Um fenômeno visto em São Paulo colocou Mato Grosso no centro das discussões ambientais nesta semana. Na tarde da última segunda (19), parte da cidade ficou encoberta por nuvens, que transformou o dia em noite. A causa seria o encontro da chegada de uma onda de frio com a fumaça de queimadas vinda da floresta amazônica. Foi o suficiente para chamar a atenção de autoridades pelo mundo.
Coincidentemente ou não, o fenômeno ocorre num momento em queimadas voltam a ganhar proporção assustadora em Mato Grosso. Registro do ICV (Instituto Centro Vida) mostra que o número já beira a 14 mil focos de calor, 50% somente no período proibitivo, a partir de 15 de julho passado.
A maioria dos focos foi registrada na região de Mato Grosso que faz parte da floresta amazônica. Eram 8.506 (62%) até a quarta-feira (21), do total de 13.682 ocorrências. O município de Colniza, mais próximo da região Norte do País, é o que mais queimou. Até 14 de julho tinham sido identificados menos de 30; do dia 15 para, o número subiu para 1.076.
“Subiu muito o número de queimadas desde o início do período proibitivo, tanto em relação ao início deste ano quanto ao período proibitivo de 2018. No primeiro mês de proibição deste ano houve alta de 205% em relação que foi registrado nos seis primeiros meses”, diz o coordenador de geotecnologia do ICV, Vinícius Silgueiro.

Propriedade privada
Conforme o coordenador, 60% dos focos ocorridos até o momento estão em áreas privadas já com registro pela Sema (Secretaria de Estado do Meio Ambiente) no CAR (Cadastro Ambiental Rural). Ele aponta a relação do desmatamento com as queimadas. O maior índice de derrubada de árvores também está na área das propriedades privadas.
“É bem possível que as queimadas estão sendo feitas para liberar a área. Colniza, por exemplo, é um município com grande especulação fundiária e está bem próximo da floresta amazônica, apesar de também ter atividade agropecuária”.
Outros 18% dos focos foram identificados em áreas fora do CAR e 16% em terras indígenas (TI). No cerrado houve 4.946 focos, e no Pantanal, 230. Conforme o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), Mato Grosso lidera a queimada na floresta amazônica.
O ICV projeta que neste ano Mato Grosso volte a ter registro de queimada na casa dos 30 mil focos, como ocorrido em 2017, o ano mais crítico no último triênio. A seca está mais severa por causa de fenômenos naturais, como El Niño, e o período de estiagem tem na estimativa mais dois meses pela frente.
Política, focos e queimadas

Esta semana, a secretário de Meio Ambiente, Mauren Lazzaretti, criticou ONGs pela divulgação de dados que ela considera ideológicos. A gestora diz que a nuvem que escurei a tarde de São Paulo é cientificamente impossível de ser definida e a atribuir o móvito a Mato Grosso seria afirmar algo por interpretação subjetiva.
“Cientificamente foi demonstrado que isso não existe. Meu ponto de vista é da ciência e não de ideológico ou político. Os dados são a respeito de foco de calor de sensação de
queimada, não que o evento tenha uma origem direta daqui”.
Ela diz ainda que há confusão entre foco e queimadas e um tipo não significa que exista o outro necessariamente. “Temos que separar o que é real do que é interpretação subjetiva. O que é real é que nós temos um aumento dos focos de calor, que não necessariamente indicam queimadas, mas que temos uma sensação térmica que está incomodando o ser humano”,
Ao longo desta semana, o presidente Jair Bolsonaro atribui as queimadas na floresta amazônica a ONGs. O presidente afirmou por mais de uma vez que há indícios de que, em algumas regiões, o foco foi controlado durante o alastramento.
Em vistoria em sobrevoo a regiões de Mato Grosso, na semana passada, o ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, afirmou que há ocorrências de incêndios criminosos, mas não mencionou não relacionou o assunto a ONGs.
A justificativa dada por Bolsonaro sobre a suposta relação das ONGs com as queimadas é a suspensão de recursos da Noruega e da Alemanha para o Fundo Amazônia, por causa de desacordo com a política ambiental do presidente. A suspensão teria cortado o empregado de alguns. O ministro Salles nega corte de verba para controle e combate.



