Oitenta e sete anos e uma energia contagiante. Dona Joaninha mostra que para chegar à terceira idade é preciso alegria e disposição. Com o passar dos anos, várias doenças foram chegando e para lidar com elas a aposentada encontrou apoio no Centro de Convivência de Idosos João Guerreiro, no bairro Altos do Coxipó, em Cuiabá.
Todas as terças e quintas-feiras ela dá a honra de sua presença nas aulas de hidro e de ginástica. Animada, ela conta depois da aula na água que as dores nas articulações diminuíram muito e nesses seis anos tudo mudou na sua vida.

“Eu tinha muita dor, tudo que era junta doía, mas aí eu comecei a fazer a hidro e a ginástica e foi melhorando”, contou ao Circuito Mato Grosso.
As idas ao Centro são acompanhadas pela filha Laura Teixeira, que comemora os resultados obtidos pela mãe durante esse tempo. “Melhorou tudo praticamente, porque antes ela tinha muita dor. Ela tem problema de pressão alta, que sempre estava muito alterada. Depois que ela passou a vir para cá eu já consigo dar só uma dose do remédio. A gente tem conseguido um acompanhamento médico e com essas as atividades ela melhorou muito”, comemora a filha.
De acordo com Laura, a mãe só não faz o que não consegue devido às limitações. Uma dessas coisas é a escola. No local funcionam duas salas de aula para alfabetizar os idosos.
“Ela ficava muito nervosa, porque aprendia aqui e quando chegava em casa ela pedia ajuda e quando a gente ia corrigir aí ela não aceitava, ficava muito nervosa”, explica Laura.
Esse nervosismo da Dona Joaninha se dá porque ela não consegue guardar os ensinamentos na cabeça. Quando recebia ajuda e era corrigida, tinha certa dificuldade para aceitar e sempre dizia que as pessoas estavam ensinando errado. Desistir das aulas partiu dela mesma.
“Eu estava estudando, mas as coisas não entram na minha cabeça e por enquanto eu abandonei os estudos. Na hora de fazer a lição, dava um branco. Ali [na sala de aula] eu estava sabendo, quando chegava na frente dele [professor], eu não sei se era nervoso ou o que, dava um branco”, conta Dona Joaninha.
Ao saber de sua desistência, o professor ficou triste, mas disse que ainda tem esperanças que ela volte à sala de aula. Esse é um sonho antigo da Dona Joaninha, que não pôde estudar quando nova e desejava muito aprender.
“Eu tinha muita vontade de aprender quando era criança e cheguei a apanhar várias vezes porque pedia para estudar, para ir à escola. Mais eu não podia ir porque tinha que puxar a cuicá [enxada] na roça. Meus irmãos todos estudaram menos eu. Eu não tive a felicidade de estudar”, se recorda.
A melhora foi tão boa que o medo de sair na rua de Dona Joaninha sozinha passou. “Antes eu tinha medo de ir à igreja, porque não sentia forças nas pernas. Hoje, com os exercícios, eu já consigo ir. Meu joelho ficava inchado de caminhar, dava moleza nas pernas, mas aí depois passou a melhorar e se fortalecer”.
Centro de Convivência de Idosos
Ao todo, 404 idosos estão cadastrados no Centro de Convivência de Idosos João Guerreiro. No local são oferecidas atividades físicas, assistência social e aulas de alfabetização e informática. A equipe é composta por oito profissionais que diariamente se dedicam a cuidar de 120 idosos que diariamente passam por ali.
Para se cadastrar é preciso ter 60 anos e estar munido de documentos pessoais, RG, CPF, comprovante de residência, cartão do Sistema Único de Saúde (SUS), Número de Identificação Social (NIS), encaminhamento médico para poder fazer aula de hidroginástica, atestado dermatológico e cardiológico.

De posse desses documentos, a primeira porta é com a assistente social. Com ela o idoso vai passar por uma triagem por meio do preenchimento de uma ficha de monitoramento conforme a necessidade do idoso ela vai encaixar ele nas devidas atividades oferecidas.
O coordenador da unidade, Diego Henrique, conta que a procura é muito grande por parte dos idosos para a prática das aulas de hidroginástica, ginástica laboral e informática. “A grande maioria está sempre antenada, vem, participa e se a piscina não está funcionando eles buscam fazer outro tipo de atividade”.
Alguns idosos chegam até o Centro após serem aconselhados por médicos, ou ouvirem de alguém próximo que participa das atividades lá desempenhadas. “Nós temos exemplos de idosos que chegam com reclamações de problemas para se locomover, dores como artrose, osteoporose, problemas para mover os braços. A partir daqui eles começam a fazer suas atividades na hidro e gradativamente veem que houve uma melhora”, explicou Diego.
As aulas de hidroginástica acontecem de segunda a quinta-feira na parte da manhã. A escola de alfabetização funcionada segunda, terça, quarta e sexta-feira. O yoga toda terça e sexta-feira e o artesanato todos os dias de manhã e na segunda-feira à tarde. E às quintas acontece o famoso baile dos idosos.
“Qualquer idoso, cadastrado ou não, pode vir dançar das 13h às 17h, com música ao vivo. Temos uma média de 100 idosos que participam do baile. A única exigência que nós fazemos é que eles venham com traje adequado. Homens de calça e mulheres com saias ou vestidos abaixo dos joelhos, pois já tivemos problemas”, informou o coordenador.
Bailão
Não há restrição de idade para os que querem participar do bailão. “Vêm jovens também para dançar com eles. Além disso, recebemos idosos de Várzea Grande. O show é por conta do Sr. Mano dos Teclados, que toca música ao vivo, e eles gostam”, lembrou Diego.
Com tantas atividades, o lugar acaba se tornando uma válvula de escape para muitos idosos que às vezes não querem voltar para a casa ao final delas. “Querem ficar aqui, dar uma espairecida na cabeça. Às vezes a pessoa tem muitos problemas familiares, de convívio, de aceitação. Então, vindo aqui, o idoso se sente mais aliviado”.
Passeios
Outra atividade oferecida pelo Centro são os passeios. Pelo menos três vezes ao ano, os idosos viajam para lugares fora da capital, além dos passeios que acontecem dentro da cidade, como visitas aos Parques, clubes de piscina e outros.
Além das atividades físicas, os idosos também participam de palestras que são ministradas por alunos de cursos de saúde. As palestras são voltadas para alimentação, medicação, doenças que são de interesses deles.
O Centro João Guerreiro fica localizado na Rua 1, s/n e atende idosos da região Sul, compostos pelos bairros Tijucal, Pedra 90, Osmar Cabral, e até de outras regiões. O horário de funcionamento é de segunda a sexta-feira das 7 às 11h e das 13h às 17h. Para mais informações: (65) 3661-6007.
“Não é combater o envelhecimento, é se preparar para ele”, diz médica
Só no Brasil, 12% da população são idosos e consequentemente há mais idosos nos consultórios médicos. Para a médica geriatra Andréia Casarotto, é preciso trabalhar que o envelhecer não começa quando completamos 60 anos, mas sim desde que nascemos. Por isso é preciso melhorar a cultura das pessoas e o olhar delas para o envelhecimento.

“O envelhecimento é inexorável, todos nós vamos envelhecer. As pessoas vão viver 15, 20, 30 anos da vida delas nessa fase da vida e é preciso estar preparado para isso. As pessoas estão preocupadas com o envelhecimento sim, mas com um olhar de lutar contra ele e não o de se preparar para ele”, explicou a médica ao Circuito Mato Grosso.
Nada é milagroso, segundo a médica, mas no envelhecimento o mais importante não é só não ter uma doença, mas no caso de ter, o quanto essa doença impacta a funcionalidade do idoso. Se o paciente tem essa visão de prevenção das doenças ou pelo menos de controle das doenças, ele envelhece melhor.
“Isso está começando ainda, mas é difícil você ver um paciente com esse pensar. É essa cultura de preparar e não combater. Não é combater o envelhecimento, é se preparar para ele”, afirma a médica geriatra.
Doenças
As principais doenças que acometem o idoso, segundo Andréia, são as doenças crônicas. Hipertensão, diabete, dislipidemia, problemas cardiológicos, doenças osteoarticulares e conforme o paciente vai envelhecendo vão se somando mais doenças. Como o Alzheimer, os quadros depressivos, as doenças crônicas degenerativas são as mais prevalentes. Às vezes os pacientes têm até cinco doenças juntas.
Por isso, ressaltou a médica, é preciso tratar o idoso de modo geral. “Eu não posso ir ao médico do coração e achar que o remédio para o coração não vai influenciar, por exemplo, numa queda, porque ele pode influenciar. Então quando pensamos no idoso a gente tem que ter essa avaliação global”.
E alerta: é preciso ter cuidado com o tanto de remédio que esse idoso toma. “É preciso saber ser bem orientado em relação a medicação, pois um dos maiores problemas é a iatrogênica que é o tanto de remédio que ele toma”.
Medicamentos
A médica ressalta que o uso de medicamento junto com a prática de atividades físicas é importante para o idoso. “Por isso os centros ajudam muito, porque, por exemplo, no tratamento de geriatria, no quadro demencial, nas doenças metabólicas, na depressão, a gente precisa ter esse olhar de que atividade física é fundamental. O remédio é indicado, mas as outras coisas são coadjuvantes e por isso são importantes também”, ressaltou.
A médica aconselha, ainda, que as pessoas aceitem o envelhecimento e que não fiquem apegadas às perdas. “As perdas vão acontecer, não tem jeito. Conforme vai passando o tempo, vamos perdendo algumas coisas da vida. Só que tem umas pessoas que são muito apegadas às perdas, ficam remoendo, aí elas sofrem muito no envelhecimento”.
A melhor coisa é se preparar para essa fase da vida da melhor forma possível. “É preciso lembrar que não precisamos lutar contra o envelhecer, a gente tem que lutar a favor dele. Quando o paciente aceita o envelhecimento, é melhor”, sintetiza Andréia.

GIBA ajuda moradores do Alvorada a cuidar da saúde
Quando ficamos em uma idade mais avançada, nosso corpo vai precisar cada vez mais de cuidados, isto não é segredo para ninguém. O Grupo de Idosos do bairro Alvorada (GIBA) debate duas vezes por semana sobre alimentação, o manuseio de sal na comida, hidratação, e oferece atividade física.
Segundo uma das coordenadoras do GIBA, Zene Araújo, cerca de 60 idosos participam do projeto, criado em 1992, interrompido por um longo período e reativado há dois meses. “Quando um fica doente a gente cuida, buscamos colocar em prática o método um cuidando do outro”, disse ao Circuito MT.
Zene Araújo lembra que o número de participantes não para de crescer. “Duas vezes por mês fazemos um lanche, para nos reunirmos e conversarmos melhor, depois nos exercitamos”, conta.
A costureira Inêz Mendes, de 69 anos, contou que participa desde o início do grupo, ela se sente com o corpo melhor mesmo com algumas doenças. “Eu tenho hipertensão, colesterol alto e reumatismo. Sempre me cuido, faço caminhada todos os dias”.
Inêz diz que se sente mais disposta. “Eu sempre quero fazer algo, meu corpo não consegue ficar parado”, falou.
O aposentado Paulo Félix, de 64 anos, tem hipertensão e está buscando uma vida saudável desde que descobriu a doença. Paulo faz exercícios constantemente há alguns meses e mudou alguns hábitos alimentares. “Estou me cuidando mais, parei de comer frituras e comidas com exagero de sal”.



