Opinião Valéria Del Cueto

Quem samba seus males encanta

Sapucaí, templo de saberes e dizeres

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Sob os arcos da Apoteose no final da Marquês de Sapucaí, no centro do Rio de Janeiro, passarão mais uma vez os protagonistas do maior espetáculo popular do planeta. O desfile das escolas de samba, carro-chefe do carnaval carioca, monopoliza a cidade, viraliza pelas redes sociais e na transmissão mundial de suas imagens.

A folia movimenta a economia. Atrai turistas do mundo inteiro e injetará nessa temporada recursos estimados em mais de 5,7 bilhões, projeta a Riotur. Gera empregos, estimula o empreendedorismo e alavanca ações de grandes marcas.

O que move a festa é uma incrível mistura de sensações concentradas nos 800 metros da pista do Sambódromo idealizado por Oscar Niemeyer.

Para fazer o encanto funcionar, pelo menos 12 componentes, um de cada escola de samba do Grupo Especial, deverão ser acrescentados à poção mágica que será refinada no templo do carnaval.

No caldeirão de emoções serão depurados, nas três noites de apresentações, de domingo a terça-feira, os seguintes ingredientes: a força da raiz, a resistência do caranguejo, muitas doses de essência, o poder da mandinga e o ponto da encruza. Misture com notas variadas de ritmo, uma enxurrada de palavras e as cores infinitas da aquarela. Tempere tudo com pitadas de imaginação, um toque de desbunde, acrescente respingos de loucura, a esperança concentrada de milhares de foliões e… evoé!

Temos mais uma disputa no Desfile de Escolas de Samba. Pela ordem, vamos às concorrentes.

Domingo, 15 de fevereiro

A estreante na Sapucaí abre a primeira noite de disputa. Vem cercada de polêmica. É a campeã da Série Ouro, a Acadêmicos de Niterói. O enredo “Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, do carnavalesco Tiago Martins, gerou controvérsias nas últimas semanas. Demorou a cair a ficha. Foi anunciado no meio de 2025. O ingrediente para o encanto que a escola traz é a ESPERANÇA. Está presente no título do tema, na letra do samba, a carta de Dona Lindu, narradora da saga de seu filho que virou presidente da República, e na vida dos brasileiros.

Imperatriz Leopoldinense ocupa a pista e dá seu toque de DESBUNDE em outra homenagem. Dessa vez sobre uma personalidade transgressora. Ney Matogrosso é o “Camaleônico”, de Leandro Vieira. O projeto não é biográfico. Viaja na parte musical e visual do cantor.  

“O Mistério do Príncipe do Bará — A oração do negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande” traz a ESSÊNCIA do nascimento do batuque gaúcho e Custódio Joaquim de Almeida, o príncipe do Benin com sua corte no Rio Grande do Sul, aposta do carnavalesco André Rodrigues na Portela.

Do extremo sul vamos ao extremo norte no desfile da última escola da primeira noite de competição. Vem do Amapá a RAIZ dos fundamentos das rezas que conectam Benedita de Oliveira, do Morro de Mangueira, a “Mestre Sacaca do Encanto Tucuju – O Guardião da Amazônia Negra”, no enredo do paulista Sidnei França na verde e rosa.

Segunda, 16 de fevereiro

O carnavalesco Renato Lage invoca as LOUCURAS com “Rita Lee, a padroeira da liberdade”. Qual será a proposta do coreógrafo Marcelo Misailidis? Ano passado ele ousou reduzir a alegoria da comissão de frente, acabando com o trambolho que atrapalha a visão da cabeça do cortejo. Tomara que a Mocidade Independente de Padre Miguel tenha feito escola!

Quem vai para ENCRUZA na sequência é a Campeã de 2025, a Beija-Flor de Nilópolis, querendo o Bi com “Bembé”, primeiro enredo que não é sobre uma personalidade! João Vitor Araújo aborda a celebração afro-religiosa que acontece há mais de 130 anos no Recôncavo Baiano.

Voltando ao COMPASSO das homenagens a Viradouro embarca na proposta de Tarcísio Zanon e dá flores em vida a seu próprio maestro. O título “Pra cima, Ciça” já diz tudo. O ex-passista e mestre-sala vai repetir o feito de 2007 evoluindo com seus ritmistas no alto de um carro alegórico. Tendo o privilégio de escolher sua rainha, trouxe à Sapucaí a atriz Juliana Paes que o acompanhava há duas décadas.

Fecha a segunda noite a PALAVRA da escritora do livro “Quarto de Despejo” na Unidos da Tijuca. “Carolina Maria de Jesus” percorre o mundo sofrido da autora no enredo de Edson Pereira. O samba clama por mudar a história da escola do Borel buscando na comunidade a força para vencer novamente um campeonato.

Terça 17 de fevereiro

Paraíso do Tuiuti viaja a Cuba para mostrar um culto afro-religioso yorubá oriundo da ilha e disseminado no Brasil, “Lonã Ifá Lukumi”. A MANDINGA proposta por Jack Vasconcelos se baseia no livro do pesquisador Nei Lopes. É entoada divinamente por Pixulé (sério candidato às premiações de melhor intérprete) e desafia o critério do julgador que ano passado canetou e rebaixou a Unidos de Padre Miguel por uso de palavras no idioma africano.

Se já estava bom, vai ficar melhor com o aclamado samba da Vila Isabel sobre Heitor dos Prazeres. Em “Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou a África”, Leonardo Bora e Gabriel Haddad pintam uma AQUARELA dos primórdios do samba e de memórias do Rio de antigamente. Na bateria do Mestre Macaco Branco, o naipe de tamborins, dirigido por Thalita Santos, traz de volta os instrumentos originais em formato quadrado.

Vice-campeã em 2025, a Grande Rio tem um novo carnavalesco, Antônio Gonzaga. “A Nação do Mangue” exalta o movimento inspirado no homem-CARANGUEJO e sua resiliência. Tem Chico Science e o Mangue Beat pernambucano pulsando na levada da bateria de Mestre Fafá.

A disputa se encerra com “A delirante jornada carnavalesca da professora que não tinha medo de bruxa, de bacalhau e nem do pirata da perna-de-pau”. A IMAGINAÇÃO de Rosa Magalhães, maior campeã da Sapucaí, que nos deixou em 2024, é explorada por Jorge Silveira e a comunidade do Salgueiro partindo de uma biblioteca.

Com a mestra que fez tanta gente amar a festa fechamos a lista de ingredientes integrantes do feitiço que produz o sumo do imaginário carnavalesco a ser exposto pelo povo do samba nos três dias de desfile do carnaval 2026 na Sapucaí. Como o encantamento funcionará?

Saberemos na quarta-feira, com a apuração dos resultados! Poderemos provar novamente seu efeito no Sábado das Campeãs, semana que vem…

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Texto da série “É carnaval” do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

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BOX

Ordem dos desfiles:

Domingo 15/02 – Acadêmicos de Niterói, Imperatriz, Portela, Mangueira

Segunda 16/02 – Mocidade, Beija-Flor, Viradouro, Unidos da Tijuca

Terça 17/02 – Paraíso do Tuiuti, Vila Isabel, Grande Rio e Salgueiro

Transmissão: TV Globo e Globoplay às 22h. Dica de comentários: sintonize o áudio na Tupi.fm

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Fotos:

Foto 01 – 3 ET GRio 260201 058 Ala componentes geral (Capa)

Legenda: Grande Rio vai a Pernambuco. Vem de lá Chico Science, o Mangue Beat

FOTO 02 – ET Vila 260131 379 Destaque Vilma Nascimento e Manoel Dionísio Apoteose boa

Legenda: Vilma Nascimento, o Cisne da Passarela, e Manoel Dionísio, criador da escola de mestre-sala e porta-bandeira, a nobreza do bailado na Vila de Heitor dos Prazeres

FOTO 03 – ET Tuiuti 260131 381 Bateria diretores ritmistas bandeira geral gesto boa

Legenda: Na Super Som do Tuiuti, molho de salsa e merengue cubano.

FOTO 04 – ET Tuiuti 260131 316 Bateria Rainha Mayara Lima boa

Legenda: Mayara Lima, rainha do Tuiuti e das coreografias virais

FOTO 05 – ET Niterói 260206 055 Ala passista bandeira do Brasil boa

Legenda: Em ano de Copa as cores do Brasil retomadas por quem de direito: o povo brasileiro.

FOTO 06 – ET Niterói 260206 028 Ala componente Lula boa geral

Legenda: Lula, tema da estreante Acadêmicos de Niterói e polêmica nas redes.

FOTO 07 – ET Mangueira 260130 184 MSPB Cintya Santos Matheus Olivério Alegoria Sapo boa

Legenda: Matheus e Cintya, com o pavilhão da Mangueira apresentam Mestre Sacaca e a Amazônia Negra do Amapá

FOTO 08 – ET Vila 260131 197 CF Heitor dos Prazeres Oxum Xang baiana bandeira boa

Legenda: Heitor dos Prazeres e seus protetores. Xangô e Oxum na comissão de frente da Vila

FOTO 09 – ET Viradouro 260201 084 Bateria ritmista instrumento tamborim Ciça caveira

Legenda: Ciça, o Caveira, mestre da bateria e enredo da Viradouro.

FOTO 10 – ET GRio 260201 009 CF comissão de frente pintura close boa

Legenda: A iluminação amplia recursos como pinturas corporais fluorescentes

FOTO 11 – ET UTijuca 260206 052 Ala componentes banner segurança

Legenda: Segurança: demanda na pista, no entorno da Sapucaí e no país.

Valéria del Cueto

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Valéria del Cueto

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Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

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