Às vezes, o silêncio que antes parecia estranho ou ameaçador só está tentando nos ensinar que nem todo vazio precisa ser preenchido.
Teve uma manhã, faz pouco tempo, em que eu acordei antes do despertador e fiquei parado na cama só escutando. Não tinha carro passando, não tinha buzina, não tinha aquela trilha sonora urbana que a gente aprende a não ouvir mais de tanto ouvir. Tinha vento nas árvores, um cachorro se espreguiçando lá fora, e depois nada. Um nada tão completo que por um segundo eu estranhei, quase levantei pra ver se tinha alguma coisa errada, porque silêncio desse tamanho, hoje em dia, soa quase como defeito.
Eu passei anos treinando o ouvido pro contrário. Morei em lugar em que silêncio de madrugada geralmente significava alguma coisa acontecendo, não a ausência de coisa nenhuma. O corpo aprende essas associações sem pedir licença, e o meu aprendeu que quieto é sinônimo de alerta. Cheguei na chácara carregando esse reflexo, e nas primeiras semanas eu ligava a televisão só de fundo, ou colocava um podcast que eu nem prestava atenção, só pra preencher um vazio que na verdade não pedia preenchimento nenhum, pedia só companhia da minha própria presença.
Foi levando tempo, mais do que eu esperava, pra eu entender que aquele silêncio não estava vazio, estava cheio de um jeito diferente do que eu conhecia. Cheio de pássaro, de vento, de cachorro respirando, de uma paz que não precisa de legenda pra ser boa. O problema nunca foi o silêncio em si, foi eu não saber ficar dentro dele sem tentar decodificar alguma ameaça escondida ali.
Hoje eu ainda pego a televisão ligada às vezes, não vou fingir que virei monge, mas aprendi a distinguir quando é companhia de verdade e quando é fuga disfarçada de hábito. Tem manhã em que eu desligo tudo de propósito, só pra sentir esse silêncio grande de novo, o mesmo que antes me deixava desconfiado. Hoje ele me deixa em paz, e essa mudança, pequena e boba na aparência, foi uma das coisas mais valiosas que a chácara me ensinou sem eu pedir aula.
Acho que a gente vive tão cercado de som que esquece que silêncio também é um idioma, e que ele só assusta quem nunca teve tempo de aprender a falar nele. Eu ainda estou aprendendo, devagar, nas manhãs que sobram. Mas já sei reconhecer quando o silêncio está me dizendo alguma coisa boa, e isso, garanto, é bem diferente de quando ele estava só me avisando de perigo.
@enricopierroofc


