A Adolescentes à Deriva: A Urgência da Presença Parental nos Dias Atuais
Vivemos uma época em que os adolescentes estão cada vez mais conectados ao mundo virtual e, ao mesmo tempo, desconectados de suas famílias e de si mesmos. A minissérie Adolescente escancara uma realidade cada vez mais comum: jovens enfrentando sozinhos questões complexas como bullying, insegurança, masculinidade tóxica, isolamento social e a busca exaustiva por aceitação. E, em meio a tudo isso, o silêncio dos pais ecoa com força.
A minissérie Adolescente se debruça de forma sensível e contundente sobre os desafios enfrentados por jovens em um momento crucial da vida: a transição entre a infância e a vida adulta. A produção explora com profundidade temas como o distanciamento dos pais, a ausência de vínculos familiares, o isolamento social e o impacto das redes sociais — traçando um retrato realista e, por vezes, doloroso da juventude contemporânea.
Um dos pilares da narrativa é a desconexão entre pais e filhos. Os adultos, frequentemente absorvidos por rotinas exaustivas ou emocionalmente ausentes, não conseguem estabelecer uma comunicação afetiva com os adolescentes. Essa distância gera um vácuo emocional, no qual os jovens se veem sem suporte para lidar com suas angústias, dúvidas e descobertas. A série ilustra como essa ausência de acolhimento familiar favorece o surgimento de sentimentos de abandono, desamparo e revolta.
É importante destacar que respeitar a privacidade dos adolescentes não pode significar um completo desconhecimento sobre suas rotinas, emoções e relações. Os pais precisam estar atentos ao dia a dia dos filhos: saber o que estão vendo, ouvindo e sentindo. O acompanhamento presente e amoroso é fundamental para prevenir situações de risco emocional e construir uma base de confiança e segurança.
O isolamento social, embora silencioso, é um dos elementos mais impactantes da trama. A minissérie mostra adolescentes cercados de pessoas, mas completamente sozinhos em seu universo emocional. As redes sociais, ao invés de servirem como ponte para conexões saudáveis, reforçam esse afastamento: são espaços de comparação constante, pressão estética, busca por validação e palco para práticas cruéis como o cyberbullying. A falsa sensação de pertencimento virtual se contrapõe ao sentimento de exclusão na vida real.
Em meio a esse cenário, a necessidade de aceitação social se impõe como motor das ações de muitos personagens. Para serem vistos, incluídos ou valorizados, adolescentes são levados a se moldar, negar suas identidades e ultrapassar limites pessoais. A série destaca como essa busca, muitas vezes, termina em crises de identidade, sofrimento psíquico e até comportamentos autodestrutivos.
É fato: muitos adolescentes hoje crescem sem diálogo verdadeiro dentro de casa. Os pais, muitas vezes mergulhados em rotinas estressantes, acreditam que respeitar a privacidade dos filhos é se afastar completamente de suas vidas. Mas privacidade não pode ser confundida com abandono. É necessário acompanhar o que eles estão vendo, ouvindo, sentindo — não como forma de controle, mas como demonstração de cuidado.
A ausência de envolvimento familiar abre espaço para que outros elementos — como as redes sociais — ocupem o papel de orientadores. Nessas plataformas, os adolescentes são bombardeados por padrões inalcançáveis, discursos de ódio e cobranças constantes por performance, beleza, aceitação. O bullying, antes restrito ao ambiente escolar, agora invade o espaço íntimo por meio de telas. E os danos emocionais são profundos.
A masculinidade tóxica, também retratada na minissérie, é outro reflexo da negligência familiar. Quando os meninos não encontram em casa um ambiente que permita expressar sentimentos, acabam se moldando a padrões que valorizam a agressividade e a repressão emocional.
O resultado? Jovens que crescem sem referências saudáveis de afeto, empatia ou respeito.
A masculinidade tóxica também é explorada com profundidade — meninos são pressionados a reprimir emoções, afirmar poder sobre os outros e evitar qualquer traço de sensibilidade, sob pena de exclusão ou humilhação. Isso resulta em jovens emocionalmente reprimidos, agressivos ou desconectados de si mesmos.
O bullying aparece como uma prática normalizada no ambiente escolar e nas interações digitais. Os personagens enfrentam violências psicológicas e físicas que são frequentemente ignoradas pelos adultos
É urgente reforçar uma verdade muitas vezes esquecida: quem educa os filhos são os pais. E essa é uma tarefa intransferível. Escola, amigos, redes sociais, influenciadores — nenhum deles deve ocupar o papel de formadores morais e emocionais dos jovens. Esse dever começa em casa, com escuta ativa, presença constante e afeto verdadeiro.
A adolescência é uma fase de formação, mas também de extrema vulnerabilidade. É um momento em que os jovens precisam de espaço, sim, mas também de direção. Precisam saber que há alguém disponível, atento, pronto para acolher sem julgar, orientar sem sufocar, corrigir com amor.
A minissérie Adolescente não apenas retrata uma juventude perdida em meio ao caos moderno — ela grita por uma mudança urgente.
Cabe a nós, como sociedade, repensar o nosso papel diante das novas gerações. E, especialmente aos pais, lembrar: educar exige presença. E estar presente é mais do que estar fisicamente perto — é estar emocionalmente disponível.
Adolescente é uma minissérie que vai além da superfície dos dilemas juvenis e escancara as falhas de uma sociedade que pouco escuta sua juventude. Ao trazer à tona temas como o distanciamento familiar, os efeitos das redes sociais, o bullying e os estereótipos de gênero, a obra convida pais, educadores e a sociedade como um todo a refletirem: o que temos feito — ou deixado de fazer — por nossos adolescentes?
Mais do que nunca, é essencial que os pais estejam emocionalmente presentes. Respeitar a individualidade dos filhos não significa se afastar — significa encontrar o equilíbrio entre espaço e acompanhamento, entre confiança e cuidado. A adolescência não é apenas uma fase; é um grito silencioso por orientação, afeto e atenção genuína.
A minissérie é uma alerta.
Mais do que valer a pena assistir, nós precisamos assistir.

Olinda Altomare é magistrada em Cuiabá e cinéfila inveterada, tema que compartilha com os leitores do Circuito Mato Grosso, como colaboradora especial.
Foto Capa: Reprodução/Divulgação