No mundo jurídico, onde as palavras deveriam servir à justiça e os gestos à ética, há silêncios que gritam.
Entre despachos, audiências e atendimentos institucionais, existe um tipo de violência que não deixa marcas visíveis, mas corrói, lentamente, a dignidade: o assédio sutil, disfarçado de formalidade, de insistência profissional, de falsa cordialidade.
As magistradas, em especial, ocupam um lugar paradoxal. Investidas de autoridade, revestidas de toga, são vistas como símbolo de poder. No entanto, justamente por essa posição, tornam-se alvo de condutas que se escondem atrás da obrigatoriedade funcional de atender advogados, de receber pedidos, de ouvir argumentos. O que deveria ser um encontro técnico, limitado pela urbanidade e pelo respeito institucional, muitas vezes se converte em terreno fértil para excessos cuidadosamente camuflados.
O assédio, nesse contexto, raramente se apresenta de forma explícita. Ele surge em comentários deslocados, em olhares prolongados, em insinuações travestidas de elogios, em aproximações indevidas justificadas pela urgência do processo. Vem embalado em sorrisos, em tons de voz que ultrapassam o necessário, em tentativas de intimidade que não foram solicitadas. Tudo muito sutil, tudo aparentemente inofensivo, tudo difícil de provar — e exatamente por isso tão perverso.
Há ainda um agravante silencioso: a assimetria simbólica invertida. A magistrada, embora detenha o poder jurisdicional, sente-se muitas vezes constrangida a tolerar situações desconfortáveis para não ser rotulada como “difícil”, “antipática” ou “pouco acessível”. O receio do julgamento social, da distorção de sua postura profissional, funciona como um freio à reação imediata. O assédio, então, se alimenta dessa contenção, dessa prudência forçada, dessa solidão institucional. É preciso dizer, com clareza serena, que a obrigatoriedade do atendimento não autoriza a invasão. O dever funcional não suspende o direito ao respeito. A toga não anula a condição humana, feminina, sensível. Não há hierarquia ou prerrogativa profissional que legitime comportamentos que ultrapassem os limites da ética e da dignidade.
Além disso, é indispensável que o apoio institucional seja claro, firme e efetivo, livre dos velhos filtros do machismo estrutural que ainda insistem em questionar a conduta da vítima antes de examinar o comportamento do agressor. Não é aceitável que denúncias sejam recebidas com desconfiança velada, perguntas insinuantes ou tentativas de relativização do ocorrido, como se a postura, o tom de voz ou a mera disponibilidade funcional da magistrada pudessem justificar a violência sofrida.
O acolhimento institucional deve ser imediato, respeitoso e isento de preconceitos, pois só assim se rompe a lógica perversa que transforma quem denuncia em ré e quem assedia em figura protegida pelo silêncio corporativo.
Apoiar não é apenas ouvir; é legitimar a dor, proteger a dignidade e afirmar, sem ambiguidades, que o ambiente jurídico não tolera nenhuma forma de assédio.
Causa indignação — e também profunda incompreensão — constatar que tais práticas ainda persistam em um ambiente composto por pessoas esclarecidas, formadas no rigor do estudo, da lei e da razão. É difícil aceitar que, em espaços onde se decide sobre direitos, liberdades e destinos humanos, ainda haja resistência em reconhecer magistradas, advogadas e servidoras como iguais em humanidade, conhecimento e lugar institucional. O desrespeito, nesse contexto, revela não ignorância jurídica, mas uma falha ética grave: a incapacidade de enxergar o outro como par, como sujeito de direitos, como profissional investida da mesma dignidade. Romper com esse ciclo exige mais do que normas escritas. Exige consciência coletiva, coragem institucional e, sobretudo, escuta. É necessário reconhecer que o assédio nem sempre grita; muitas vezes, ele sussurra. E justamente por isso precisa ser nomeado, iluminado, enfrentado.
Que o ambiente jurídico, guardião das leis e dos direitos, seja também um espaço onde as mulheres — advogadas, magistradas e servidoras — possam exercer suas funções sem medo, sem constrangimento, sem a necessidade de armaduras invisíveis.
Justiça não se constrói apenas nas decisões proferidas, mas também na forma como nos tratamos nos bastidores do poder.
E já passou da hora de o silêncio deixar de ser regra.
@aeternalente

