Cidades

Crise na ciência pode levar à evasão de alunos em Mato Grosso

Mato Grosso teve 1.240 bolsas concedidas a pós-graduação no ano de 2017, segundo dados de GeoCapes – plataforma vinculada ao Ministério da Educação (MEC). E este número pode ficar ainda menor nos próximos anos se o Governo Federal não continuar com os cortes em bolsas e financiamento de projetos.

Como o Circuito Mato Grosso mostrou na edição dessa semana, os cortes em pesquisa e inovação podem inviabilizar muitos projetos e pesquisas em universidades mato-grossenses. Desde 2015, pesquisadores sentem diminuição nos recursos para pesquisas e bolsas. No país, várias universidades tem se insurgido contra essas restrições.

Distribuição de bolsas para estudantes de pós-graduação, em Mato Grosso, no ano de 2017.
Fonte: Capes

As tesouradas nesses recursos são parte do ajuste fiscal e do limite imposto pelo Governo Federal como parte da recuperação da economia. Vale destacar que esses recursos não são os mesmos para pagamento de salários e de funcionamento do campus. É um recurso a parte e que vêm de agências específicas do Governo Federal para financiamento de pesquisa.

A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) é a principal agência de concessão de bolsas no país. Em 2018, a agência poderá investir até R$ 3,88 bilhões em bolsas para estudantes de pós-graduação e programas de formação de professores destinados aos universitários na graduação. Já em 2019 o seu orçamento será aproximadamente meio bilhão menor – é previsto R$ 3,3 bilhões.

Com esse orçamento, a Capes anunciou que, se não tiver os quase meio bilhão de investimentos de volta, poderá deixar de pagar bolsas de quase 200 mil estudantes a partir de agosto do ano que vem. A denúncia foi feita em uma carta do presidente do órgão, Abília Baeta Neves, ao MEC e repercutiu negativamente entre os pesquisadores no início de agosto. O valor ainda não é definitivo e precisa ser aprovado pelo Congresso até o final do ano – o que dá alguma esperança para os pesquisadores de que mudanças aconteçam.

Mesmo com os cortes, os professores e pesquisadores ouvidos pelo Circuito comentam que a procura pela pós-graduação ainda não foi afetada e que a evasão desses alunos ainda é pequena.

A Dr. Lucia Mateus destaca que de um modo geral os estudantes de mestrado e doutorado, que não recebem bolsa, trabalham para se manter e tocam de qualquer forma. Ela é coordenadora do programa de pós-graduação em Ecologia e Conservação da Biodiversidade da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). "O problema da bolsa não é nem da quantidade, mas do valor. Por que a bolsa não é atualizada há muito tempo", disse.

O mesmo avalia o Dr. Dr. Vitale Joanoni Neto, que é coordenador do programa de pós-graduação de história da UFMT. "Quem procura a pós é o aluno já formado. Então temos uma demanda boa", conta. Mas, conforme relatado no jornal, o número de bolsas vem caindo.

Para os pesquisadores, a evasão maior se dá nos estudantes de graduação. Eles são mais vulneráveis financeira e socialmente. E as bolsas são a única forma de apaziguar esse dilema (saiba mais abaixo).

Mas por que dar as bolsas?

É uma forma de manter a qualificação e a permanência dos estudantes. Dois coelhos numa cajadada só, como diz o ditado popular. Normalmente, os alunos desenvolvem trabalhos e pesquisas com o professor e pesquisador, como se fosse um estágio no mercado profissional.

Dependendo do nível de formação em que o estudante se encontra, ele recebe um valor para ficar junto ao professor. Um aluno da graduação, por exemplo, recebe R$ 400. A maioria é dada pela Capes, que é vinculada ao Ministério da Educação (MEC).

Segundo a Capes, Mato Grosso teve uma população de 2.561 estudantes de pós-graduação no ano de 2017. 1.575 estavam no mestrado acadêmico, 697 no doutorado e 289 no mestrado profissional.

Evolução orçamentária de bolsas investidas a estudantes de pós-graduação em Mato Grosso.
Fonte: Capes

Nenhum órgão de iniciativa privada faz esse investimento em qualquer tipo de faculdade – seja pública ou privada. Por isso, é o Estado faz a maioria desses recursos. Mas por quê especificamente eles recebem as bolsas?

Vale ressaltar que muitos jovens estudantes não possuem segurança financeira ou nunca tiveram um emprego. É só lembrar que o desemprego entre eles é o maior do país.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a quantidade de trabalhadores entre 18 e 24 anos é de 26,6%. Muito mais que o dobro da população em geral que é 12,4% A falta de experiência e a baixa oferta de postos de trabalho a esse público são os principais fatores para o número expressivo.

Os pesquisadores ouvidos pelo Circuito Mato Grosso relataram a dificuldade de permanência dos alunos na graduação – com ou sem crise. Eles apontam que os estudantes não são preparados para uma educação científica. Por isso, muitas acabam se evadindo dos cursos pela dificuldade.

Além disso, eles disseram que é comum começar com uma turma de quarenta alunos e, já no primeiro ano, ter somente dez. Com o corte das bolsas, eles dizem, a situação se agrava. O parco dinheiro, como visto acima, poderiam dar um pouco mais de segurança financeira para o estudante se qualificar e permanecer na universidade.

Em suas aulas na graduação de biologia na UFMT, a Dra. Lucia Mateus percebe muito desinteresse dos alunos. "Muito e nem é por conta da crise [que a ciência enfrenta]. O interesse deles pelo curso diminuiu", disse.

Para ela, o caso está relacionado ao histórico escolar pregresso desse estudante. "É um problema mais complexo do que só investimento. É um problema que está associado a qualidade da escola do ensino público", comenta.

O pesquisador Dr. Vitale tem a mesma percepção. Ele disse que isso vem ocorrendo em muitas áreas das ciências humanas, como sociologia, filosofia ou a própria história. "O interesse por estes cursos vem diminuindo. Isso é sensível", disse.

Para ele, o ponto chave dessa baixa procura é que os estudantes não buscam mais ser professores nos dias de hoje. Eles não vêm esse tipo de profissão como atrativa. Muitos do que passaram pelo ensino público, inclusive, viram seus professores constantemente serem desvalorizados e, por isso, passam longe de uma possível carreira de magistério.

"Ser professor hoje significa se sujeitar a rotina de salário e trabalho que, em muitos lugares, é muito ingrata. Ela é mal remunerada, com infraestrutura muito ruim, sem apoio dos entes responsáveis – seja do municipal, estadual ou federal. Então, a procura por cursos que formam este para docência maritalmente vem diminuindo há algum tempo em função destes problemas.", complementa.

Estas questões não são expressivas na evasão dos alunos nas universidades. Para vitale, o problema vem antes mesmo de entrar na faculdade. A fuga de cursos de licenciatura ou docência se dá já no próprio ENEM. Muitos preferem não escolher estas graduações pelos percalços que o mercado enfrenta e querem evitar uma possível desvalorização.

Um ponto comum da fala entre Vitale e Lucia é o impacto que o ENEM trouxe para os cursos. Para Lucia, a qualidade dos alunos diminuiu por conta do ensino básico e médio precário pelo qual passaram. Já para Vitale, o impacto se deu porque o Governo prometeu muito e acabou não cumprindo.

Para o historiador, o aluno, que mora em outro estado e vem a Mato Grosso para estudar, por exemplo, deveria ter um apoio para permanecer aqui. Este apoio deveria vir de bolsa alimentação ou auxilio moradia. Os alunos de licenciaturas, principalmente, costumam ser mais pobres, conta o professor.

"Sem esse apoio, ele não consegue se manter aqui. E isso foi cumprido, em um dado momento, parcialmente. E agora muito mal. Menos ainda. Com o corte de verbas, isso fica mais grave. Isso dificulta muito.", comenta.

Para a prof. Vivian, a evasão também é o maior problema da Unemat. "E essa evasão está ligada a situação socioeconômica dos nossos alunos. Por quê? Por que os nossos alunos não tem condições de só ficar estudando. Eles têm que trabalhar e estudar ao mesmo tempo", disse.

Ela disse que a Unemat possui alguns auxílios financeiros aos estudantes de baixa renda. Mas a quantidade de bolsas é insuficiente para atender a todos os alunos. "Não adianta muito. Não surte o efeito do que é esperado. Por que tem muita gente sem condições", comenta.

Como a maioria das faculdades estão no interior, estes estudantes se barram em outra dificuldade para trabalhar e estudar – achar emprego. As cidades são pequenas e a oferta de trabalho é escassa. Por isso, muitos desistem da faculdade.

"Ele vai embora! Por que não tem condições de ficar. Então são esses desafios que eu acho que a universidade tem de enfrentar", destaca. Os que insistem se viram como podem e reprovando em uma ou mais matérias, diz Vivian.

Na perspectiva do aprendizado, a professora acredita que a situação socioeconômica, como ter tido um ensino básico e médio inferior, não é um fator determinante para a evasão. Vivian diz que muitos alunos superam essas barreiras. Ela acredita que esta disfunção se dá no primeiro ano na faculdade.

"O primeiro ano é fase adaptação para tudo. O primeiro ano é mais difícil. Você mudou de lugar. Você tem que trabalhar, você tem que estudar. Como mudou muito a vida deles, a gente percebe que o índice de aprendizagem não são lá essas coisas. Mas eles depois caminham", opina.

Para ela, o principal problema é a permanência. A falta de incentivos e investimentos para dar aos alunos a oportunidade de ficar na faculdade durante o período do curso. Como muitos cursos da Unemat são de licenciatura, ela vê o corte de bolsas de iniciação a docência uma possibilidade para a fuga de alunos da instituição.

O MEC garantiu que o pagamento das bolsas da Capes não serão suspensas do ano que vem. Em nota, a pasta disse que o projeto de lei orçamentária deste ano é de R$ 23,6 bilhões e para 2019 é de R$ 20,8 bilhões. O corte se deve as restrições fiscais e que o limite foi repassado proporcionalmente para a Capes.

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Reportagens realizada pelos colaboradores, em conjunto, ou com assessorias de imprensa.

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