O ouro, como sempre acontece em momentos de incertezas, chegou a absurdos 900 mil reais por quilo, reafirmando essa estranha atração das pessoas pelo brilhante metal.
Afinal, para que serve o ouro? Do total que se extrai da terra todo ano, mais ou menos metade fica com governos, bancos, empresas e pessoas físicas como reserva de valor (dinheiro guardado).
Outros 40% vão para fabricação de joias e menos de 10% são usados na medicina e odontologia.
Estes números indicam que, se de repente sumisse todo o ouro do mundo, o prejuízo prático seria pequeno porque ninguém come ou veste reserva de valor e nem morre porque não se fabricam anéis, brincos e colares.
Três coisas explicariam esse amor obsessivo: ele é raro, não morre nunca (não oxida) e é um símbolo de status. Só que a raridade e imortalidade, por si só, não justificariam a paixão por ele — por que alguém pagaria caro por algo raro e duradouro, mas com pouca serventia? A última razão — símbolo de status social — é mais forte. Mas aqui entra um raciocínio circular: é símbolo de posição social porque é valioso e é valioso porque é símbolo de posição social.
Existem algumas coisas mexendo com a sociedade. A geração Z, que hoje está com 20 a 30 anos, dizem os sociólogos, apresenta comportamentos muito diferentes dos que os antecederam. São protetores entusiasmados da natureza, não têm grandes aspirações de fazer fortuna e nem de liderar equipes.
Também os milionários mais velhos estão desenvolvendo um comportamento que estão chamando de “luxo silencioso”. Não que de repente os ricos tenham se livrado da vaidade e passaram a ser humildes e discretos. Eles apenas estão lançando uma nova forma de se destacar dentro de sua tribo. Agora, em vez de comprar uma Ferrari vermelha, que lhes parece coisa de novo-rico, investem em obras de arte, objetos exclusivos de aparência discreta, mas que custam uma fortuna. Seus pares percebem essa “sofisticação” porque estão no mesmo clima. A nova moda é ostentar pela discrição.
Onde quero chegar?
Seria possível que a geração Z comece a condenar o ouro pelo estrago ambiental que faz e que essa ideia possa prosperar, principalmente no mundo ocidental?
Na mesma pegada, não parece despropositado supor que o “luxo silencioso” dispensasse o brilho do ouro que poderia ser chamado de “coisa-de-gente-que-precisa-se-mostrar”, e também para polir a imagem adotando uma retórica preservacionista.
Para mostrar que a ideia não é tão absurda assim, é oportuno lembrar da brutal queda no uso de casacos de peles de animais, que começou com jovens baderneiros fazendo manifestações e danificando as roupas de famosos com spray de tinta. O discurso era que este luxo trazia um sofrimento desnecessário aos animais.
Para imitar este movimento, agora não precisaria que pessoas atacassem fisicamente quem ostentasse ouro. Bastariam postagens de influencers famosos, sugerindo o cancelamento dos que o usassem, citando, para convencer a manada, que os muito ricos já o teriam dispensado.
Isto é só uma especulação. A obsessão pelo ouro tem mais de seis mil anos; não vai acabar de repente.
Renato de Paiva Pereira.
Foto: Reprodução/Divulgação

