Após ter fechado pouco abaixo da estabilidade nesta terça, 10 (-0,17%), o Ibovespa voltou a conquistar novos níveis recordes ao longo da sessão desta quarta-feira, 11, alcançando no melhor momento os 190.561,18 pontos – uma estilingada sem escalas ante os 186.241,15 pontos da segunda-feira, 9, quando havia encerrado, pela primeira vez, no nível dos 186 mil. Hoje, saindo de abertura aos 185.936,27 pontos, correspondente à mínima da sessão, o índice da B3 encerrou o dia em alta de 2,03%, aos 189.699,12 pontos, com giro financeiro reforçado na sessão, hoje a R$ 38,6 bilhões. Na semana, o Ibovespa sobe 3,69% e, no mês, avança 4,60%. No ano, ganha 17,73%.
Foi o 11º fechamento em nível recorde para o Ibovespa somente este ano, em série que retroage, com interrupções, a 14 de janeiro – as renovações ocorreram em intervalo de 21 sessões, o que inclui a de hoje. Nesta quarta-feira, ocorreu a despeito da fraqueza em Nova York, onde as referências mostraram variação entre zero (S&P 500) e -0,16% (Nasdaq) no encerramento, o que reforça a narrativa de que a rotação global de ativos, a partir dos Estados Unidos, segue em curso.
O índice da B3 ganhou força ainda no início da tarde, tocando pela primeira vez a marca dos 190 mil pontos, cerca de uma hora antes da divulgação de nova pesquisa eleitoral mostrando algum encurtamento da distância entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o principal candidato da oposição no momento, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Lula ainda lidera todos os cenários para a disputa presidencial em outubro, conforme a pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta quarta-feira, e também para o segundo turno.
Contudo, a vantagem ante Flávio Bolsonaro caiu nos últimos meses. Os dados das últimas pesquisas Genial/Quaest mostram queda na diferença entre os dois. Em eventual segundo turno entre ambos, Lula tem agora 43% frente a 38% de Flávio. Em dezembro, pouco após o senador ter anunciado que seria candidato com apoio do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, Flávio tinha 36%, contra 46% de Lula.
Em reação aos mais recentes resultados, o senador e pré-candidato à Presidência da República disse, hoje, que “não vai demorar muito” para seu nome aparecer à frente do presidente Lula. Ao comentar a pesquisa Genial/Quaest divulgada pouco antes de sua participação na CEO Conference Brasil 2026, do BTG Pactual, Flávio Bolsonaro se referiu ao petista como “Opala velhão”.
“As tendências mostram que não vai demorar muito para que, até na Quaest, o Flávio Bolsonaro esteja numericamente à frente do Lula”, disse. “O Lula é um produto vencido, de verdade. Se comparar o Lula a um carro, ele é aquele Opala velhão, macho, de câmbio manual. Já foi bonito, mas hoje não te leva para lugar nenhum e ainda bebe pra caramba”, enfatizou no evento, em que comentou nomes como os dos economistas Mansueto Almeida e Roberto Campos Neto como possíveis opções para o Ministério da Fazenda caso vença a disputa eleitoral. “Não conversei com nenhum deles”, acrescentou, referindo-se a “especulações da imprensa”.
“Pelo segundo mês consecutivo, observou-se que Flávio Bolsonaro reduziu o gap, que inicialmente era bem mais amplo para Lula”, diz Nicolas Gass, estrategista de investimentos e sócio da GT Capital, ressaltando que tal movimento foi interpretado de forma positiva, favorecendo a nova máxima histórica intradia do Ibovespa, aos 190 mil pontos durante a sessão desta quarta-feira.
Mesmo antes da confirmação do cenário de preferência do mercado – o crescimento de uma candidatura de oposição que possa fazer frente à reeleição de Lula -, notadamente as ações de bancos e do setor de commodities, carros-chefes da liquidez na B3 e da atração de fluxo estrangeiro, passaram a mostrar ganhos mais consistentes. Ao fim, Vale ON, principal papel do Ibovespa, mostrava alta de 3,49%, com Petrobras ON e PN em avanço, pela ordem, de 3,01% e 1,95% – em dia de alta para o Brent em Londres e na sequência de relatório trimestral de produção considerado satisfatório pelos investidores, divulgado ontem à noite pela estatal.
Entre os bancos, à exceção ainda de BTG (+0,17%) em relativa pausa posterior ao balanço trimestral, os ganhos nesta quarta-feira chegaram a 2,96% (Bradesco PN) no fechamento, com destaque também para Itaú PN, principal ação do setor, em alta de 1,96%. Na ponta ganhadora do Ibovespa, Suzano (+13,32%), TIM (+7,85%) e Klabin (+6,00%). No lado oposto, Totvs (-1,75%), Hapvida (-1,24%) e Pão de Açúcar (-1,10%).
“O risco eleitoral ainda é secundário frente ao fluxo estrangeiro e aos dados econômicos. A preocupação maior segue sendo a trajetória fiscal no próximo mandato, independentemente de quem vença”, diz Lilian Linhares, sócia e head da Rio Negro Family Office. “O ponto de atenção agora é se o ritmo de entrada de capital estrangeiro continua. Se continuar, tende a dar suporte adicional para bolsa e real. Se desacelerar, podemos ver um movimento mais técnico de realização”, acrescenta a especialista. Hoje, o dólar à vista fechou em baixa de 0,18%, a R$ 5,1876.
Para Felipe Cima, analista da Manchester Investimentos, o dia foi bastante positivo para o Ibovespa apesar de Flávio Bolsonaro ter sido “vago” e “generalista” no evento do BTG Pactual. Contudo, a pesquisa de hoje mostrou “consolidação” de sua candidatura como competitiva na disputa de outubro, que mostrou também um grau de desaprovação do governo que sugere um eleitor mais ao centro como definidor da corrida presidencial deste ano, acrescenta o analista.
“Cenário está bem dividido. Para onde pender o Centrão de Kassab Gilberto Kassab, presidente do PSD e maior líder do bloco, seja para Flávio ou Lula, poderá indicar quem terá mais bala na agulha para sair vitorioso em outubro”, diz.
Em perspectiva mais ampla, que inclui o front externo, “o ambiente construtivo dialoga” com o cenário econômico dos Estados Unidos, que divulgou nesta manhã novos dados oficiais sobre o mercado de trabalho, ainda pujante, observa João Duarte, sócio da ONE Investimentos, após o payroll ter mostrado geração de 130 mil vagas de emprego no país em janeiro. Na avaliação de Duarte, os dados mostram “resiliência” do mercado de trabalho sem que as expectativas de inflação sejam pressionadas “excessivamente”.
Dólar
O dólar apresentou leve queda no mercado doméstico nesta quarta-feira, 11, apesar de certa rigidez da moeda americana no exterior, na esteira da divulgação de números fortes de geração de empregos nos EUA em janeiro. Operadores afirmam que o real continua a se beneficiar do movimento global de rotação de carteiras e relatam provável fluxo estrangeiro para a bolsa doméstica, que tocou os 190 mil pontos.
Declarações do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, sobre a condução da política monetária e a divulgação de pesquisa da Genial/Quaest sobre a corrida presidencial tiveram papel secundário na formação da taxa de câmbio, que permanece mais atrelada ao comportamento do mercado global de moedas.
Afora uma alta pontual logo após a divulgação do relatório de emprego (payroll) nos EUA, quando tocou máxima a R$ 5,2040, o dólar operou em terreno negativo ao longo de toda a sessão. Com mínima de 5,1695, no fim da manhã, fechou em baixa de 0,18%, a R$ 5,1876, novamente no menor nível desde 28 de maio de 2024. O dólar recua 1,14% em fevereiro, após queda de 4,40% em janeiro. No ano, as perdas são de 5,49%.
“O payroll veio forte o suficiente para reduzir a convicção em cortes de juros rápidos nos EUA, o que ajuda a explicar porque o DXY não cede com força, mas também não decola. O dólar global fica travado”, afirma o diretor de portfólio da Oryx Capital, Luiz Fioreze, para quem os ativos domésticos continuam a oferecer prêmio atraente para atrair capital externo, o que explica a alta da bolsa e do real. “Temos entrada para a renda variável e diferencial de juros que sustenta estratégias de carry”.
Termômetro do comportamento do dólar ante uma cesta de seis divisas fortes, o índice DXY rondava a estabilidade ao longo da tarde, na casa dos 96,800 pontos. Destaque para os ganhos de cerca de 1% do iene, ainda sob o impacto da vitória do partido da primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, nas eleições legislativas japonesas. Na semana, o Dollar Index cai cerca de 0,80%.
O payroll revelou geração de 130 mil empregos nos EUA em janeiro, bem acima da mediana de Projeções Broadcast sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, de 67 mil. A taxa de desemprego recuou de 4,4% em janeiro para 4,3%, e o salário médio por ora subiu 0,41%, acima das expectativas. Ferramenta de monitoramento do CME mostra que as apostas majoritárias para retomada de cortes de juros nos EUA migraram de março para junho.
Por aqui, Galípolo voltou a falar em “calibragem” da política monetária com o início de um ciclo de cortes de juros em março, conforme sinalizado no comunicado da decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) em janeiro. Analistas avaliam que Galípolo busca conter apostas em um afrouxamento monetário expressivo, dado que as expectativas de inflação permanecem acima da meta.
“Embora não tenha tanto fluxo para renda fixa como tem para bolsa, eu não tenho dúvida de que o apelo do carry é muito forte, porque ainda temos juros muito elevados”, afirma a economista-chefe da BuysideBrazil, Andrea Damico. “O Brasil é um dos mercados mais líquidos e profundos entre emergentes e se beneficia da rotação global de carteiras”.
Pesquisa da Genial/Quaest mostrou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lidera em todos os cenários na corrida presidencial. Houve, contudo, uma redução de cinco pontos porcentuais na diferença entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em eventual segundo turno. Foi o primeiro levantamento sem o nome do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Operadores atribuíram as máximas do Ibovespa no início da tarde, na casa dos 190 mil pontos, à expectativa em torno da divulgação da pesquisa. O dólar até acelerou ligeiramente o ritmo de baixa, mas não chegou a se aproximar da mínima vista no fim da manhã. Ala relevante do mercado aposta que a oposição, uma vez vitoriosa, estaria disposta a promover um ajuste estrutural nas contas públicas, o que levaria a uma diminuição dos prêmios de risco.
Juros
A estrutura da curva a termo ensaiou ganhar alguma inclinação nesta quarta-feira, 11, com vetores domésticos sendo mais relevantes tanto para queda da parte curta quanto de discreta alta dos trechos longos, mas terminou o pregão ainda comportada e com estabilidade dos vértices mais distantes.
Tendo como pano de fundo o enfraquecimento do dólar, que forneceu alívio à curva, o mercado monitorou o cenário eleitoral, que trouxe pesquisa com quadro ligeiramente mais favorável para a oposição, e declarações do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à presidência e já tido como o principal nome da direita na disputa.
Por volta das 15 horas, ele participou como entrevistado da CEO Conference do BTG Pactual. Pouco depois, os vencimentos a partir de janeiro de 2031 chegaram a tocar máximas intradia, movimento que logo perdeu força. As falas que teriam desagradado o mercado foram sobre escolhas de Flávio para o ministro da Economia (atual Fazenda) e para o cargo de vice-presidente, ambas com elevada expectativa dos agentes e ainda não definidas.
A parte curta, por sua vez, seguiu operando no terreno negativo ao longo da tarde, ignorando a abertura dos Treasuries mais curtos após o payroll de janeiro ter mostrado que o mercado de trabalho norte-americano ainda segue aquecido. Nesse trecho da curva, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, também no evento do BTG, teve influência de baixa.
Galípolo comunicou que suas afirmações em outro evento na segunda-feira, consideradas mais conservadoras, não tiveram como objetivo corrigir interpretação do mercado sobre a condução da política monetária. O esclarecimento reforçou a aposta já majoritária de que a Selic deve ser reduzida em 0,5 ponto porcentual na reunião de março do Comitê de Política Monetária (Copom), afastando especulações de que o banqueiro central teria tentado sinalizar um ajuste menor anteriormente, de 0,25 ponto.
Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro para janeiro de 2027 cedeu de 13,374% no ajuste anterior a 13,34%. O DI para janeiro de 2029 caiu de 12,741% no ajuste de ontem para 12,705%. O DI para janeiro de 2031 ficou praticamente estável, em 13,14%, vindo de 13,145% no ajuste.
Na máxima da sessão, esse vértice chegou a alcançar 13,37%, depois do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro ter afirmado que não tem “prazo nenhum para anunciar o ministro da Economia”. “A imprensa especula Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG e o ex-presidente do BC Roberto Campos Neto, mas não conversei com nenhum”, disse o senador.
Sobre o candidato a vice de sua chapa, Flávio avaliou que o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo) seria “um grande nome” para o cargo, mas que também ainda não teve uma conversa com ele, e que seus elogios ao político durante o evento não significam um convite.
“Flávio disse que está muito cedo para falar em ministro e o mercado tem ansiedade sobre esse tema. Isso pode ter mexido na ponta longa, porque conversa com o risco fiscal”, avaliou Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez. “E também há uma ansiedade sobre o vice. O melhor cenário para o mercado seria o Flávio até o final da disputa eleitoral, e que Zema seja o vice”, apontou.
Às 14h, foi publicada pesquisa Genial/Quaest, que segue indicando o presidente Lula como líder em todos os cenários de primeiro turno, assim como nas simulações de segundo turno. O levantamento, por outro lado, consolidou Flávio como principal adversário da oposição, com 38% das intenções de voto, contra 43% do atual presidente. Na edição de janeiro da pesquisa, a diferença entre os dois candidatos era maior, de 7 pontos porcentuais.
O resultado deu apoio à dinâmica dos DIs observada até então, de recuo marginal das taxas intermediárias e longas, que não aceleraram a queda depois da pesquisa. “A pesquisa mudou muito pouco os DIs”, disse Tavares, ao trazer um cenário “marginalmente melhor” para a possibilidade de troca de ciclo político. “É como se a direita, de forma geral, tivesse ganhado uma casinha no tabuleiro. Foi um passo muito pequeno”.
Lá fora, com impacto apenas pontual e modesto sobre a curva de juros local, o payroll do primeiro mês do ano mostrou que a economia americana criou 130 mil empregos no período – quase o dobro da mediana de 67 mil postos do Projeções Broadcast. Depois do dado, o mercado passou a precificar uma menor probabilidade de redução de juros pelo Federal Reserve em junho.


