Olinda Altomare Opinião

Quando o Retrocesso Veste o Selo de Virtude

Há momentos em que determinadas manifestações nas redes sociais deixam de ser apenas opiniões das quais podemos discordar e passam a revelar algo mais preocupante: a facilidade com que uma sociedade aceita afirmações sem submetê-las ao mais simples exercício da razão.

É isso que tenho observado, com inquietação, nessa onda de discursos que exaltam a submissão das mulheres, defendem a supremacia masculina e chegam a questionar o próprio direito feminino ao voto. O que mais me assusta não é apenas o que está sendo dito, mas a rapidez com que essas ideias são repetidas e incorporadas, como se o número de seguidores fosse suficiente para transformar uma opinião em verdade.

Vivemos um tempo curioso: nunca tivemos tanto acesso à informação e, ao mesmo tempo, parece cada vez mais difícil distinguir informação de conhecimento, opinião de argumento e convicção de fato histórico.

Vejo mulheres independentes, empresárias, profissionais e até ocupantes de funções públicas defendendo a submissão ao marido e, algumas vezes, questionando o direito de as mulheres votarem. E há nisso uma contradição que deveria provocar reflexão.

Essas mulheres podem trabalhar, empreender, administrar seus próprios recursos, ocupar espaços públicos e expressar livremente suas opiniões justamente porque outras mulheres, antes delas, lutaram para conquistar esses direitos. No Brasil, o voto feminino foi reconhecido pelo Código Eleitoral de 1932. Não foi um presente. Foi uma conquista, e toda conquista tem uma história.

Por isso, não consigo compreender como alguém pode usufruir tranquilamente de uma liberdade conquistada historicamente e, ao mesmo tempo, defender que essa mesma liberdade deveria ser negada às demais.

Não há problema algum em uma mulher escolher uma vida doméstica, dedicar-se ao marido, aos filhos ou à família. Se essa é uma escolha livre e consciente, deve ser respeitada. O problema começa quando uma escolha individual é transformada em regra moral e apresentada como o modelo que toda mulher “correta” deveria seguir.

É aí que sinto falta de cultura, de história, de leitura e de pensamento crítico.

O que me preocupa ainda mais é que essas ideias vêm acompanhadas, muitas vezes, de um selo moral: como se defender a submissão feminina, a autoridade masculina ou determinado modelo de família fosse suficiente para transformar alguém automaticamente em uma “pessoa de bem”.

Mas desde quando uma opinião funciona como atestado de caráter?

Uma pessoa não se torna ética porque repete palavras como “família”, “moral”, “tradição” ou “bons costumes”. O caráter aparece nas atitudes, na maneira como tratamos o outro, no respeito à dignidade alheia e na capacidade de reconhecer direitos mesmo quando não precisamos deles para nós mesmos.

Nas redes sociais, a repetição ganhou uma força impressionante. Uma frase dita por alguém com milhares ou milhões de seguidores passa a circular como verdade. Pouco importa de onde veio, qual é sua base histórica ou quais consequências pode produzir.

E assim ideias antigas podem ser apresentadas como novidades.

É preciso perguntar: de onde veio isso? Qual é a base histórica dessa afirmação? Quem se beneficia? Quem perde direitos? Quem fica sem voz?

Essas perguntas são incômodas, mas necessárias.

Também me preocupa o fato de pessoas passarem a reproduzir ideias de influenciadores como se fossem próprias, incorporando frases e julgamentos sem perceber que estão apenas repetindo uma narrativa que lhes foi entregue pronta.

Por isso, acredito que precisamos ocupar as próprias redes sociais com mais cultura, história e conhecimento. Se uma postagem pode alcançar, em poucos minutos, mais pessoas do que muitas salas de aula conseguirão alcançar em anos, então é também nesse espaço que precisamos colocar informação de qualidade.

Conhecer a história é uma forma de proteção.

Não vejo essa questão como uma disputa entre esquerda e direita. Sou apartidária por dever de ofício e, mais do que isso, por convicção. Meu incômodo está na pobreza do debate e até mesmo na sua inexistência, na substituição do conhecimento pelo slogan, da história pelo vídeo curto e da reflexão pela autoridade de quem possui muitos seguidores.

E há algo ainda mais grave quando determinadas narrativas romantizam a submissão e naturalizam a superioridade de um sexo sobre o outro. A violência contra as mulheres não começa necessariamente quando alguém levanta a mão. Pode começar muito antes: quando a obediência é apresentada como dever, a autonomia como arrogância, a independência como ameaça e a autoridade masculina como algo natural.

Não se trata de impedir ninguém de pensar diferente. O pensamento livre é um dos maiores patrimônios de uma sociedade democrática. Mas liberdade de pensamento não significa imunidade ao questionamento.

Uma sociedade livre não é aquela em que todos pensam da mesma maneira. É aquela em que as pessoas ainda conservam a capacidade de perguntar por quê.

E é justamente essa capacidade que percebo estar sendo perdida.

Quando uma mulher diz que não deveria votar, mas utiliza o voto como um direito; quando uma empresária defende a submissão feminina enquanto administra sua própria empresa; quando alguém usufrui das liberdades conquistadas por gerações anteriores e, ao mesmo tempo, defende que essas liberdades não deveriam existir para outras mulheres, há uma contradição que merece reflexão.

Existe algo particularmente perigoso em vender o retrocesso acompanhado de um selo de virtude. Quando determinada posição passa a definir quem é uma “pessoa de bem”, o diálogo termina antes mesmo de começar. Quem concorda sente-se moralmente superior; quem questiona passa a ser visto como alguém que precisa ser corrigido.

É assim que se formam as bolhas. É assim que se produz o pensamento de manada.

Diante de tantas certezas fabricadas diariamente nas redes sociais, lembro-me do velho ditado de que Deus é brasileiro.

E penso que Deus, se for mesmo brasileiro, talvez espere de nós um pouco mais do que isso.

Que pensemos. Que leiamos. Que desconfiemos das verdades prontas. Que tenhamos coragem de fazer perguntas quando todos ao redor parecem ter apenas respostas.

Não acredito que uma pessoa seja boa porque pensa como eu, nem que seja má porque pensa diferente. Acredito que o caráter seja muito mais complexo do que um discurso publicado nas redes sociais.

O que me assusta não é que algumas mulheres escolham viver de determinada maneira. A liberdade permite escolhas diferentes. O que me assusta é quando uma escolha particular começa a ser apresentada como destino coletivo; quando a submissão passa a ser chamada de virtude; quando a supremacia masculina é revestida de normalidade; quando a história é ignorada e o conhecimento é substituído por frases prontas.

Penso que precisamos menos de influenciadores que nos digam o que pensar e mais de uma cultura que nos ensine a pensar por nós mesmos.

Uma sociedade que conhece sua história dificilmente aceita, sem questionar, que lhe devolvam como novidade aquilo que seus antepassados já tiveram de enfrentar.

E, para mim, é exatamente aí que começa a verdadeira liberdade: não na possibilidade de repetir qualquer opinião, nem na necessidade de pertencer ao grupo dos que se consideram “pessoas de bem”, mas na coragem de pensar antes de transformar uma opinião em convicção, e uma convicção em regra para a vida dos outros.

Que Deus, que é Brasileiro, nos salve.

@aeternalente

Olinda Altomare

About Author

Olinda Altomare é magistrada em Cuiabá e cinéfila inveterada, tema que compartilha com os leitores do Circuito Mato Grosso, como colaboradora especial.

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