Olinda Altomare Opinião

Queen Loretta : quando as diferenças deixam de importar.

Queen Loretta é daquelas histórias que, aos poucos, vão revelando muito mais do que imaginávamos encontrar. Em apenas quatro episódios, a minissérie atravessa temas como homossexualidade, preconceito, abandono familiar, ressentimento, amizade, solidariedade e perdão, mas faz isso sem perder de vista aquilo que une todas essas questões: a necessidade humana de pertencimento, de aceitação e, sobretudo, de afeto.

A história acompanha Sylwester, um renomado alfaiate polonês que construiu sua vida em Paris e que também sobe aos palcos como a drag queen Loretta. Depois de décadas distante de sua cidade natal, ele recebe uma carta de Iza, uma neta cuja existência até então desconhecia, e retorna à Polônia porque sua filha, Wiola, está gravemente doente e precisa de um transplante.

E é justamente esse retorno que dá início não apenas a uma viagem geográfica, mas a uma viagem ao passado.

Sylwester deixou para trás uma filha que cresceu sem a presença do pai. E esse aspecto da história me parece particularmente importante porque a série não utiliza a orientação sexual do personagem como justificativa para suas escolhas. Existe o preconceito que ele enfrentou, existe a dificuldade de viver plenamente quem era em determinado tempo e lugar, mas existe também a dor de uma criança abandonada. Wiola cresceu, tornou-se adulta, construiu sua vida, e mostrou que algumas ausências envelhecem conosco.

E talvez uma das lições mais profundas de Queen Loretta esteja justamente aí: compreender as razões de alguém não significa apagar as consequências de seus atos.

É possível compreender Sylwester e, ao mesmo tempo, compreender a mágoa de Wiola. É possível reconhecer o sofrimento daquele homem sem diminuir o sofrimento da filha. A vida raramente se divide entre culpados absolutos e inocentes perfeitos: somos resultado das nossas escolhas, das circunstâncias que enfrentamos e também das feridas que provocamos enquanto tentávamos sobreviver às nossas próprias.

Andrzej Seweryn constrói Sylwester com enorme sensibilidade. Seu personagem transita entre mundos aparentemente muito diferentes: o homem elegante e reservado, o pai ausente, o avô que descobre uma nova possibilidade de afeto e Loretta, exuberante, segura e luminosa sobre o palco.

E gosto particularmente do fato de que Loretta não é apresentada como uma caricatura, ela é parte daquele homem, e justamente a parte que aprendeu a existir sem pedir licença.

Nesse sentido, a minissérie trata da homossexualidade e da expressão artística de Sylwester com uma naturalidade que considero uma de suas maiores virtudes. O preconceito está presente, especialmente quando ele retorna a uma pequena comunidade marcada por valores mais tradicionais, mas a narrativa não transforma cada personagem em símbolo de intolerância. Aos poucos, as pessoas passam a conhecer o ser humano antes de julgarem aquilo que lhes parece diferente.

E isso diz muito sobre preconceito.

É muito fácil rejeitar uma ideia abstrata. É muito mais difícil rejeitar alguém depois que conhecemos sua história, suas dores, sua generosidade e seus afetos.

A convivência tem essa capacidade de derrubar alguns muros que os discursos constroem.

Há uma cena particularmente simbólica quando Wiola finalmente conhece Loretta. Ali estão, de certa maneira, duas partes de uma mesma história que passaram décadas separadas: a filha que carregou a ausência e o pai que construiu longe dali outra forma de existir. Não é necessário que um deixe de ser quem é para que o outro possa se aproximar. A verdadeira aceitação não exige que as diferenças desapareçam, e sim exige apenas que elas deixem de ser obstáculos para o afeto.

Mas Queen Loretta vai além das questões familiares.

Quando um acidente na mina atinge a pequena comunidade e deixa trabalhadores presos no subsolo, a história amplia seu olhar. A necessidade coletiva passa a ser maior do que as diferenças individuais. No último episódio, Sylwester, Wiola e Corentin se unem para organizar um evento destinado a ajudar as famílias dos mineiros.

Esse momento, para mim, contém uma das mensagens mais bonitas da série: diante da dor real, muitas das divisões que construímos parecem perder importância.

Quando uma comunidade precisa salvar os seus, pouco importa quem ama quem, como alguém se veste, de onde veio ou de que maneira escolheu viver. Importa quem está disposto a ajudar.

Pessoas que talvez jamais se aproximassem descobrem uma causa comum. Cada uma oferece aquilo que possui. Uns trabalham, outros organizam, outros acolhem. Loretta oferece justamente aquilo que durante tanto tempo poderia ter sido motivo de preconceito: sua arte.

E aquilo que poderia separar passa a unir.

Há algo profundamente bonito nessa inversão, pois a diferença deixa de ser tolerada e passa a ser reconhecida como contribuição.

A série também fala sobre amizade de maneira delicada. A vida que Sylwester construiu em Paris revela que família nem sempre é formada apenas por vínculos de sangue. Há pessoas que encontramos pelo caminho e que escolhem permanecer. Corentin representa muito dessa família construída pelo afeto, aquela que conhece quem somos por inteiro e ainda assim permanece ao nosso lado.

Ao mesmo tempo, a relação entre Sylwester, Wiola e Iza mostra que os vínculos familiares podem sobreviver até mesmo a longos períodos de silêncio, embora reconstruí-los exija coragem. Não existe uma borracha capaz de apagar décadas de ausência, o que existe é a possibilidade de escrever diferente dali em diante.

Maria Peszek dá a Wiola exatamente a dureza necessária.: sua resistência ao pai não é gratuita, existe uma história por trás dela. Julia Chętnicka, como Iza, traz juventude e espontaneidade e funciona quase como uma ponte entre duas gerações que já não sabem como chegar uma à outra.

Visualmente, a fotografia de Wojciech Szepel também ajuda a contar essa história. Há um contraste significativo entre o universo sofisticado e colorido ligado a Loretta e a atmosfera mais sóbria da pequena cidade polonesa, marcada pela mineração e por uma vida muito distante daquela que Sylwester construiu em Paris. Aos poucos, porém, esses universos começam a se misturar, como se a própria imagem acompanhasse a aproximação entre pessoas que inicialmente pareciam pertencer a mundos incompatíveis.

Para mim, entretanto, a maior beleza de Queen Loretta está na forma como diferentes temas acabam conduzindo à mesma conclusão.

A série fala sobre homossexualidade, mas fala principalmente sobre o direito de cada pessoa existir com dignidade. Fala sobre preconceito, mas também sobre como a convivência pode desconstruí-lo. Fala sobre abandono familiar, sem fingir que o perdão apaga o passado. Fala sobre amizade e sobre aquelas famílias que construímos ao longo da vida. Fala sobre uma comunidade que descobre, diante da tragédia, que sobreviver exige união. E fala sobre a possibilidade de recomeçar mesmo quando parece tarde demais.

Não podemos voltar ao passado para fazer escolhas diferentes, mas podemos escolher o que fazer com o tempo que ainda existe.

Sylwester não pode devolver à filha os anos em que esteve ausente. Wiola não pode recuperar a infância que viveu sem o pai. Nenhum dos dois pode desfazer aquilo que aconteceu.

E essa revela-se uma das mais humanas lições da minissérie: recomeçar não significa fingir que nada aconteceu. Significa reconhecer o que aconteceu e, apesar disso, decidir não entregar todo o futuro às dores do passado.

No final, Queen Loretta parece nos lembrar de algo muito simples, mas que ainda temos enorme dificuldade de praticar: antes das diferenças que insistimos em colocar entre nós, existem pessoas.

Pessoas que amam, erram, abandonam, são abandonadas, sentem medo, guardam ressentimentos, precisam de ajuda e, algumas vezes, precisam apenas de uma segunda oportunidade para fazer diferente.

E quando a vida realmente nos coloca diante daquilo que importa, percebemos que ninguém precisa ser igual a nós para caminhar ao nosso lado.

Basta que sejamos capazes de reconhecer, no outro, a mesma humanidade que desejamos que reconheçam em nós.

Vale muito a pena assistir.

@aeternalente

Olinda Altomare

About Author

Olinda Altomare é magistrada em Cuiabá e cinéfila inveterada, tema que compartilha com os leitores do Circuito Mato Grosso, como colaboradora especial.

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