Jaguar, histórico cartunista brasileiro, morreu no domingo, 24, aos 93 anos. Ao longo das décadas, além de suas tirinhas ou charges publicadas em jornais como O Pasquim, também assinou alguns livros.
Entre as obras de Jaguar, a maioria são compilações republicando o que já havia feito de melhor nos periódicos. Mas há também diversos textos relatando histórias curiosas a respeito de sua vida, das pessoas com quem conviveu e dos lugares que frequentou.
Confira algumas das principais obras de Jaguar.
‘Átila, Você É Bárbaro’ (1968)
Em uma das edições mais recentes, lançada pela editora Sesi-SP, há uma caricatura do próprio Jaguar com a inscrição: “46 anos depois da primeira edição”. Seu personagem diz: “Comparado com os vândalos de hoje, o Átila não passa de um doce bárbaro”.
Na contracapa, destaca-se que “os cartuns de Jaguar mostram a força do humanista no combate à ignorância, ao preconceito, à violência”, envolvendo temas como política, religião, arte, psicanálise e fraquezas humanas.
Os desenhos são diversos. Alguns, são de humor simples, como um vampiro roubando um banco de sangue. Ou um grupo de homens das cavernas tendo o primeiro contato com o fogo, enquanto um diz: “Meu Deus! Isso é o fim da civilização!”. O talento de jaguar fica por conta dos detalhes, nas expressões de cada personagem, e por vezes na maneira em que faz o leitor refletir.
‘Ninguém É Perfeito’ (1973)
O livro foi publicado em 1973, mas apenas na Argentina. Acabou surgindo no mercado brasileiro somente muitos anos depois. “Voltei para o Rio, cai na gandaia e esqueci dele”, dizia Jaguar antes do relançamento, agora ao público daqui.
O fato é destacado na contracapa da versão mais recente, da editora Desiderata: “Foram 35 anos de espera. Muitos duvidavam da sua existência mas, depois de décadas, finalmente o livro perdido de Jaguar surge para o público brasileiro.”
Entre os destaques, o prefácio feito por Quino – ou melhor, por Mafalda, sua mais conhecida criação, que é quem diz: “Imperfeitos como Jaguar reconciliam qualquer um com as imperfeições da vida.”
Numa das charges, uma jangada de madeira com dois náufragos. Ao longe, uma explosão em formato de ‘cogumelo’, semelhante à de uma bomba atômica. “Civilização!”, exclama um deles, sorrindo. Em outra, um homem sugere que Isaac Newton saia de baixo de um pé de jaca e sente-se sob uma macieira. Também constam desenhos de alguns de seus personagens mais conhecidos, como Gastão, o Vomitador e Bóris, o Homem-Tronco.
‘Ipanema – Se não me Falha a Memória’ (2000)
O livro fez parte da coleção Cantos do Rio, lançada no fim da década de 1990. Além da obra de Jaguar, havia também Leblon – Crônica dos Anos Loucos (Geraldo Carneiro); Baixo Gávea – Diário de Um Morador (José Almino); e Leme (Arthur Poerner).
O cartunista resgatou suas próprias memórias como alguém que viveu na região de Ipanema durante uma fase de efervescência de personalidades e artistas na região carioca. Nas páginas do livro, conta, por exemplo, sobre a fundação da Banda de Ipanema e histórias envolvendo alguns de seus amigos, como Hugo Leão Castro.
Confesso que Bebi – Memórias de um Amnésio Alcoólico (2001)
A semelhança com o título de Confesso Que Vivi, de Pablo Neruda, não é mera coincidência: o próprio Jaguar admitia o “plágio”-homenagem à época. Trata-se de uma seleção de diversos textos que publicou no jornal O Dia, do Rio de Janeiro, ao longo dos tempos, publicada pela editora Record. A sugestão para compilá-los em livro veio de Millôr Fernandes.
“É um guia dos bares em que eu bebi. É dedicado a umas 380 pessoas que fui encontrando nesses bares”, dizia ao Estadão o cartunista, que nas páginas também dedicava a obra a “Jesus Cristo, que transformou água em vinho”.
À época, Jaguar tinha o plano de fazer “lançamentos-relâmpago” da publicação em dezenas dos bares citados – desculpa, evidentemente, para beber mais um pouco e criar novas memórias em cada um deles.
‘É Pau Puro’ (1982)
Como nos outros livros, traz diversas de suas charges pela editora Círculo do Livro. Neste caso, uma seleção de 10 anos do que havia publicado em O Pasquim. Em uma, o diabo segurando um tridente está numa sala da Warner Bros. A secretária, desesperada, fala ao telefone: “Diz que veio receber direitos autorais pelo Exorcista!.”
Em outra, dois exploradores brancos olham para dois homens negros na água. “Devem ser, provavelmente, de alguma república africana emergente”.
Também há trechos bem-humorados, como as páginas em que relata sua viagem de dois dias para Cuba nos anos 1960. “O pessoal da Rádio Habana Libre estava me esperando para uma gravação. A que eu atribuía a minha invitación? A um engano. Não sou comunista e, além disso, pensavam que eu era preto. Não era um engano, os cubanos sempre apreciaram meus trabalhos no Cruzeiro. (Nunca trabalhei no Cruzeiro, fiquei certo que eles queriam convidar era o Ziraldo, mas fiquei na minha)”, escreve Jaguar.
‘O Pasquim’ e outros personagens de Jaguar
Jaguar esteve entre os fundadores do histórico semanário satírico O Pasquim, em que trabalharia ao lado de nomes como Ziraldo, Tarso de Castro, Henfil, Paulo Francis e Millôr Fernandes pelas décadas seguintes.
Alguns de seus principais personagens surgiram ou ao menos apareceram nas páginas do jornal, como o Capitão Ipanema (“Mistura do Fantasma Voador com sei lá o que”, definia o cartunista), inspirado em seu amigo, o ator Hugo Leão Castro, que também inspirou o ratinho Sig (uma paródia de Sigmund Freud), por conta do ratinho branco que tinha como mascote. Havia ainda Os Chopnics, que publicava no jornal Última Hora.