Foto: Andréa Lobo
Na data em que completa 148 anos de fundação, o município de Várzea Grande passa por mais um período conturbado em sua administração política. Após dois anos de administração, severamente contestada pela população, Walace Guimarães (PMDB) é cassado por suposto “caixa 2” em sua campanha e dá lugar a Lucimar Campos (DEM), que representa uma das famílias mais tradicionais do histórico político e social de Mato Grosso.
A democrata, com o peso de carregar e representar a força da família Campos, terá pouco tempo para resolver graves problemas do município cuja sede há pouco tempo era conhecida como Cidade Industrial. Nas ruas – totalmente esburacadas – a população esboça preocupação com mais uma gestão que se inicia sob um turbilhão de transtornos.
A realidade de caos pode ser exemplificada se relembrarmos o grotesco quadro de gestores que assumiram o Paço Couto Magalhães – sede da Prefeitura da cidade. Em pouco mais de quatro anos que antecederam a gestão de Lucimar, outros seis políticos assumiram o comando do município. Por muitas vezes, a volatização do poder várzea-grandense chegou a causar confusão na população que mal sabia qual era o prefeito que “geria” a cidade em determinados períodos.
Nestes últimos anos passaram pela Prefeitura de Várzea Grande: Murilo Domingos (2005-2011), João Madureira dos Santos (2011), Tião da Zaeli (2011-2012), Antônio Gonçalo Pedroso de Barros (2012), Walace Guimarães (2013-2015) e Jânio Calistro (2015). Tantos nomes para o mesmo cargo, mas nenhum deles conseguiu avançar no quesito melhorias para a sociedade.
A instabilidade administrativa em Várzea Grande começou a se agravar em 2011. Na ocasião, o então prefeito Murilo Domingos (PR) e seu vice, Tião da Zaeli (PSD), foram afastados dos cargos pela Câmara de Vereadores. Com isso, João Madureira dos Santos (PSC), presidente da Câmara na época, assumiu o comando da Prefeitura por pouco mais de 30 dias, já que o juiz José Leite Lindote reintegrou Zaeli ao cargo de vice-prefeito, que assumiu a Prefeitura.
Na mesma época, com a intervenção da Justiça, a cidade chegou a ter três prefeitos em menos de 24 horas. Por fim, Zaeli se manteve na prefeitura, mas só por 20 dias, até Murilo Domingos voltar ao cargo.
Dando continuidade ao imbróglio nada proveitoso, Domingos foi afastado pela Justiça e logo após, novamente cassado pelos vereadores. O vice, Tião da Zaeli, assumiu desde o afastamento do republicano e conquistou o mandato definitivo com a cassação.
Mas, seguindo a história trágica de Várzea Grande, Tião também não chegou ao final do mandato, já que renunciou ao cargo a 60 dias do fim de sua gestão.
Assumindo um mandato-tampão, Antônio Gonçalo Pedroso de Barros, o Maninho de Barros (PSD), ficou à frente do município no período entre a renúncia de Tião da Zaeli e a posse de Walace Guimarães.
A frenética dança das cadeiras na Prefeitura só piorou a situação financeira e estrutural da cidade. A segunda cidade mais populosa de Mato Grosso – só perdendo para Cuiabá – amarga desde então a ineficiência dos serviços públicos e infraestrutura mínima oferecida a seus cidadãos. Ruas esburacadas, saúde funcionando à base de determinações judiciais, dívidas que ultrapassam os 20 anos e saneamento básico entre os piores do Brasil transformaram um município com vocação e potencial de prosperidade num local cujo futuro é incerto.
Com investimento zero em 2012 na área de água e esgoto, Várzea Grande também apresenta outros índices que revelam uma realidade sombria para o saneamento básico. Dados do Ranking do Saneamento Instituto Trata Brasil, publicado em agosto de 2014, revelam que a coleta de esgoto está presente em apenas 20,9% das casas da cidade.
Saúde e dívidas do município também colocam contra a parede a população de Várzea Grande. De acordo com o ex-prefeito Walace Guimarães, só em 2013 foram gastos 29,6% do orçamento na área. Em 2014, outros 22,1% – o que ultrapassa a orientação da Constituição Federal, que determina no máximo 15%. Em relação às dívidas, R$ 105 milhões em passivos previdenciários precisam ser quitados.
Há esperança para Várzea Grande?
Entre os inúmeros questionamentos que envolvem o futuro do município e o descrédito político, muitos acreditam que há luz no fim do túnel e que o sol pode voltar a brilhar após intensos anos de tempestades.
O analista político João Edisom de Souza afirma que os problemas que sangram a cidade foram ocasionados pela falta de consciência coletiva dos gestores, que se preocuparam mais em manter o poder em suas mãos do que em trabalhar em prol da sociedade.
Na opinião do especialista, o caos, comparado a cidades que viveram épocas de pós-guerra, não será resolvido de imediato e, sim, com o empenho da própria gestão municipal e o apoio político-social.
“Para as pessoas que ocupam o cargo, o poder de Várzea Grande é mais importante do que as pessoas que moram lá. A ausência de um entendimento em prol da cidade tem levado a esse conjunto de condições a que chegamos hoje. Lucimar tem menos de dois anos de mandato. Se as instituições organizadas, os funcionários públicos e a população não formarem um grupo de apoio, não vão chegar a lugar nenhum, mesmo com o apoio do governo e deputados”, ressaltou o analista.
A nova prefeita, com pouco mais de uma semana de mandato, começou a adotar medidas emergenciais. A primeira delas foi buscar o apoio do Tribunal de Contas do Estado (TCE) para a realização de auditoria na gestão de seu antecessor. Além disso, ela começa a montar sua equipe de trabalho: até esta sexta-feira (15), Lucimar já havia anunciado doze dos 15 secretários que irão ajudá-la no comando da Prefeitura.
Os nomes já confirmados são: Sadora Xavier Fonseca Chaves (Procurador-geral do município); Breno Gomes (Serviços Públicos e Mobilidade Urbana); Kathe Maria K. Martins (Assistência Social); Cassius Clay (Saúde); Eduardo Vizotto (Departamento de Água e Esgoto – DAE); César Miranda (Gestão Fazendária); Sonia Fiori (Comunicação Social); José Augusto de Moraes (Planejamento); João Jose Mendanha (Guarda Municipal); Zilda Pereira Leite Campos (Educação); Teresinha Jesus da Rosa (Previvag); e Adilson Luiz da Costa (Desenvolvimento Urbano, Econômico e Turismo).
Em seus primeiros momentos como prefeita, a esposa do ex-senador Jayme Campos (DEM) afirmou que o foco de sua atuação será o social, voltado ao resgate da autoestima da população, por meio da oferta de infraestrutura básica, saúde, educação e segurança.
“Várzea Grande está precisando de tudo, ela está cansada de ser desprezada por gestões passadas. Quero fazer o possível e o impossível para trazer uma gestão de credibilidade, como também fazer com que a população de Várzea Grande seja mais feliz”, afirmou Lucimar na segunda-feira (11), ao deixar o gabinete do presidente do TCE, conselheiro Waldir Teis.
O poder dos Campos
O mandato de Lucimar marca a volta da família Campos ao poder em Várzea Grande. Nos próximos 19 meses, a democrata deverá guiar sua gestão sob o pilar da grande experiência politica de seu esposo Jayme, que já foi prefeito da cidade por três vezes (1983-1988, 1996-2000 e 2001-2004), além de governador do Estado (1991-1994) e senador (2007-2015); e de seu cunhado Júlio Campos, que também tem uma grande carreira politica, acumulando os cargos de prefeito de Várzea Grande (1973-1977), deputado federal (1979-1983, 1987-1991 e 2011-2015) e governador (1983-1986).
Na visão de João Edisom, o fato de Lucimar ser guiada pelos irmãos Campos é natural, visto que ela assume um cargo eletivo pela primeira vez.
“Pelo tamanho do Jayme é impossível, e seria até leviano, conviver com ele numa relação de gestão, onde um grupo comanda a prefeitura, e excluí-lo. A Lucimar, apesar de ter acompanhado todo esse processo, nunca exerceu um cargo eletivo. A experiência do Jayme e do Júlio Campos serve para que erros que porventura poderiam ocorrer não aconteçam”, analisou João Edisom.
Em todos esses anos de vida pública, iniciada nos anos 80 ao lado de seu esposo, Lucimar seguiu o padrão social imposto a toda mulher de grande líder político, dedicando seu tempo e esforço ao social e em manter sua imagem ligada à família e á religiosidade.
Como primeira-dama do Estado entre os anos de 1991 e 1994, Lucimar foi nomeada presidente de Honra da antiga Prosol. Atuando em Várzea Grande, ela deixou importantes referências na assistência social da cidade, como o grupo de mulheres Sempre Amigas, campanhas ativas de doação de cobertores e filtros de água, programas Pão e Leite e Padaria Comunitária. Além disso, fomentou o artesanato local com a revitalização da Casa de Artes.
Atualmente, a prefeita segue presidente do Instituto Jayme Veríssimo de Campos (Jaiminho), entidade com quase nove anos de fundação que contribuiu para formação humana de 80 crianças e adolescentes na faixa etária dos 10 aos 17 anos. A entidade é uma homenagem ao filho mais velho do casal, já falecido.


