosos”.

O colega de empresa Andreas Subero, de 22 anos, que tem formação como eletricista pelo Instituto Universitário de Tecnologia Del Mar Guayana, também chegou há poucos meses, mas com o avião da Força Aérea Brasileira (FAB). Mais jovem e tímido, ele explica que está se esforçando para conseguir fazer um trabalho diferente do que realizava em seu país, onde deixou a mãe e os irmãos. “Mesmo feliz com nosso progresso, ainda há um peso de não sermos daqui, de sermos diferentes”.
Na Carvalima Transportes, a psicóloga Leydy Anny dos Santos Dias afirma que os próprios donos se solidarizam com a situação dos imigrantes e buscaram meios de contratá-los. O quadro de funcionários abrange três venezuelanos e três haitianos que têm inclusive perspectivas de ascensão de cargo.
“Um dos haitianos, o Jean, vem se destacando muito por ser esforçado, comprometido e de confiança. Só não foi promovido ainda como conferente no setor dele porque esbarra na dificuldade com o computador, algo que vamos buscar ajudá-lo a resolver”. O entrosamento com os demais não tem sido difícil, mesmo com a barreira da língua, que no caso dos haitianos é maior que com os venezuelanos. “Eles são muito fortes, resilientes e pensam muito na família”.
Marilete Mulinari Girardi, auditora fiscal do trabalho no estado, esclarece que dos 119 venezuelanos recebidos com intermédio da Casa Civil da Presidência da República, de três grupos de interiorização, 35 eram menores de idade (1 a 17 anos) e 84 adultos (18 a 57 anos), sendo 30 mulheres e 54 homens. Uma parte deles com ensino médio e até superior completos.
Trabalho sim, escravidão não
Uma parceria com o Sine (Sistema Nacional de Emprego) permitiu que refugiados venezuelanos conseguissem trabalho e um lugar para morar; entre eles, há aqueles inclusive com formação de nível superior: enfermeiros, professores, contadores e engenheiros.
Além da capital, houve várias vagas no interior, entre elas, em Santo Antônio de Leverger, Jaciara e Nova Ubiratã, para trabalhar em fazendas. Há ainda um grupo que vive em Tangará da Serra (242 km de Cuiabá), que recebeu apoio de um conterrâneo que mora no Brasil há mais de 30 anos.

Os encaminhamentos para trabalho são para todas as áreas disponíveis, turismo, comércio, indústria, construção civil e também serviços gerais. “Nós acompanhamos esses trabalhadores e damos suporte para que sejam inseridos em boas vagas de emprego, dentro da legislação e com salários compatíveis com o oferecido no mercado", enfatiza Marilete.
Uma das preocupações do Ministério do Trabalho e da próprio Organização Internacional do Trabalho (OIT) é com a possibilidade de esses refugiados serem vítimas de trabalho análogo à escravidão, algo que Rafael Roja afirma não estar muito longe de acontecer. “Era muito comum em Roraima ou no Pará a gente não receber o salário ou apenas uma parte, chegamos em Cuiabá com medo”. O colega Robson, ainda meio ‘traumatizado’ com tudo que passou, preferiu não conceder entrevista. “Não quero relembrar, ainda dói”.
Fugindo da fome
O sonho de reconstruir a vida no Brasil também já é uma realidade para a dona de casa Ligibeth Carolina Salazaron, de 33 anos, que está morando há 25 dias com o marido e três filhos na Pastoral do Migrante, no bairro Carumbé. “O calor do povo cuiabano ameniza a dor da saudade e o medo”. Ela acrescenta que só quem passou por um conflito como este, tendo que fugir da fome e do desemprego, sabe o que os venezuelanos estão passando.

“Viemos por acreditar que aqui é um país melhor, onde poderíamos oferecer uma boa vida à nossa família”. Ligibeth explica que passou por Roraima, mas preferiu seguir para Cuiabá, por causa do ‘acolhimento caloroso’. Animada, conta que o marido, Aquiles Daniel Amatima, 29 anos, conseguiu uma colocação como ajudante em uma empresa de carga e descarga há duas semanas e logo poderão alugar uma casa.
“Ainda sofremos muito por saber que o resto da família enfrenta dias muito difíceis na Venezuela. Já a minha mãe e duas irmãs estão aguardando a possibilidade de vir de Manaus também para Cuiabá”. Ela se diz feliz, ao abraçar Angel, 4 anos, filho mais novo e serelepe, que abocanhava um pão no café da manhã; os mais velhos – Franel, 14, e Aquiles, 10 – aproveitavam a manhã fria de Cuiabá para dormir.
Feliz com o primeiro salário de ajudante na obra do novo shopping de Cuiabá, localizado na Avenida Miguel Sutil, Albert Estrada, 22 anos, diz que recebeu com surpresa e tristeza as dificuldades enfrentadas pelos venezuelanos em Roraima. Ele deixou a faculdade de psicologia na capital Caracas para viver o sonho de morar no Brasil há um ano e não se arrepende.
“Já passei por Manaus, Porto Velho, Roraima, mas resolvi comprar uma passagem para ir até São Paulo, mas ao parar em Cuiabá gostei muito e preferi ficar. Inicialmente uma família me ajudou e depois vim para a Pastoral. Não tenho do que reclamar, sou tratado com respeito e tenho uma boa perspectiva de futuro”, avaliou o jovem que por enquanto não pensa em retomar os estudos. “Quero trabalhar dia e noite, ajudar minha família que ficou na Venezuela”.
As barreiras com a língua não o impedem de fazer novos planos, quer avançar com o aprendizado da Língua Portuguesa e também se matricular em aulas de inglês. Sem celular depois que foi roubado em Porto Velho, lugar em que diz ter conhecido muitas pessoas ruins, ele se comunica com o pai, a mãe e uma irmã apenas pelas redes sociais (Facebook). “Minha mãe é espanhola e queria que eu fosse morar na Espanha, mas sei que por lá as coisas são difíceis também, meu sonho sempre foi vir para o Brasil, sempre amei este país”.
Acolhimento necessário
Pelo menos 300 mil pessoas, entre imigrantes e migrantes, passaram por Cuiabá nos últimos quatro anos, a maioria estrangeiros, demanda que vem sendo atendida pela Casa Pastoral do Migrante, que há 27 anos oferece ajuda humanitária aos que não têm lugar para ficar ou o que comer.
Só neste ano mais de 460 estrangeiros passaram pela instituição, demanda aproximadamente 40% maior que no ano passado, que atendeu no total (entre janeiro e dezembro) 543 pessoas, a maioria composta por haitianos. Este ano, a coordenação da Casa acredita que o número total de migrantes acolhidos será maior que em 2017.
Ainda sem apoio formal do governo federal, a Casa sobrevive de ajuda da Prefeitura de Cuiabá e de doações da comunidade. “Toda ajuda é bem-vinda. Normalmente eles chegam numa situação de muita vulnerabilidade e ficam na casa um período de 45 dias, até arrumar trabalho, alugar uma casa e receber o primeiro salário. Mas esse tempo pode ser estendido, depende da necessidade de cada um”, explica Eliana Vitaliano, coordenadora da entidade.
Nesse tempo as pessoas alojadas recebem alimentação, têm lugar para dormir, além de roupas, sapatos, orientações e ajuda com documentação. Conforme a Pastoral, não há nenhum impedimento para que os refugiados possam migrar para o interior de Mato Grosso, desde que tenham carteira de trabalho regular e atuem de forma legalizada no mercado. É o caso de Luzmar Blanco, 26 anos, contadora, que veio sozinha para Cuiabá. "Enfrentamos crise em todas as áreas, saúde, economia, política, está tudo um caos”. Ela chegou a Cuiabá em abril deste ano, junto com outros 65 migrantes.
Para se habilitar ao deslocamento, a maioria foi imunizada contra doenças, como sarampo, caxumba, rubéola, febre amarela, difteria, tétano e coqueluche. Para facilitar na contratação, principalmente para melhores cargos, a auditora do Trabalho Marilete explica que a Pastoral oferece, por meio de uma parceria com o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso (IFMT), aulas de Língua Portuguesa aos refugiados.
Copa do futebol e da imigração
Diferente de Roraima, onde venezuelanos estão cruzando de volta a fronteira por causa de ataques de brasileiros, em Mato Grosso, desde as obras Copa do Mundo, em 2013, o fluxo de imigrantes começou e não parou mais. Pessoas de muitas nacionalidades estão se instalando na capital e no interior, entre eles, também cubanos, haitianos, peruanos e brasileiros de regiões mais pobres, como o nordeste.
Marilete Girardi conta que haitianos e venezuelanos costumam vir sozinhos, deixando a família em seu país, para depois se organizarem, trazê-los. Já os venezuelanos, talvez pela maior proximidade, têm feito o êxodo até o Brasil carregando inclusive crianças pequenas. “Claro que o preconceito existe, mas percebemos que no nosso estado as pessoas ligam, querem ajudar, sentem-se consternadas com o sofrimento deles. Os empresários fazem questão de oferecer oportunidade de trabalho”.
Na Secretaria de Estado de Trabalho e Assistência Social (Setas), a informação é de que a Prefeitura de Cuiabá tem hoje a responsabilidade de acompanhar os imigrantes e oferecer, com os recursos já disponíveis, o acolhimento necessário. "A secretaria municipal também está responsável por elaborar um plano de interiorização para apresentar ao Ministério (do Desenvolvimento Social – MDS)", disse a superintendente da área, Mirami.



