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‘Terror em Silent Hill: Regresso para o Inferno’ é adaptação sem alma que mal parece cinema

Vinte anos separam Terror em Silent Hill de Terror em Silent Hill: Regresso para o Inferno, longa-metragem que chegou aos cinemas na quinta-feira, 22. Tanto tempo assim pode dar a impressão de esmero, cuidado com a história, preocupação em agradar o público e os fãs do material original, um videogame que é sucesso desde 1999. Mas não: o filme, que volta a ser dirigido e roteirizado pelo francês Christophe Gans, nunca encontra sua essência.

Na história, de novo um personagem perdido em busca de alguém em Silent Hill. Enquanto o longa de 2006 falava sobre uma mãe em busca da filha, este aqui — inspirado no segundo jogo da franquia, lançado em 2001 — fala sobre James (Jeremy Irvine), um homem em busca da mulher amada, Mary (Hannah Emily Anderson), perdida na cidade assombrada.

Para quem não está familiarizado com o jogo, a história é uma bagunça só. Em momento algum é explicado que Terror em Silent Hill: Regresso para o Inferno não se conecta com o anterior, Terror em Silent Hill. O título em português, aliás, dá essa noção de continuidade. Mas não: são histórias absolutamente separadas e que nada têm em comum. O final do longa de 2006 não se comunica com o de agora, deixando tudo um tanto estranho. Faltou sagacidade de mostrar, de forma não-didática e clara, que são filmes independentes.

Compartimentos

Essa decisão, de acreditar que o público vai compreender essa independência por já ter um conhecimento prévio dos videogames, não fica restrita apenas à falta de contexto. A história em si parece ser um amontoado de cenas de videogame, mas com atores reais. Há pouca, ou até mesmo quase nada, continuidade narrativa aqui: James anda pra lá e pra cá, lembra o passado com Mary e enfrenta meia dúzia de monstros. É, de fato, como se fosse o game filmado, sem qualquer alma na história e sem a sensação de ser cinema. Parece um jogo.

Por mais que isso anime alguns fãs do videogame, a experiência fica empobrecida. Cinema é visual, história, trilha sonora, atuação. Tudo isso, por mais que exista, fica soterrado em dezenas de decisões equivocadas de Gans, aflito em apenas emular, não criar. Aliás, o diretor francês parece outra pessoa quando comparado com o trabalho em 2006. Enquanto o outro filme tem criatividade e um desejo de amplificar a história, este aqui fica muito restrito ao seu próprio mundo. Até os efeitos especiais dão uma sensação de digital, mesmo os monstros interpretados por atores e dançarinos — a forma de filmar torna tudo artificial.

Há uma interessante conexão entre a história de James com o Mito de Orfeu, principalmente pela tentativa de resgatar a amada do submundo. Mas isso, de forma alguma, é crédito do filme, e sim do game lançado há 25 anos.

A sensação, quando os créditos sobem na tela, é que Gans fez um pobre resumo audiovisual do que é o game. Ao invés de jogar 14 horas, é possível assistir a essa história por 100 minutos e ter uma ideia do que passa. Emoções, tensão, medo, aflição: nada disso acontece aqui, já que a vontade é resumir, nunca contar uma história de fato.

Chega a ser difícil entender o que aconteceu, principalmente pelo bom trabalho do cineasta no filme de 2006. Pressão de produtores? Da Konami? Menos inspiração? É sabido que os bastidores foram complicados — diferentemente do primeiro filme, com Sony e outros estúdios, este foi financiado de forma independente pela Davis Films, com 1 milhão de euros vindo de um fundo alemão (FFY Bayern). Gans enfrentou dificuldades: terminou a edição só em janeiro de 2025, após problemas com produtores executivos. Mas isso basta para tanta coisa errada?

É complicado saber. O que é concreto, mesmo com as dúvidas todas, é que Terror em Silent Hill: Regresso para o Inferno é uma bomba — a primeira, de fato, de 2026.

Estadão Conteudo

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