Cuiabá, 28 de maio de 2012. O cenário no Campo de Futebol Botafogo, no CPA III, parecia saído de um roteiro de horror: Juliene Anunciação Gonçalves, 20 anos, nua, pendurada pelo pescoço por uma calça jeans em uma estrutura a três metros de altura. O que o assassino tentou vender como suicídio, a ciência forense rapidamente rotulou como homicídio qualificado. Quatorze anos depois, a juíza Helícia Vitti Lourenço tenta, mais uma vez, tirar o caso da inércia da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).
A Farsa da Cena do Crime A tentativa de forjar a morte de Juliene foi rudimentar, mas o tempo encarregou-se de tornar a investigação complexa. O laudo da Politec foi decisivo:
- Duas marcas no pescoço: Uma causada por tecido (a calça jeans) e outra, a fatal, por um fio ou cabo.
- Asfixia Mecânica: Juliene foi estrangulada antes de ser pendurada.
- Luta e Arraste: Marcas de resistência e terra pelo corpo indicaram que ela foi subjugada e arrastada até o estádio.
- Vestígios Biológicos: A presença de esperma confirmou o abuso, mas o confronto de DNA com seis suspeitos ao longo dos anos resultou em negativo.
O ” Rodrigo” e o Celular Perdido O principal suspeito, Antonio Rodrigues, conhecido como “Rodrigo”, foi a última pessoa com quem Juliene foi vista. Ele alegou tê-la deixado em uma casa de festas após um lanche, mas a jovem nunca chegou em casa. O ponto mais crítico da investigação reside em um aparelho celular: Rodrigo entregou o telefone de Juliene à família na manhã seguinte ao crime, mas o dispositivo nunca foi periciado de imediato. O sigilo telefônico só foi quebrado quatro anos depois, quando o rastro digital já estava frio.
O Retrato da Morosidade: Entre 2012 e 2026, o inquérito saltou de mesa em mesa. Delegados mudaram, o processo foi digitalizado e prazos de 60 e 90 dias foram ignorados sistematicamente pela autoridade policial.
O Preço do Silêncio Enquanto a DHPP silencia sobre o último relatório cobrado pela Justiça, a história de Juliene é marcada por perdas. Sua mãe faleceu sem ver o desfecho do caso. A jovem, que sonhava com a faculdade de Educação Física, tornou-se um número em um inquérito de mil páginas. A cobrança atual da 12ª Vara Criminal de Cuiabá é um ultimato não apenas para a polícia, mas para um sistema que permitiu que um crime com evidências biológicas e testemunhais se tornasse um dos cold cases mais vergonhosos de Mato Grosso.

