Olinda Altomare Opinião

O Brutalista: arquitetura da dor, memória e sobrevivência

O Brutalista é um filme denso, silencioso e profundamente perturbador, não pela violência explícita, mas pela forma como expõe as marcas invisíveis deixadas na psique humana. Trata-se de uma obra que fala de sofrimento coletivo, de exílio, de perda de identidade e da tentativa quase desesperada de reconstrução — não apenas de edifícios, mas de vidas estilhaçadas por uma época brutal.

Ambientado em um período histórico marcado por guerras, deslocamentos forçados e rupturas irreversíveis, o filme revela o sofrimento de um povo que carrega na carne e na memória as cicatrizes da intolerância, da perseguição e da destruição. Não se trata apenas de sobreviver fisicamente, mas de aprender a existir depois do trauma. O passado não se encerra; ele se infiltra no presente, moldando silêncios, escolhas e afetos.

O protagonista, interpretado de forma magistral por Adrien Brody, é um artista e arquiteto de talento extraordinário, cuja trajetória encarna essa dor histórica de maneira íntima e dilacerante. Seu gênio criativo nasce do sofrimento, mas também é atravessado por ele. A arte, no filme, não surge como redenção simples, mas como necessidade vital — uma tentativa de dar forma ao caos interior quando as palavras já não bastam.

O talento do personagem não o protege da dor; ao contrário, o torna ainda mais sensível às fraturas do mundo. Há um conflito constante entre criação e ruína, entre beleza e rigidez, entre a busca por permanência e a consciência da fragilidade humana. O filme revela, com profundidade psicológica, os efeitos do exílio, da rejeição e da sensação permanente de não pertencimento. O sofrimento não é episódico; ele é estrutural, como o concreto que define a estética brutalista.

Do ponto de vista emocional e psíquico, O Brutalista é um mergulho no sofrimento silencioso. A angústia não se verbaliza, ela se manifesta nos gestos contidos, nos olhares ausentes, na dificuldade de estabelecer vínculos afetivos. O trauma coletivo se traduz em solidão individual. O filme nos lembra que certas dores históricas não se dissipam com o tempo — elas se acomodam dentro das pessoas, moldando sua forma de existir. Tecnicamente, a obra alcança um nível de excelência que justifica o reconhecimento máximo da indústria cinematográfica. A fotografia, vencedora do Oscar 2025, é austera e rigorosa, marcada por enquadramentos precisos, linhas duras e espaços amplos que frequentemente reduzem o ser humano à sua pequenez. A estética visual não é mero recurso formal: ela expressa o estado emocional dos personagens, traduzindo opressão, isolamento e resistência.

A trilha sonora, igualmente premiada com o Oscar 2025 de Melhor Trilha Sonora, atua como uma presença discreta e poderosa. Em vez de conduzir emoções de maneira explícita, ela constrói atmosferas densas, respeitando o silêncio como elemento narrativo. A música surge como eco interno da dor, reforçando o peso existencial que atravessa toda a obra.

A atuação de Adrien Brody, consagrada com o Oscar 2025 de Melhor Ator, é de uma contenção impressionante. Trata-se de uma interpretação profundamente humana, em que o sofrimento não é exibido, mas vivido. Cada silêncio carrega história, cada gesto revela exaustão psíquica e emocional. É uma performance que sustenta o filme com força, sensibilidade e dignidade artística.

O Brutalista não é um filme confortável, nem pretende ser. Ele exige do espectador disponibilidade emocional e reflexão profunda. Ao final, o que permanece não é apenas a admiração estética, mas uma inquietação persistente. É um filme que obriga a olhar para a dor histórica, para as marcas psíquicas do sofrimento coletivo e para a arte como tentativa humana de resistir ao esquecimento.

É cinema que não consola, mas revela.
E justamente por isso, permanece.

Vale a pena assistir.

Olinda Altomare

About Author

Olinda Altomare é magistrada em Cuiabá e cinéfila inveterada, tema que compartilha com os leitores do Circuito Mato Grosso, como colaboradora especial.

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