Olinda Altomare Opinião

Respeito Não é Gentileza, é Dever.

O futebol, tantas vezes apresentado como território da paixão e da emoção intensa, revelou mais uma vez que não é apenas um jogo. É palco social. É vitrine de mentalidades. E o que se viu recentemente em campo, quando o jogador do Bragantino, Gustavo Marques, afirmou que “colocar uma mulher para apitar um jogo deste tamanho” era inadequado, não foi apenas um comentário impensado. Foi a exposição nua de uma estrutura de pensamento que ainda resiste, mesmo após décadas de debate sobre igualdade.
Não houve ali uma crítica técnica. Não se discutiu critério, posicionamento ou interpretação das regras. O argumento apresentado foi o gênero. E quando o gênero se torna justificativa para desqualificar competência, estamos diante de algo que ultrapassa o esporte. Estamos diante de discriminação.
A frase carrega uma ideia antiga e perigosa: a de que existem espaços “grandes demais” para mulheres. Como se autoridade tivesse sexo. Como se liderança dependesse de biologia. Como se jogos importantes exigissem, além de preparo técnico, um requisito invisível e masculino.
A indignação que o episódio provoca não é exagero. É necessária. Porque palavras moldam percepções. E percepções sustentam estruturas. Quando um atleta, diante de milhões de espectadores, afirma que uma mulher não deveria apitar um jogo de grande porte, ele não atinge apenas uma profissional específica. Ele reforça uma cultura que mantém mulheres sob permanente suspeita.
E essa suspeita constante é a face moderna da desigualdade. Já não se diz, de forma aberta, que mulheres não podem ocupar certos espaços. Mas insinua-se. Questiona-se. Duvida-se. O erro feminino vira prova coletiva de incapacidade. O erro masculino permanece individual.
O pedido de desculpas posterior também merece reflexão. Gustavo Marques afirmou que se retratava porque sua esposa e sua mãe o repreenderam duramente. É significativo que a consciência tenha sido despertada no ambiente doméstico, pelas mulheres que ama, mas a dignidade feminina não pode depender de vínculos pessoais para ser reconhecida. A árbitra em campo não precisa ser esposa ou mãe de alguém para merecer respeito. Ela é profissional qualificada, submetida aos mesmos critérios e exigências que qualquer homem na mesma função.

Esse episódio ganha ainda mais peso na proximidade do Dia da Mulher. Multiplicam-se homenagens, discursos floridos, mensagens sobre força e sensibilidade feminina. Distribuem-se flores. Pronunciam-se palavras bonitas. Mas de que valem flores se ainda se questiona a competência? De que servem homenagens se, no cotidiano, a mulher continua sendo testada, provada e reprovada por critérios que não se aplicam aos homens?
A violência de hoje nem sempre é física. Muitas vezes é simbólica, emocional, silenciosa. Está na frase que diminui. No comentário que inferioriza. Na ideia de que determinados palcos não são “adequados” para mulheres. Essa violência corrói lentamente a percepção coletiva e ensina, geração após geração, que autoridade tem gênero.
Estamos avançando, é verdade. Mas ainda engatinhamos quando o assunto é igualdade real. E não basta celebrar o Dia da Mulher com gestos protocolares. É preciso enfrentar a estrutura mental que ainda associa liderança masculina à naturalidade e liderança feminina à exceção.
O futebol ensina sobre disciplina, superação e mérito. Talvez seja hora de aprender também sobre respeito. Competência não tem sexo. Firmeza não tem gênero. Autoridade não nasce do corpo, mas da preparação.
A indignação diante desse fato não é sobre um jogo específico. É sobre o modelo de sociedade que desejamos construir. Ou continuamos naturalizando comentários que diminuem mulheres, ou assumimos, de forma madura, que igualdade não se constrói com datas comemorativas, mas com mudança de mentalidade.
Que o episódio não seja tratado como deslize isolado. Que seja oportunidade de revisão profunda. Porque nenhuma sociedade evolui enquanto metade dela precisa, todos os dias, provar que é capaz de ocupar o lugar que já lhe pertence por direito.
Flores são gentis. Palavras são bonitas. Mas respeito é indispensável

@aeternalente

Olinda Altomare

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Olinda Altomare é magistrada em Cuiabá e cinéfila inveterada, tema que compartilha com os leitores do Circuito Mato Grosso, como colaboradora especial.

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