Cresceu, em quatro anos, em 161% o número de casos de sífilis em gestantes de Mato Grosso. Em 2015 foram registrados 351 mulheres grávidas com a infecção sexualmente transmissível (IST), enquanto em 2018 foram 917 notificações. Em 2019, até o início de julho, foram notificados 314 casos. Além das gestantes, em 2015 houve 283 notificações de sífilis congênita, que é quando o feto adquiriu a doença através da placenta. Já em 2018 foram 382 casos, um aumento de 35%. Outro dado que chama atenção são os casos de pessoa que adquiriram a IST. Em 2015 foram 527 casos, enquanto em 2018 foram notificados 906 pessoas com a doença; Um aumento equivalente a 72%. A médica Julia Horita Moherdaui, do Rio de Janeiro, que e entrevista ao Circuito Mato Grosso afirmou que as pessoas não estão usando camisinha nas relações sexuais, mas o que pode estar mostrando esse aumento é o crescimento da realização de testes e notificações da infecção. Julia Horita Moherdaui esteve presente em Cuiabá para o 15° Congresso Brasileiro de Medicina de Família e Comunidade, que ocorreu entre dia 10 e 13 de julho, em Cuiabá, e realizou uma palestra sobre este tema.
Confira a entrevista:
Circuito Mato Grosso: Qual é a diferença entre usar o termo “doença” ou “infecção sexualmente transmissível”?
Julia Moherdaui: Nós usamos o conceito de doença e infecção de formas diferentes. Quando o Ministério da Saúde usa a palavra “infecção” quer dizer que ela não terá necessariamente alguma manifestação. Quando a gente fala em doença costuma dizer ‘estou com uma dor aqui, uma mancha ali’, sempre tem alguma manifestação que quer significar uma doença. No caso de uma infecção ela pode ser latente, ela pode ser silenciosa, pode não se manifestar. Esse é o sentido que o Ministério da Saúde está querendo dar quando muda o termo de DST (Doença Sexualmente Transmissível) para IST (Infecção Sexualmente Transmissível).
CMT: Tem crescido a cada ano o número de registros de casos da sífilis e o Ministério da Saúde já fala em epidemia. Por que isso tem acontecido?
Julia Moherdaui: Existe uma conversa de que as pessoas estão usando menos camisinha e por causa disso a gente está transmitindo mais as infecções sexualmente transmissíveis, mas também existem algumas outras coisas que colaboram para o crescimento dos registros. Nós estamos conseguindo testar mais. Pode ser que antes não estávamos enxergando todas as pessoas que estavam com essa infecção. Porque antes a gente conseguia identificar, mas a gente não avisava o Ministério da Saúde, não notificava a doença. Existe também uma relação com o desabastecimento da penicilina que a gente teve há algum tempo. E também porque muitas vezes a gente não consegue oportunizar o tratamento no momento mais adequado para poder interromper aquela cadeia de transmissão. Quando a gente está falando de uma infecção não transmissível, estamos falando de uma rede de pessoas que estão contaminadas com aquilo. Então, se a gente consegue interromper, realizar um tratamento adequado e curar aquela doença, a sífilis é curável, a pessoa deixa de transmitir para os parceiros que ela vai ter relação depois.
CMT: Há algum grupo e faixa etária com mais casos?
Julia Moherdaui: O que o Ministério da Saúde mostra para a gente, em termos de faixa etária, é um aumento global inclusive nos adolescentes. A população geral cresce o número de casos, mas os adolescentes fazem uma curva mais ascendente. Acho importante ter uma atenção na saúde sexual dos adolescentes, conversar sobre saúde sexual. Acho que fica ai essa mensagem de que é importante a gente falar sobre saúde sexual e reprodutiva.
CMT: Há um grande aumento de casos de sífilis em gestante. Quais são as consequências disso?
Julia Moherdaui: Nós temos que ficar muito atentos nos casos de sífilis em gestantes. Por que, normalmente, a sífilis em um adulto é um machucadinho na região genial. Na sífilis secundária ela pode ter uma manifestação um pouco maior, mas ela vai embora sozinha. O problema é que quando a sífilis é congênita, uma sífilis do recém-nascido, os resultados podem ser muito graves. A gente pode ter problemas muito graves nessa criança que nasce com sífilis. Por causa disso a gente precisa ter muita atenção com a gestante para poder realizar um tratamento adequado.
CMT: Você fala que a sífilis em um recém-nascido pode gerar resultados muito graves. Quais seriam esses resultados?
Julia Moherdaui: Pode chegar a aborto, má formação, pode ter o que chamamos de neurossífilis, que impacta o sistema nervoso cerevral, então o cébero pode ter algum tipo de impacto. Isso tudo pode acontecer com o neném que pegou sífilis durante a gestação.
CMT: Você também falou em sífilis primária, secundária e terciária. Qual é a diferença entre elas?
Julia Moherdaui: A sífilis primária geralmente é uma lesãozinha que aparece, geralmente, na região genital, que é a região de contato. Mas pode ser que aconteça em outra parte do corpo, dependendo da forma que aquela pessoa teve relação sexual. Pode ser na boca, no ânus, na vagina, no pênis, por ser no colo do útero e a gente nunca enxergar, em qualquer lugar da pele, em outras partes do corpo. É geralmente uma bolinha, que tem um machucadinho, uma ulcerazinha. E aquilo, normalmente, quer dizer que não é sempre assim, não dói. Normalmente não sai pus e algumas pessoas nem ligam muito, pois vai embora sozinho, pronto. A sífilis secundária normalmente são manchas pelo corpo, inclusive na palma das mãos e na sola dos pés. Então a gente tem que ficar atento quando aparecem casos assim. É importante ter atenção quando tem algum tipo de lesão na pele que a gente não sabe o que é. Principalmente tendo em vista esse quadro epidemiológico. E a sífilis terciária normalmente, como a gente fala, é uma lesão com uma tumoração com uma liquefação no meio. Então ela fica como uma bolota com um líquido ali no meio. Isso por acontecer no corpo inteiro, mas geralmente as principais que a gente fica mais atento é a neurossífilis, no sistema nervoso central, e a sífilis no sistema cardiovascular.
CMT: Quais são as formas de identificar a infecção?
Julia Moherdaui: Através dos testes podem ser realizados os diagnósticos da infecção que não está se manifestando. O teste rápido é o que a gente mais tem tido acesso. Lembrando que pessoas que pessoas que já tiveram sífilis e já fizeram o tratamento adequado não adianta mais fazer o teste rápido porque ele fica como uma cicatriz. Ele vai ficar sempre positivo. Existe também o VDLR que é um tipo de teste que a gente faz no laboratório e ai ele vai dar números para a gente poder acompanhar o tratamento depois de feito o tratamento adequado. Existem vários tipos de exames para a sífilis e cada um tem um tipo de indicação específica. O mais legal é a gente tomar essa decisão junto com o nosso médico, e junto com ele pensar qual é o teste mais disponível, qual tem mais fácil acesso, qual é teste adequado para mim como paciente.
CMT: E como é o tratamento?
Julia Moherdaui: O tratamento ideal ainda é o bom e velho benzetacil, que a gente usa e funciona super bem. O tratamento perfeito a gente faz com benzetacil, que é a penicilina benzatina que a gente chama. O ideal é usar de acordo com cada fase e isso também quem só vai poder diagnosticar é o médico. Às vezes vai ser uma dose só, às vezes mais de uma dose, isso também vai depender do estágio da infecção.
CMT: A sífilis traz riscos de vida?
Julia Moherdaui: No caso da sífilis do recém-nascido, a sífilis congênita, há o risco de vida dele. No caso dos adultos, a evolução da sífilis também pode matar.
CMT: Há alguma coisa a mais que gostaria de acrescentar?
Julia Moherdaui: A mensagem que eu queria deixar é que a gente tem referências cientificas, a gente sabe tratar, a gente tem como acessar o site do Ministério da Saúde e esta disponível, qualquer pessoa pode abrir ali o protocolo clinico. E o que é importante é que a gente tenha facilidade de comunicação dos médicos com os pacientes. Que os pacientes possa conversar sobre sexo e sobre infecções sexualmente transmissíveis com seus médicos e que os médicos também não fiquem sem perguntar sobre isso. É através disso que a gente vai conseguir interromper as cadeias de produção.



