Opinião

 O treino que a gente perdeu.

 Entre notificações e opiniões instantâneas, a gente desaprendeu a ficar tempo suficiente dentro de uma ideia para realmente entendê-la.

Semana passada eu contei da mesa dos meus pais, aquela em que meu pai, médico e ex-militar, discordava calmamente da minha mãe, socióloga e empresária, que discordava dele gritando, e mesmo assim a mesa continuava lá no dia seguinte, inteira. Prometi voltar no assunto, então aqui estou. Porque outro dia eu me peguei numa cena que não tem nada a ver com política e tem tudo a ver com o que aquela mesa treinava, e o que eu percebi me incomodou mais do que eu esperava.

Eu estava lendo um livro, dos que eu gosto, num parágrafo que exigia atenção de verdade, e no meio da segunda linha peguei o celular sem nem perceber que a mão tinha se mexido sozinha. Voltei para o livro, reli o parágrafo, e trinta segundos depois lá estava a mão de novo, como um cachorro treinado para buscar objeto que ninguém jogou. Levei um susto ao perceber que eu, que escrevo para viver, que sempre me orgulhei de conseguir ficar horas dentro de um texto difícil, tinha perdido o fôlego para ficar cinco minutos dentro de um parágrafo.

Fui atrás de saber se era só balela minha, e não é. Pesquisas em vários países vêm mostrando uma reversão que não existia antes: pela primeira vez em quase um século, o quociente de inteligência das gerações mais novas está caindo em vez de subir, um fenômeno que os pesquisadores andam chamando de efeito Flynn reverso, batizado assim porque inverte a tendência de melhora constante que se observava desde os anos trinta. O dado mais incômodo é que isso aparece justamente em países onde pobreza e falta de saúde já não servem de desculpa fácil, o que deixa a suspeita mirando outro lugar: para onde a nossa atenção anda indo o dia inteiro?

E aí eu conectei com a mesa da minha infância. O que aquele jantar treinava, sem placa nenhuma anunciando, era exatamente esse músculo que eu senti falhando com o livro: ficar dentro de uma ideia difícil tempo suficiente para ela render alguma coisa. Meu pai sussurrava, minha mãe gritava, e nenhum dos dois levantava da mesa no primeiro desconforto. Hoje a gente levanta no primeiro segundo. Troca de aba, troca de assunto, troca de opinião pela próxima notificação, antes mesmo de terminar de formar o próprio pensamento sobre a anterior.

Não sei se atenção curta explica sozinha um número de pesquisa tão grande, e desconfio de quem afirma isso com certeza total. Mas sei o que senti com o celular na mão no meio do parágrafo, e sei o que via na mesa dos meus pais discordando até a sobremesa. Meus pais discordavam o jantar inteiro. Hoje a gente nem senta.

@enricopierroofc

Enrico Pierro

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