O que deveria ser uma busca por socorro transformou-se em um boletim de ocorrência moral. Duas pacientes denunciaram formalmente uma série de abusos sofridos na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Jardim Leblon, em Cuiabá, na última sexta-feira (20). O relato descreve um sistema em colapso, onde a burocracia ilegal e o desprezo humano superam o protocolo médico.
O Obstáculo do Cartão Físico
A jornada começou com uma barreira burocrática inexistente na lei. Servidores da unidade teriam condicionado o atendimento à apresentação do cartão físico do SUS. A prática ignora a Portaria nº 940/2011 do Ministério da Saúde, que estabelece que o atendimento deve ser imediato e universal, especialmente em casos de urgência, permitindo o cadastro posterior.
Sete Horas de Abandono
As denunciantes descreveram um ambiente de desolação: painéis de chamada avariados, infraestrutura precária e um fluxo de pacientes marcado pelo descaso. Segundo elas, o médico de plantão realizou uma consulta superficial, prescrevendo medicamentos sem um exame clínico mínimo. “Precisei insistir para que ele pedisse um raio-X”, relatou uma das vítimas, que aguardou sete horas entre a triagem e a alta.
Hostilidade na Farmácia
O ponto de maior tensão ocorreu na farmácia 24 horas. Mesmo com a receita em mãos, as pacientes tiveram a entrega negada. A resposta dos profissionais foi de um pragmatismo cruel:
- “Estou perdendo tempo falando com você”, teria dito uma farmacêutica.
- “Se eu não fizer a medicação de todos os internos, eu não janto”, disparou o colega do plantão noturno.
Ao serem confrontados sobre a obrigação de servir ao público, a resposta final teria sido um lacônico: “Isso é problema seu”.
O Outro Lado
Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) informou que recebeu a reclamação e que adotará “providências cabíveis para a devida apuração dos fatos”. A prefeitura reforçou que não compactua com agressões ou desrespeito, mas o relato das pacientes sugere que a sobrecarga de trabalho e a falta de fiscalização criaram um ambiente onde a dignidade do paciente é o primeiro item a ser descartado.
A denúncia agora serve como alerta para a gestão municipal sobre a necessidade urgente de requalificação das equipes e manutenção das unidades de pronto atendimento da capital.



