Já contei a história do cachorrinho Tiziu, que se meteu numa briga com o bulldog do Zé Silvério, valendo uma aposta que seus donos fizeram.
Quatro ou cinco pessoas que leram o relato e que moravam no mesmo lugar na época, falaram que não se lembravam dessa tal história e que eu estava inventando coisas.
Pedi que consultassem dois primos que eu ainda tenho lá, que confirmariam a briga que foi muito comentada. Um deles, segundo me disseram, deu uma risada: “Uai, o Renato deu pra mentir depois de velho”.
— É inveja de primos — retruquei.
Mas os leitores estavam interessados em provar que era pura lorota e perguntaram para outro primo, o Joca, e ele também confirmou que não tinha ouvido falar desta briga de cachorros.
— O Joca é dez anos mais velho que eu – falei – tem quase 90, tá caduco, “malemá” lembra onde nasceu.
Se estes leitores desconfiados pudessem consultar meu pai, que era um protestante apaixonado, por certo ouviriam que o causo é verdadeiro, não que ele tivesse presenciado, mas porque, como repetia sempre, “fii di crênti, num mênti” que traduzido do “minerês” significa: filho de crente (eu, no caso) não mente.
Só falta agora meus parentes desmiolados não lembrarem também da história do Picolé, um cavalinho desenxabido do meu primo Di, uns dez ou doze anos mais velho que eu. (mais velho o meu primo, não o Picolé).
Miudinho, (agora o cavalinho, não meu primo) enfezado, magrelo, com pelo grosso, feio e arrepiado, era também troncho por causa de um ferimento que zangou e murchou sua orelha esquerda.
Tinha ainda outro defeito o cavalinho do meu primo: há uma anomalia que ataca alguns cavalos, que despigmenta a cara deles, principalmente em volta dos olhos e do focinho. Diziam na roça que esses animais, chamados de cavalos-pombo, não enxergam bem durante o dia.
Não sei se o Picolé era ruim da vista por ser pombo e se escutava pouco da orelha atrofiada. Lá não havia optometrista nem audiometrista para medir os danos.
Mas ele era muito azarado: além desses dois defeitos, ainda era náfrico: atrofiamento de um dos quartos traseiros do animal, ocasionado por uma infecção no nervo da perna. Por isso, era meio torto e “puxava” um pouco da perna direita.
Mas o Di amava seu cavalinho e vivia dizendo que ele corria mais que qualquer outro da redondeza e o inscreveu na carreira do dia de São João.
Saiu na frente o Picolé, mas quando despontou na curva que estava na metade do caminho, os outros cavalos já tinham terminado a corrida.
O Di, que chegara cheio de panca (faz 50 anos que ninguém usa essa palavra), vendo a esparrela (outra fora de uso) em que tinha se metido, aproveitou que todo mundo olhava e aplaudia os vencedores, esbarrou o picolé e dali mesmo voltou pra casa.
Podem perguntar para o pessoal que estava lá naquele dia.
Eu sou “fii di crênti” e só falo a verdade; diferente do poeta cuiabano Manoel de Barros que disse: “90% das coisas que escrevo são inventadas, só 10% é mentira”.
Renato de Paiva Pereira.


