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Dólar fecha perto da estabilidade com pressão externa e alta do petróleo

Após trocar de sinais pela manhã, o dólar firmou sinal positivo contra o real e renovou máximas intradia na segunda metade do pregão. Por fim, encerrou próximo da estabilidade, tendo como pano de fundo o fortalecimento da divisa americana globalmente diante das críticas do presidente Donald Trump ao chair do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell, e após o índice de preços ao consumidor (CPI) dos Estados Unidos não trazer mudanças substanciais para as expectativas sobre os juros americanos em 2026. O petróleo no maior nível desde o fim de 2025 deu certo amparo para a moeda brasileira, exportadora da commodity.

O dólar à vista fechou em alta de 0,06%, a R$ 5,3759, oscilando dos R$ 5,3649 na mínima pela manhã até R$ 5,394 na máxima por volta das 13h20 nesta terça-feira, 13. Assim, reduz a queda em 2026 para -2,06%. No contrato futuro para fevereiro, caiu 0,08%, a R$ 5,397, com liquidez ainda reduzida.

A divisa americana ganhou força tanto entre pares fortes – vide DXY avançando 0,29% por volta das 18h – quanto entre a maioria dos emergentes e exportadores de commodities, com exceção de peso mexicano e peso colombiano. Na avaliação de Rafael Passos, sócio e analista da Ajax Asset, o principal fator para a performance é o embate entre os presidentes Trump (EUA) e Powell (Fed), enfatizando que nesta tarde o republicano voltou a criticar o chefe da autoridade monetária. “Nosso câmbio também acaba sendo contaminado por esse dólar mais forte lá fora”, acrescenta.

Em meio à abertura de investigação pelo Departamento de Justiça (DoJ, em inglês) contra Powell, Trump novamente afirmou que os EUA têm “um péssimo presidente do Fed”. Disse ainda que não sabe se o país terá corte de juros, mas enfatizou que “as taxas dele estão muito altas”.

Pela manhã, investidores digeriam o CPI exatamente em linha com a mediana da pesquisa Projeções Broadcast. O indicador subiu 0,3% em dezembro ante novembro, em base ajustada sazonalmente, e a taxa anual avançou 2,7%, segundo dados publicados pelo Departamento do Trabalho americano.

Já a alta superior a 2,5% dos contratos futuros de petróleo, com o WTI em maior nível desde outubro e o Brent desde setembro de 2025, contribuíram para reduzir as perdas do real no fim do pregão. O avanço da commodity reflete preocupações com as tensões internas do Irã e as novas tarifas de Trump ao país persa, além de desdobramentos geopolíticos na Venezuela e ataques entre Rússia e Ucrânia.

Bolsa

O Ibovespa se manteve na defensiva ao longo desta terça-feira, 13, em baixa desde a abertura, aos 163.146,26 pontos. Ao fim, marcava 161.973,05 pontos, com perda de 0,72% na sessão, em que na mínima buscou os 161.765,08 pontos. Na semana, em dois pregões, retrocede 0,86%, limitando o ganho do mês e do ano a 0,53%. O giro financeiro foi a R$ 24,9 bilhões.

Na sessão, o desempenho negativo do setor financeiro, o de maior peso no índice, neutralizou o efeito da forte alta de Petrobras (ON +3,41%, PN +2,57%) e, em menor grau, de Vale (ON +0,82%). Entre os bancos, as perdas ficaram entre 0,81% (Itaú PN, na mínima do dia no fechamento) e 3,06% (Banco do Brasil ON). Na ponta ganhadora do índice, além dos dois papéis de Petrobras, destaque também para Gerdau (+1,93%), Metalúrgica Gerdau (+1,83%) e CSN (+1,31%). No lado contrário, Hapvida (-8,39%), Yduqs (-4,75%), Vivara (-4,59%) e Magazine Luiza (-4,43%).

“Notícias de fora continuam a pesar sobre o Ibovespa”, diz Gabriel Mollo, analista da Daycoval Corretora, referindo-se ao relativo enfraquecimento da agenda doméstica neste começo de ano, para além dos desdobramentos em torno do caso Master. “Tensão geopolítica segue elevada, agora com o Irã”, acrescenta.

No exterior, destaque nesta terça-feira, em Londres e Nova York, para ganhos acima de 2% para o petróleo, em meio às tensões no Irã e à retórica crescente dos Estados Unidos sobre os protestos no país do Oriente Médio. O número de mortos subiu para pelo menos 2 mil, segundo ativistas, com iranianos conseguindo fazer ligações telefônicas para o exterior pela primeira vez em dias, após as autoridades terem cortado as comunicações.

O total de mortos, reportado pela Human Rights Activists News Agency, com sede nos Estados Unidos, supera em muito o de qualquer outra onda de protestos no Irã em décadas. E o presidente dos EUA, Donald Trump, tem indicado que se a repressão aos manifestantes continuar resultando em mortes, não descarta uma intervenção militar com Israel para derrubar o regime dos aiatolás, abrindo uma segunda frente de conflito, após a recente operação na Venezuela para a captura de Nicolás Maduro. Na noite de segunda, 12, sem elaborar detalhes, Trump prometeu tarifaço aos países que mantiverem o intercâmbio comercial com o Irã.

“Estratégia de Trump, nitidamente, é uma forma de usar a economia americana como arma de negociação, sejam países aliados tradicionais ou não, dentro da lógica de estar com ele ou contra ele”, diz Davi Lelis, sócio da Valor Investimentos, acrescentando que o novo passo do presidente dos EUA, no sentido de exercer pressão pela força, marca mais uma etapa no processo de “desglobalização” que resulta, no curto prazo, em volatilidade maior no preço do petróleo.

Em Nova York, além da tensão geopolítica, os investidores seguem atentos à retomada da pressão da Casa Branca sobre a autonomia do Banco Central americano, o Federal Reserve. Os principais índices de ações em NY fecharam o dia em baixa de 0,80% (Dow Jones), 0,19% (S&P 500) e 0,10% (Nasdaq), em sessão que tenderia a ser favorecida pela leitura sem surpresas da inflação ao consumidor, em linha com o esperado para dezembro.

“Neste ambiente de incerteza externa e também interna nos EUA, as bolsas de Nova York recuaram de forma generalizada, apesar do alívio na inflação americana, na leitura do CPI de dezembro. Por aqui, também se anulou o alívio proporcionado, na curva do DI, pela Pesquisa Mensal de Serviços referente a novembro – um ajuste de juros futuros que costuma favorecer a Bolsa”, diz Bruno Perri, estrategista, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos.

No front doméstico, Trump retomou também a carga sobre o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, alimentando as preocupações sobre a independência do BC americano, em especial após a saída de Powell ao fim de seu mandato em maio, e a definição, pendente, de quem virá a substituí-lo. Desde segunda, os investidores seguem atentos aos desdobramentos da investigação criminal movida por promotores do Departamento de Justiça contra Powell e a reforma de prédios do Fed.

Para Trump, a inflação americana, no momento atual, permite a Powell cortar as taxas de juros, mas, segundo a ferramenta do CME Group, as apostas do mercado de manutenção em janeiro são de 95%. “Powell é idiota, incompetente ou desonesto, mas certamente não faz um bom trabalho”, disse Trump a jornalistas.

“É importante ressaltar que o dólar é o ativo financeiro mais negociado do mundo, o que torna difícil mensurar e sustentar impactos direcionais claros no curtíssimo prazo”, diz Eduardo Amorim, especialista em investimentos da Manchester Investimentos. “Em condições normais, esse ruído abriria espaço para alguma apreciação de moedas emergentes, como o real, mas o efeito tende a ser limitado e instável, já que a maior incerteza externa costuma afetar, também, o fluxo de capitais”, acrescenta.

Nesta terça, a moeda americana mostrou recuperação moderada conforme o índice DXY, uma cesta composta por euro, iene e libra entre algumas outras moedas de referência. Por aqui, o dólar spot fechou o dia em alta de 0,06%, a R$ 5,3759.

Com efeitos também para Bolsa, pela importância do fluxo externo, Amorim observa que o cenário mais provável é de dólar volátil no curto prazo frente ao real, “com viés mais neutro à frente, condicionado à evolução dos dados macroeconômicos e do ambiente global”.

Juros

Embora não tenham mudado significativamente as apostas para os próximos passos da política monetária nos dois países, o resultado dos serviços no Brasil e, em seguida, o do índice de preços ao consumidor nos Estados Unidos – levemente abaixo do esperado em ambos os casos – consolidaram os juros futuros negociados na B3 em terreno negativo desde a abertura na sessão desta terça-feira, 13. Os vértices intermediários e longos fecharam praticamente de lado, mas operaram em baixa em boa parte da segunda etapa do pregão.

Publicada na abertura pelo IBGE, a Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) mostrou queda de 0,1% no volume prestado pelo setor entre outubro e novembro, feitos os ajustes sazonais, ante expectativa de aumento de 0,1% da mediana do Projeções Broadcast. Foi a primeira redução nessa comparação após nove meses seguidos de alta, o que, aliado a um maior número de setores em baixa, reforçou a visão de que o aguardado corte na Selic está próximo.

Já o CPI subiu 0,3% em dezembro em base ajustada sazonalmente, segundo o Departamento do Trabalho. Na comparação anual, o CPI avançou 2,7%. As duas métricas vieram em linha com a mediana do Projeções Broadcast, mas os núcleos ficaram cerca de 0,1 ponto abaixo do previsto, fornecendo alívio à curva dos Treasuries e se somando aos dados domésticos de atividade mais fracos por aqui.

No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 caiu de 13,736% no ajuste de segunda-feira, 12, para 13,695%. O DI para janeiro de 2029 oscilou de 13% no ajuste anterior a 12,99%. O DI para janeiro de 2031 marcou 13,3%, vindo de 13,288% no ajuste.

“Abrimos os mercados com uma PMS mais fraca, que aponta para uma atividade mais frágil, e na sequência os Treasuries reagiram ao CPI levemente mais acomodatício”, resume Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa Investimentos.

Segundo Sanchez, a avaliação de que a atividade está de fato perdendo ímpeto não veio do número cheio dos serviços, mas sim da abertura do levantamento, que trouxe retração em dois dos cinco segmentos pesquisados pelo IBGE: transportes (-1,4%) e serviços de informação (-0,7%). Já os serviços prestados às famílias ficaram no zero a zero, depois de queda de 0,5% em setembro e alta de 0,1% em outubro.

“Os serviços para famílias permaneceram estáveis mais uma vez, reforçando que o consumo das famílias tem se concentrado mais em bens ultimamente”, apontam os economistas Gabriel Couto e Rodolfo Pavan, do Santander, que seguem prevendo estabilidade para o PIB no quarto trimestre, à medida que os efeitos do aperto monetário estão se materializando sobre a demanda.

Para a Kínitro Capital, a pesquisa de serviços corrobora que a atividade está em desaceleração gradual e que o Comitê de Política Monetária (Copom) deve dar início ao ciclo de afrouxamento da Selic na reunião de março. Já Sanchez, da Ativa, espera redução somente em abril. “O BC vai aproveitar para construir credibilidade, em linha com uma estratégia ‘hawkish hold'”, disse.

Nos cálculos de Flávio Serrano, economista-chefe do banco BMG, a curva de juros futuros precificava, por volta das 16h40, 30% de chance de redução do juro básico em janeiro, de 25 pontos-base. A curva já aponta 5% de probabilidade de um corte maior em março, de 50 pontos-base, ante 95% de chance de alívio de 25 pontos-base.

Já lá fora, o CPI ampliou expectativas de que o Federal Reserve (Fed) pode diminuir os juros no mesmo mês, mas essa visão segue minoritária. Segundo o CME Group, a probabilidade de corte de 0,25 ponto porcentual em março está em cerca de 28%, ante 24% antes do dado. A hipótese de alívio em junho continua a mais provável.

Estadão Conteudo

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