Conhecida pela violência, a região do Pedra 90 apresenta características diferentes dos outros bairros da capital. Ali, há a predominância nas ocorrências policiais é de crimes praticados contra a vida.
Em entrevista ao Circuito Mato Grosso, o comandante do 24º Batalhão de Polícia Militar, tenente-coronel Anderson Luiz da Silva, falou que a peculiaridade da região faz com que esses crimes geralmente estejam ligados a acerto de contas entre facções.
Outros fatores que fazem os bairros que formam o Grande Pedra 90 apresentarem uma da mais alta taxas de homicídio de Mato Grosso em 2015 são de ordem socioeconômica.
“Aqui é constante o registro de ocorrências em que o marido sai para beber e volta para casa embriagado e agride a mulher ou tenta algo mais grave. Ou de pessoas que, no bar, iniciam uma discussão e logo já vira uma tentativa de homicídio, além das questões envolvendo as facções”, completou Anderson Luiz.
O abandono de carros roubados no Pedra 90 também é muito comum. A região do Cinturão Verde é o ponto mais comum para esse tipo de localização pós-roubo e furto de veículos. “Quase que diariamente acontece a localização de veículos por parte da nossa equipe. Os ladrões acabam desmanchando ou abandonando ali os carros e motos roubados para possível revenda”.
Questionado sobre a atuação do Comando Vermelho (CV-MT) na região, o comandante disse que sabe que a fação existe por meio da imprensa. Ou por meio dos vídeos que acabam viralizando nas redes sociais e que são associados ao grupo. A sigla do grupo ocupa grande parte dos muros do Pedra 90.
“Aqui já encontramos nos bairros a sigla pintada. Fomos lá, pintamos, e os criminosos acabaram pichando novamente o símbolo da facção ainda mais forte de onde foi apagado, porém trabalhamos para tentar coibir qualquer ação que possa colocar em risco a vida do cidadão e evitar crimes”, informou o comandante.
Alguns membros do CV-MT vivem na região do Pedra 90. No domingo, os policiais do 24º Batalhão realizaram no bairro Nova Esperança II a detenção de um professor. Ele era conhecido por conta do filho que seria integrante da facção criminosa e teria cometido um furto minutos antes, sendo denunciado pela própria vítima.
“Infelizmente aconteceu de a gente ter que levar o professor à delegacia, pois encontramos os materiais em sua residência, mas ele explicou ao delegado toda a situação e foi liberado”, afirmou o comandante. Entre os “materiais” apreendidos na casa do docente estavam uma submetralhadora MP 28, um carregador, maconha e um aparelho de celular e documentos em nome de uma terceira pessoa que o pai do suspeito não soube informar a procedência.

Anderson Luiz ainda relatou que o filho do professor detido, que ainda está foragido, ameaçou o denunciante que teve a casa furtada e a vítima corre risco de vida. “O acusado voltou na residência e deu o prazo de 48 horas para que a vítima de furto levantasse dinheiro para pagar a submetralhadora apreendida pela PM e que pertenceria à facção criminosa, o CV-MT”, afirmou o comandante, que espera pelo pior. “Poderemos ter um possível homicídio tanto da vítima ou até mesmo do pai do acusado”, revelou.
Vitimas de violência contra mulheres ganharam casas na região
Com o desenvolvimento do Pedra 90, na época foi criado o bairro Voluntários da Pátria, uma parceria com o 9º Batalhão de Engenharia e Construção (BEC) para abrigar os soldados e oficiais da época. Porém pela distância, a área foi cedida para mulheres vítimas da violência doméstica ou que estavam saindo do sistema prisional, e para moradores que haviam perdido suas casas em enchentes.
Essas pessoas foram levadas para o Pedra 90, porém hoje o local leva o nome de bairro Voluntários da Pátria. Mulheres que estavam no período de risco, que estavam sendo ameaçadas e a Justiça as afastara dos respectivos companheiros para que não sofressem violência, eram levadas para lá, segundo Baiano.
Ele conta que infelizmente a violência contra a mulher no bairro ainda é muito presente. Segundo ele, uma semana antes da realização desta entrevista, um homem “brincando” com sua companheira de roleta-russa, teria dado um tiro em sua cabeça, outro teria matado a parceira a facadas e, num terceiro caso, a esposa matou o companheiro por estar cansada de sofrer violência doméstica. Isso tudo em um período de 15 dias.
“O homem precisa respeitar a mulher. Nós temos que conscientizar os moradores, e fazemos isso através de ações assim. Para conscientizar que as mulheres precisam de respeito. O Pedra 90 tem que ter um resultado de conscientização, de investimento, de acompanhamento, de prevenção de verdade. Não só na época do Dia Internacional da Mulher, mas todos os dias”.
O JOGO – * Roleta-russa é um jogo de azar em que os participantes colocam uma bala – geralmente apenas uma – em uma das câmaras de um revólver. O tambor do revólver é girado e fechado, de modo a que localização da bala seja desconhecida. Os participantes apontam o revólver para suas cabeças e atiram, correndo o risco da provável morte caso a bala esteja na câmara engatilhada.
Feminicídio ainda é realidade no Pedra
A violência contra a mulher é outra constante na região do Pedra 90. Uma triste ironia, uma vez que alguns bairros dali foram criados justamente para serem “abrigos” para mulheres vítimas de violência doméstica (ler matéria especial nas páginas 4 e 5).
Um dos casos mais recentes, e brutais, aconteceu na madrugada de quarta-feira (28/02). Everton Marcos Stoppi, 22 anos, foi preso por policiais militares na rodovia BR-364 quando pretendia deixar a capital, uma hora depois de ter matado sua esposa com um tiro na cabeça em uma residência no Nova Vitória.
De acordo com a Polícia Civil, a Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) foi até ao local colher as informações do assassinato, e chegando ao endereço encontrou a vítima caída no chão da sala. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) já havia atestado o óbito da mulher identificada como Daniela de Oliveira Corrêa, 31 anos.
O suspeito acabou confessando o crime aos policiais, porém alegou que o tiro foi acidental e que teria ocorrido durante uma discussão do casal. Da BR-364 Everton foi encaminhado à sede da DHPP em Cuiabá, onde foi ouvido pela delegada plantonista Ana Cristina Feldner.
A delegada, após ouvir o acusado, informou que o preso foi autuado por homicídio qualificado em feminicídio. "Daniela era uma mulher que não trabalhava e era subjugada naquela situação. Ela não tinha sequer o direito de se manifestar. Ela falou algo, ele não gostou e isso lhe deu o direito de dar um tiro na testa da vítima", disse.
Medo reduziu denúncias e violência cresceu
Romper com o pacto de silêncio seria um grande aliado para o combate ao crime na região do Pedra 90. Segundo o tenente-coronel Anderson Luiz da Silva, essa maior participação da comunidade realizando denúncias de forma anônima e contribuindo com as forças de segurança ajudaria no trabalho integral da polícia.
“Antes existia uma maior participação da comunidade junto à Polícia Militar, realizando denúncias, mas essa colaboração diminuiu de um tempo pra cá. Não sei se por medo, represália ou algo do tipo, mas o cidadão pode ficar tranquilo que todas as denúncias são anônimas pelos nossos canais de comunicação”, ponderou Anderson Luiz.
O comandante informa que hoje 146 policiais atuam na região, mas que o ideal seria o dobro. Para ele, com o baixo efetivo, toda ajuda é fundamental, para que os crimes sejam combatidos na região. “Como citei, aqui também há furtos, roubos e tráfico, como em outros lugares, mas se os moradores nos ajudarem esses índices irão diminuir ainda mais”, diz.
O comandante afirma que as denúncias ajudaram áreas vizinhas no combate ao crime e na redução dos números da violência. “Por exemplo, no Cinturão Verde, os moradores se vigiam e qualquer movimentação estranha na região ou de pessoas que não seja moradores locais, eles já entram em contato conosco e nos informam; já aqui na área urbana é mais difícil e cada um se preocupa com si mesmo, deixando o vizinho desprotegido”.
Os moradores que queiram fazer uma denúncia à Polícia Militar dispõem de três números em que podem ligar e passar as informações anonimamente, sendo eles o 190, o 0800 65 3939 e também o telefone do 24º Batalhão que fica localizado no São João Del Rey e atende toda a região: (65) 3675-1395 / 99989-2554.

