O retorno do fenômeno El Niño coloca o setor agrícola de Mato Grosso em alerta para a safra 2026/27. Com previsão de influência até o início de 2027, o principal risco para as lavouras pode não ser necessariamente a falta de chuva, mas a irregularidade das precipitações e o momento em que elas ocorrem, afetando desde a implantação da soja até a produtividade do milho de segunda safra.
De acordo com o gerente Técnico e de Serviços da Fiagril, Talis Melo, períodos de chuva antecipada seguidos por estiagens prolongadas podem comprometer o calendário agrícola. “O principal problema do El Niño para o Cerrado não é necessariamente chover menos durante o ano, mas chover na hora errada”, explica. Segundo ele, uma primeira chuva em setembro ou outubro pode estimular o início do plantio, mas a interrupção das precipitações pode prejudicar a emergência das plantas, exigir replantios e atrasar a janela de cultivo.
O impacto também pode ser sentido na segunda safra. O atraso na semeadura da soja reduz o intervalo disponível para o milho, aumentando o risco de que a cultura passe pelas fases finais de desenvolvimento em um período de menor disponibilidade hídrica. Na soja, o déficit de água durante etapas como o florescimento também pode reduzir o potencial produtivo e comprometer o rendimento das lavouras.
Para reduzir os riscos, a recomendação é antecipar o planejamento antes mesmo da chegada das primeiras chuvas. Entre as medidas indicadas estão a escolha de cultivares adaptadas às condições previstas, utilização de sementes de alto vigor, aquisição antecipada de insumos e adoção de práticas que favoreçam o desenvolvimento das raízes. Um sistema radicular mais desenvolvido amplia a capacidade da planta de acessar a umidade armazenada em camadas profundas do solo e enfrentar períodos de estresse hídrico.
O monitoramento das lavouras também deve ganhar importância durante a temporada. Períodos mais secos podem favorecer pragas como a mosca-branca e exigem atenção para doenças como cercosporiose, mancha-alvo e antracnose. Na Fiagril, a preparação para a safra inclui treinamento das equipes técnicas, organização logística e acompanhamento das propriedades para antecipar decisões e identificar problemas antes que provoquem perdas maiores.
“Não controlamos o clima, mas podemos nos preparar para enfrentá-lo. Decisões antecipadas e um manejo bem planejado são fundamentais para reduzir riscos e preservar a rentabilidade das lavouras”, afirma Talis Melo. Em Mato Grosso, onde soja e milho têm papel central na produção agrícola, o acompanhamento das previsões climáticas, a análise das condições do solo e o planejamento de materiais e insumos podem ser decisivos para preservar a produtividade e a rentabilidade diante de uma safra marcada pela maior variabilidade das chuvas.



