Após recuperação superior a 3% na sessão anterior – e com apenas uma ação da carteira então em baixa -, o Ibovespa lutou por novos ganhos nesta terça-feira, amparado por Vale (ON +0,79%) e Petrobras (ON +2,51%, PN +2,69%), mas foi retido pela pressão exercida pelo setor financeiro, o de maior peso no índice, cujas perdas foram moderadas até 1,29% (Banco do Brasil ON) no fechamento. Nesta terça-feira, 24, oscilou entre mínima de 179.914,53 e máxima de 182.649,10 pontos, tendo saído de abertura aos 181.931,93 pontos.
Ao fim, marcava 182.509,14 pontos, em alta de 0,32%, com giro financeiro a R$ 24,6 bilhões, abaixo da média recente. Na semana, o Ibovespa sobe 3,57%, ainda recuando 3,33% no mês – no ano, avança 13,27%.
Depois do fechamento do índice à vista, contudo, a possibilidade de um cessar-fogo no conflito do Oriente Médio, mais uma vez ventilada, fez o petróleo virar pontualmente para baixo, e o Ibovespa futuro chegou a subir mais de um 1%. Um canal de TV israelense noticiou que um cessar-fogo de um mês será anunciado, a partir de um mecanismo que está sendo elaborado pelo enviado especial americano ao Oriente Médio, Steve Witkoff, e por Jared Kushner, genro e homem de confiança do presidente dos EUA, Donald Trump.
Antes, com o índice à vista ainda aberto, na ponta ganhadora do Ibovespa nesta terça-feira apareceram, além das ações de Petrobras – favorecidas pelo ganho então de 4,5% para o Brent em Londres, a US$ 100,23 o barril para junho -, destaque também para os frigoríficos Minerva (+4,80%) e MBRF (+3,37%), bem como para Braskem (+3,20%) e CSN Mineração (+2,86%). No lado oposto, Azzas (-2,83%), Rumo (-1,96%), Embraer (-1,84%), Natura (-1,82%) e Localiza (-1,73%). Em Nova York, Dow Jones -0,18%, S&P 500 -0,37%, Nasdaq -0,84%.
Na segunda-feira, “o mercado tinha fechado com a aposta, ainda que cautelosa, de algum tipo de negociação entre Estados Unidos e Irã”, diz Marcos Praça, diretor de análise da Zero Markets Brasil. “O problema é que as mensagens seguem muito contraditórias”, acrescenta Praça, referindo-se ao anúncio de “avanço diplomático” feito na segunda pelo presidente americano, Donald Trump, prontamente desmentido por autoridades iranianas. “Os próximos dias seguem decisivos para saber se foi apenas um respiro técnico o que tivemos ontem ou uma desescalada mais consistente.”
Nesse contexto, mais do que a agenda econômica diária – que nesta terça trouxe a ata do Copom sobre a decisão de cortar a Selic, de 15% para 14,75% -, o mercado, aqui e no exterior, tem tomado o pulso da guerra, entre sinais de relativo alívio ou de continuidade da incerteza em torno da duração do conflito. “A ata trouxe tom mais duro do que o comunicado, incorporando maior nível de incertezas”, diz Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos.
Contudo, do meio para o fim da tarde, o Ibovespa mostrou leve melhora com a reiteração, por Donald Trump, de que há, sim, negociações em andamento com o Irã que envolvem, entre outros, o vice-presidente, JD Vance, e o secretário de Estado, Marco Rubio. “O Irã concordou que nunca possuirá armas nucleares”, afirmou o presidente dos EUA. “Nós ganhamos essa guerra”, disse ainda Trump, em conversa com jornalistas nesta tarde na Casa Branca. “Pessoas com quem estamos conversando no Irã querem chegar a um acordo”, frisou em cerimônia de posse do secretário de Segurança Interna dos EUA (DHS, em inglês).
Também nesta terça-feira, o jornal inglês The Times reportou que a Marinha Real Britânica deve liderar os esforços da coalizão para reabrir o Estreito de Ormuz. Um plano liderado pelo Reino Unido e pela França está em desenvolvimento para garantir a passagem segura de navios comerciais, mas precisará da participação dos americanos, segundo um representante que falou sob condição de anonimato.
Em outro desdobramento do dia, o primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, escreveu no X que seu país está pronto para “facilitar negociações significativas e conclusivas” para encerrar a guerra no Oriente Médio. Conforme reportagem do The Wall Street Journal, o Irã está preocupado que as tentativas de garantir um cessar-fogo possam ser uma armadilha. Autoridades em Teerã estão preocupadas que quaisquer negociações presenciais possam levar a uma tentativa de assassinato de Mohammad Bagher Ghalibaf, o presidente do parlamento do Irã e ex-comandante paramilitar que os EUA querem que participe de quaisquer discussões.
Como efeito do conflito, que ingressou na quarta semana, o suprimento mundial de combustível está se tornando mais restrito no Sul da Ásia e em breve será pressionado no Nordeste da Ásia, com a Europa começando a ver escassez em abril, disse o CEO da Shell, Wael Sawan, reporta também The Wall Street Journal.
Dólar
O dólar à vista encerrou a sessão desta terça-feira, 24, em alta de 0,28%, a R$ 5,2553, após ter registrado máxima de R$ 5,2796 pela manhã. Mais uma vez, o comportamento da taxa de câmbio foi ditado pelo ambiente global, marcado por nova rodada de valorização da moeda americana em meio ao aumento de prêmios de risco associados à guerra no Oriente Médio. Com o mercado à vista já fechado, o dólar futuro para abril passou a operar em queda com relatos da mídia israelense sobre confecção de proposta de cessar-fogo por parte dos EUA.
Na segunda-feira, houve alívio com a decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de postergar por cinco dias ataques à infraestrutura energética do Irã em razão de supostas negociações de paz, negadas por autoridades iranianas. Nesta terça, investidores recompuseram posições defensivas em meio ao vaivém de informações sobre a guerra. As cotações do petróleo subiram mais de 4%, com o contrato do Brent para junho novamente acima da marca de US$ 100 o barril.
“As incertezas em relação à guerra continuam muito elevadas, o que provoca alta do petróleo e fortalece o dólar. Parece que o mercado está com um pé atrás com o discurso de Trump, já que o Irã negou qualquer tentativa para um acordo”, afirma operador sênior Fernando César, da corretora AGK.
O pico do estresse ocorreu pela manhã com as notícias de ataques iranianos a países do Golfo Pérsico aliados aos EUA. O porta-voz do alto comando militar iraniano, major-general Ali Abdollahi Aliabadi, afirmou que as Forças Armadas do país lutarão “até a vitória completa”. Segundo informações do Financial Times, o Irã vai permitir o trânsito de “embarcações não hostis” pelo Estreito de Ormuz em “coordenação com autoridades iranianas”.
À tarde, Trump voltou a jogar na mesa a carta das negociações ao dizer que Teerã concordou em renunciar à pretensão de possuir armas nucleares. Figuras de destaque da administração Trump, como o secretário de Estado, Marco Rubio, e o vice-presidente JD Vance, estariam envolvidos nas tratativas dos iranianos, segundo Trump.
O diretor de Pesquisa Econômica do Banco Pine, Cristiano Oliveira, ressalta que o real, apesar da depreciação em março, apresentava até a segunda-feira o melhor desempenho entre as principais divisas globais, seguido por dólar australiano, peso argentino e coroa norueguesa. “São moedas de economias exportadoras de commodities ou beneficiadas por diferencial de juros elevados”, afirma Oliveira.
Divulgada pela manhã, a ata do encontro do Comitê de Política Monetária (Copom) na semana passada, quando a taxa Selic foi reduzida de 15% para 14,75%, reforçou a perspectiva de que o BC vai prosseguir na “calibração” da política monetária. Casas como BTG Pactual e Goldman Sachs avaliam que o comitê deixou a porta aberta para corte de 0,25 ponto ou 0,50 ponto da Selic em abril.
À tarde, o Banco Central surpreendeu ao anunciar um leilão de linha (venda de dólares com compromisso de recompra) no valor de US$ 1 bilhão não atrelado a rolagem de posições – ou seja, uma injeção de recursos novos no mercado. Profissionais nas mesas de câmbio observam que nos últimos dias houve uma piora do chamado dólar casado (diferença entre o dólar futuro e à vista), o que sugere um aumento de saída de recursos do país.
O chefe da Tesouraria do Travelex Bank, Marcos Weigt, afirma que o BC atuou de forma preventiva diante do fluxo cambial negativo. “O mercado não está disfuncional. O BC apenas está provendo liquidez para uma possível falta de dólares”, afirma o tesoureiro.
Na segunda-feira, o BC vendeu US$ 1,8 bilhão em leilão de linha para rolagem do vencimento de 2 de abril. A oferta total foi de US$ 2 bilhões. Em geral, o BC costuma anunciar leilões no início da noite, quando o mercado cambial já está fechado, mas já interveio outras vezes ao longo do pregão.
Weigt destaca que, apesar da alta de mais de 2% do dólar frente ao real em março, a taxa de câmbio está comportada, mantendo-se em um intervalo entre R$ 5,15 e R$ 5,35 ao longo do mês. “Nesse período, o real está à frente do peso mexicano e se valorizou mais que o rand sul-africano. O ‘carrego’ tem ajudado bastante”, afirma.
Juros
Depois de terem se consolidado em firme alta ao longo de todo o pregão, os juros futuros negociados na B3 praticamente zeraram o movimento faltando pouco mais de meia hora para o fechamento desta terça-feira, 24. O gatilho para a inversão foram relatos da mídia israelense de que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, trabalha em uma proposta para um cessar-fogo de um mês na guerra com o Irã. Até as 17h20, as taxas haviam se consolidado no terreno positivo em meio a incertezas sobre possíveis negociações entre os EUA e o país persa.
Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 oscilou de 14,15% no ajuste anterior a 14,16%. O DI para janeiro de 2029 passou de 13,721% a 13,815%. O DI para janeiro de 2031 fechou em 13,93%, de 13,817% no ajuste.
Os trechos curtos chegaram a acelerar a alta e renovar máximas por volta das 14h, devido à informação, segundo agentes, de que o Pentágono planeja enviar cerca de 3 mil soldados do Exército ao Oriente Médio. No fim da tarde, apagaram boa parte do avanço, reagindo a relatos da mídia israelense de que um acordo entre EUA e Irã envolveria uma trégua de um mês nos ataques. A resolução, ainda não confirmada por Teerã, também envolveria restrições sobre o programa nuclear iraniano.
A ata do Comitê de Política Monetária (Copom) – que, na visão de profissionais do mercado, deixou em aberto a possibilidade de corte de 25 ou 50 pontos-base da Selic em abril -, ficou em segundo plano no dia diante da volatilidade no noticiário sobre o confronto.
Os ativos de risco já haviam moderado levemente a dinâmica negativa observada ao longo do dia nas horas finais do pregão, ao mesmo tempo em que o presidente dos EUA, Donald Trump, garantia que o país venceu a guerra, e que Washington segue em tratativas com Teerã.
O Irã, por sua vez, continuou negando que as negociações sejam verídicas. Pela manhã, o porta-voz do alto comando militar iraniano, major-general Ali Abdollahi Aliabadi, do Quartel-General Central de Khatam al-Anbiya, afirmou que as Forças Armadas do país lutarão “até a vitória completa”.
“O DI curto está extremamente correlacionado com o preço do petróleo”, observa André Muller, economista-chefe da AZ Quest Investimentos. “Seja aqui ou lá fora, o mercado de renda fixa está com desempenho atrelado ao exterior e ao mercado de energia”. Nesta terça, o barril do Brent para junho fechou em alta de 4,5%, cotado a US$ 100,23, diante da continuidade dos ataques entre Israel e Irã e das negativas do país persa sobre conversas com os EUA. Após as informações sobre o possível cessar-fogo, o contrato chegou a recuar 2%.
Muller aponta que, desde o início do mês, a projeção da AZ Quest para o aumento do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 2026 passou de 3,8% a 4,2%, incorporando os impactos altistas da disparada do petróleo, e os riscos neste número são para cima. “A inflação de curto prazo coloca um prêmio de risco maior nos DIs”, disse.
Na ata do Copom, divulgada nesta manhã pelo Banco Central, o colegiado reconhece que a eclosão da guerra diminuiu a visibilidade, mas sinaliza que mantém o plano de voo de “calibração” do juro básico mesmo com as incertezas vindas do ambiente externo. O ritmo e a duração deste ciclo, porém, serão determinados ao longo do tempo, à medida que novas informações forem incorporadas à análise.
Agentes do mercado se dividiram entre o tom do documento, considerado hawkish, dovish ou neutro ante o último comunicado, mas concordam que a sinalização é de que haverá novo ajuste para baixo da Selic na próxima reunião do Copom. Para Goldman Sachs, BTG Pactual, XP Investimentos e Warren Investimentos, a autoridade monetária ainda deixou na mesa a opção de acelerar o corte a 0,5 ponto em abril.



