Havia algo em comum nas personagens vividas por Catherine O’Hara. E não era apenas o fato de ela ter sido duas vezes a mãe do Kevin nos primeiros filmes da franquia Esqueceram de Mim nos anos 1990. A atriz, que morreu aos 71 anos na última sexta-feira, 30, era uma atriz irresistível nas telas – seja em um blockbuster ou em uma série de TV.
Ao mesmo tempo enlouquecidas, divertidas e vulneráveis
A atriz criou personagens femininas que pareciam habitar uma realidade paralela. Geralmente ricas, algumas falidas… Outras com traços de uma futilidade reconhecível à primeira vista. Donas de falas e de gestos exagerados que, no fundo, denunciavam algum tipo de fragilidade. Para alguns, assustadora. Para outros, tocante.
A mãe do menino esquecido em casa às vésperas do Natal é um bom exemplo. Desde o início da trama, ela parece um tanto fora de si. O retrato escrito da mulher do final do século 20 – que girava 15 pratos ao mesmo tempo, só que, em vez do avental amarrado na cintura, vestia tailleur com ombreiras. Era ela a responsável pela logística da excursão familiar: arrumar as malas, reunir documentos, avisar que estava na hora do jantar, colocar o despertador para o dia seguinte.
E era essa mesma mulher a acordar atrasada, com o mesmo olhar de espanto do filho, para juntar todo mundo em uma van para o aeroporto. O pequeno fica para trás, no quartinho onde ela o havia posto de castigo. Também é essa mulher que “lembra” do filho no meio do voo para Paris. E que se vira para arrumar um voo de volta para os Estados Unidos enquanto a audiência feminina do filme tem vontade de socar a cara do pai da criança.
O mesmo ar de insanidade, justificadamente preciso em Esqueceram de Mim, já havia aparecido em outra personagem de Catherine, desta vez em Os Fantasmas Se Divertem, lançado dois anos antes. No filme, ela vivia Delia Deetz, a sarcástica madrasta da Lydia Deetz interpretada por Winona Ryder.
Ao descobrir que sua nova casa era mal-assombrada, a personagem se torna mais uma mulher peculiar no currículo da atriz. Uma mulher que, revoltada com o fato de não poder redecorar a casa por conta dos fantasmas, resolve encarar o sobrenatural com a petulância típica de quem não tem muita noção da realidade: “Eu vou ficar louca, mas vou levar você junto comigo”, avisa em uma das cenas mais memoráveis do filme.
Moira Rose, a mãe dramática de uma família de ricos falidos na série canadense Schitt’s Creek, pela qual Catherine ganhou seu primeiro Emmy, poderia ser irmã de Delia Deetz. As duas personagens tinham, além da aura levemente enlouquecida, um quê de deslocamento social, típico de classes dominantes em franco declínio.
Mulher fora da curva
Em seu último trabalho, na série O Estúdio, da Apple TV, ela vive outra personagem em decadência: uma alta funcionária demitida sob a justificativa de corte de gastos. Mais uma vez entregando ao público uma mulher fora da curva, que une um misto de megalomania caótica com um bem-vindo toque de comédia cringe.
As personagens de Catherine eram estereótipos engraçados criados por uma atriz séria, de muita personalidade e dona de uma sensibilidade intensamente dramática.



