Um cordeiro — conta a fábula de Esopo — bebia água num riacho. Acima dele, um lobo faminto viu o animal e decidiu comê-lo, mas antes queria achar uma desculpa:
— Você está sujando a água que estou bebendo.
— Senhor Lobo, isso é impossível. A água corre do senhor para mim.
— Você falou mal de mim no ano passado!
— Não era eu, nem tinha nascido.
— Então foi seu irmão — insistiu o Lobo.
— Não tenho irmãos.
— Na verdade, foi um parente seu!
E, sem ouvir mais explicações, devorou o cordeiro.
Tal como na fábula, os EUA, alegando coisas absurdas, decidiram taxar (extorquir) em 25% as exportações brasileiras.
O Urso alaranjado anunciou:
— Vou taxá-los porque vocês usam trabalho escravo.
— Há anos isto não existe mais aqui na minha terra.
— Mas seus habitantes estão derrubando matas.
— Peço que o senhor reveja os documentos que já mandamos: cada ano derrubamos menos. Daqui a quatro anos teremos desmatamento zero.
— Vou cobrar taxas porque organizações terroristas dominam suas terras e o PIX atrapalha minhas empresas de cartão de crédito.
Quando o “cordeiro” ia abrir a boca para explicar, viu que nenhum argumento serviria para dissuadir o Urso Alaranjado.
Como as disputas eleitorais estão acirradas, as taxas do Urso viraram um intenso embate político entre Flávio Bolsonaro e Lula. Cada um culpa o outro pela voracidade do Trump.
Dizem que Flávio Bolsonaro e seu irmão Eduardo estimularam o americano a prejudicar o Brasil, por interesses políticos. Na minha opinião, o que aconteceu foi que Jamieson Greer, chefe do USTR, que tem uma enorme força política nos Estados Unidos, já tinha decidido impor a taxa de 25% ao Brasil.
Mas, como tem relações amistosas com o Eduardo, resolveu dar-lhe a chance de “faturar” politicamente em cima da medida, anunciando-a logo depois da visita deste e do irmão candidato, aos EUA.
Entretanto, parece que o plano deu errado, porque o Lula está conseguindo botar na testa do Flávio e do irmão o carimbo de traidores da pátria.
O Presidente adorou o entrevero. Como virou um apresentador de auditório, treinado pelo Sidônio, está “que nem pinto no lixo”, esbaldando-se com roupa esportiva, tênis da moda e chapéu branco, movimentando-se nos círculos (ou seria circo?) humanos que forma.
Acompanhado por diversas câmeras com imagens abertas para mostrar o público escolhido que o acompanha, movimenta-se entre os seguidores. Pessoas alegres, preparadas pela produção, o aplaudem com entusiasmo e riem a gosto das piadinhas que faz.
Com esse novo formato (distribuído diariamente para tvs e redes sociais) ele se alegra quando arruma um motivo para armar o circo: o lançamento do desenrola 2, a taxação americana, o fim da escala 6×1, ampliação do MCMV.
Aí, os irmãos Bolsonaro, que são péssimos estrategistas, com suas mancadas —metaforicamente —carregam a lona, os mastros e montam o circo pra ele.
Voltando à fábula: como o Urso Alaranjado não ouve explicações, talvez fosse melhor afastar-se dele lentamente e, com cautela, aproximar do Tigre Asiático.
Quanto à taxação é bom lembrar que o capitalismo é um jogo bruto mesmo: quem não aguenta bebe leite.
Renato de Paiva Pereira.


