Está marcado para este sábado (29) um ato que promete mobilizar milhares de mulheres mais de 97 pontos do Brasil e 10 países do exterior contra o candidato Jair Bolsonaro (PSL). Na capital de Mato Grosso, estado com grande percentual de ‘bolsonaristas’, a organização estima a participação de mais de 1,5 mil pessoas. Os homens que compartilham das mesmas ideias também podem se juntar a elas.
O mesmo movimento ocorrerá na Praça Barão do Rio Branco, em Cáceres (a 200 km de Cuiabá). Para garantir que seja realmente um movimento pacífico, a estudante universitária Valéria Badocco, 33 anos, que está na organização do ‘Coletivo mato-grossense unidas’, disse que foi protocolado pedido de acompanhamento pela Polícia Militar.
“Da nossa parte a proposta é ser muito tranquilo, por isso não vejo problema em levar crianças e adolescentes. Não vai ter passeata, vamos nos concentrar na praça do monumento e fazer todo evento ali, com cartazes, camisetas, desde que não representem partidos políticos. Não vamos aceitar campanha a candidatos”, orienta a organizadora, que conta com o apoio de outras três mulheres: Suellen, Josiane e Tafnys.
Para Valéria, é importante ficar claro à sociedade que não se trata de divulgar qualquer ideologia partidária, a manifestação que ocorrerá paralelamente em outras cidades tem um único objetivo: mostrar que as mulheres não apoiam candidatos fascistas nestas eleições. “Estamos fazendo tudo dentro da legalidade e não vamos aceitar extremistas querendo levantar bandeiras usando esse grupo”.

poder, abolindo direitos sociais trazidos pela Constituição de 1988
Com os slogans ‘ele não’ e ‘ele nunca’, o protesto reunirá mulheres de diferentes idades, classes sociais e níveis de escolaridade em prol de uma mesma ideia: respeito à democracia e aos direitos humanos. Elas estão organizadas inclusive no exterior, com pontos nos seguintes países: Portugal (03), Estados Unidos (03), Austrália (02), Canadá (02), França (02), Alemanha, Argentina, Espanha, Holanda e Inglaterra.
Serão 17 locais em São Paulo, 09 no Rio Grande do Sul, 06 no Rio de Janeiro, 08 em Minas Gerais, 06 na Bahia, 06 no Pará, 07 em Santa Catarina, 03 no Maranhão, 03 no Ceará, 02 em Mato Grosso, restante com um ponto: Goiás, Paraná, Piauí, Pernambuco, Amapá, Mato Grosso do Sul, Amazonas, Distrito Federal, Rio Grande do Norte, Alagoas, Espírito Santo, Paraíba, Sergipe e Tocantins.
Risco de golpe militar
Mônica Aragona, de 44 anos, professora na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), é uma das mulheres que vai participar do ato que considera histórico e retrata a mudança de uma lógica machista altamente arraigada de menosprezo entre as próprias mulheres, taxadas de ‘vagabunda’, inclusive quando são vítimas de violência, inclusive sexual.
“Mesmo que esse candidato que possui ideias desprezíveis não ganhe, estamos em um momento político delicado e sombrio, com risco de retorno da ditadura militar, porque nossa extrema direita ainda não ‘engoliu’ as conquistas sociais trazidas pela Constituição Federal, que acabou de completar 30 anos”.
A advogada Miriele Garcia Ribeiro, de 35 anos, diz que vem acompanhando o candidato há muito tempo e percebe que ele não está preparado minimamente para representar o país, isso do ponto de vista técnico, de gestão, e também pelas suas ideias que excluí pessoas, subjuga mulheres, desvaloriza as populações mais pobres, como se o pobre não merecesse ser brasileiro. “Mais de 50% da população brasileira é mulher, então, nós não servimos?”.

adeptos do #EleNão
“Ao invés de integrar o país e discutir de forma séria a solução de conflitos, ele desagrega e gera violência. Mas, quem hoje apoia esse tipo de proposta que não traz desenvolvimento ao país? Percebo que é um grupo seleto, composto em sua maioria, por homens brancos e relativamente bem posicionados socialmente, uma parcela que é contra políticas sociais, trabalhistas e inclusivas, como cotas em universidades e concursos, programa bolsa família e até a Lei Maria da Penha”.
Filho de uma mulher que criou sozinha os dois filhos, foi presa e torturada na ditadura militar, Julio Resende, de 36 anos, professor de turismo no Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT) e doutorando da Universidade da Coruna (Espanha), representa o aposto do que pregou o discurso do general Hamilton Mourão, vice do Bolsonaro, que apontou as famílias chefiadas por mulheres como ‘fábrica de elementos desajustados’.
“Elas são incrivelmente fortes, sensacionalmente competentes e maravilhosamente sensíveis. Por isso estou com elas contra o Candidato Raivoso. Sabe por que o nome das mães vem primeiro na carteira de identidade? São elas o arrimo de boa parte das famílias brasileiras, estendo a minha admiração à minha mãe Eloisa Resende e esposa Jocimary Brandão a todas”.
Adesão crescente
Muitos artistas famosos aderiram à campanha que se espalhou pelo Instagram e Twitter. A atriz Bruna Marquezine, por exemplo, argumentou no Instagram usando a hashtag que ‘dizer que preferia um filho morto a um filho homossexual não é família’, ‘considerar gravidez um motivo para mulheres ganharem menos ou que filha mulher é ‘menor’ que filho homem não é família’.
Já Débora Secco foi além em seu Twitter, argumentando que #EleNao tem a ver apenas com política, tem a ver com moral. “Com a dignidade de ser e pensar que eu espero que a minha filha tenha, e os filhos de todos vocês também tenham”. Camila Pitanga, Claudia Raia, Patrícia Pillar, Fernanda Lima são outras famosas que aderiram.

desarmamento e foi rechaçado por 'bolsonaristas'
No Brasil inteiro, vários manifestos foram feitos contra Bolsonaro e seu vice que nesta semana soltou mais uma, que é contra pagamento de 13º salário e férias a trabalhadores. O documento intitulado ‘Pela democracia, pelo Brasil’ reúne artistas, advogados, ativistas e empresários brasileiros que discordam do projeto antidemocrático do candidato do PSL.
“Nunca é demais lembrar que líderes fascistas, nazistas e diversos outros regimes autocráticos na história e no presente foram originalmente eleitos, com a promessa de resgatar a autoestima e a credibilidade de suas nações, antes de subordiná-las aos mais variados desmandos autoritários”, diz trecho do manifesto que possui mais de 150 nomes, entre eles, de sócios e representantes de empresas como Natura, Itaú Unibanco, Fundação Getúlio Vargas (FGV), do médico Dráuzio Varella.
O movimento ganhou dimensão internacional, quando o vocalista da banda Imagine Dragons, Dan Reynolds, disse que Bolsonaro não representa o Brasil que ele conhece e ama. Nicole Scherzinger, que era do grupo Pussycat Dolls, também aderiu às hashtags 'EleNão' e 'elenunca' em mensagem a fãs brasileiros.
Ao passo que o Papa Francisco foi atacado por brasileiros nas redes sociais nesta quarta-feira (26) após fazer uma postagem criticando as políticas armamentistas e dizendo que quem fabrica armas não pode ser chamado de cristão. “Rezemos para que no mundo prevaleçam os programas de desenvolvimento e não aqueles para os armamentos”, diz o texto do Papa em seu Twitter. Os ataques começaram após a postagem, quando um dos usuários chegou a chamar o pontífice de “comunista”.
Confira os locais dos protestos:




