De um produto corriqueiro e de relevante função na época das navegações, encontrado e comercializado em feiras livres, até passar a ser proibido por lei e ter seu uso considerado crime.
Cercada de controvérsias, a trajetória da maconha (Cannabis) ao longo da história brasileira ainda é carregada de estigmas.
A dificuldade de debater o tema no país, mesmo com a regulamentação dos produtos à base de canabidiol (um dos derivados da maconha), e a legalização bem-sucedida em outros países, é, para o historiador Jean Marcel Carvalho França, reflexo do movimento higienista do século XIX. “Médicos e educadores contra a Cannabis diziam que era um vício terrível, que deteriorava as forças de trabalho e que ia se espalhar para a sociedade e acabar com o futuro da civilização”, afirma o autor do livro “História da Maconha no Brasil”, lançado recentemente.
Essa luta contra a expansão da erva foi vitoriosa até os anos 60, quando o consumo retornou por meio das classes mais ricas, que influenciavam a contracultura da época. Mas, antes disso, França diz que a maconha tinha um papel aceitável na sociedade. “A Cannabis sempre teve importância na história das sociedades ocidentais. Velas e cordas dos navios eram feitas à base de cânhamo”, diz o autor.
Hábito. Já nos anos 2000, o tom da discussão começou a mudar. O uso farmacêutico da droga passou a ser considerado, e a regulamentação entrou no debate mundial. Apesar disso, o historiador não acredita na legalização como tendência, mas em se “criarem formas de regulação que transformem a maconha em um hábito pessoal e privado, como tomar um uísque no fim da noite”.
Para o engenheiro e analista de sistemas Alexandre C., 35, consumir a erva após um dia de trabalho e de forma equilibrada é desestressante. “Quantas doenças o estresse não causa?”, rebate, enumerando outros efeitos positivos na sua vida. “Comecei a beber álcool aos 14 anos e com o uso da maconha passei a beber menos. Fumo um ou dois cigarros (de maconha) por dia, e meu pulmão está muito bem. Também já fui diagnosticado com um tipo de depressão, e boa parte da minha melhora deve-se à Cannabis. Se fosse pelo psiquiatra, eu já estaria tomando antidepressivos há vários anos”, explica.
Alexandre também cita as inúmeras possibilidades para o uso industrial. “Quase ninguém fala, mas podemos fazer casas e até carros com um compensado de cânhamo que não é psicoativo, tem a fibra mais leve e não enferruja, além de ser biocombustível”, diz.
Para o historiador Jean França, falta ao brasileiro “aprender a discutir os direitos individuais”. “O preconceito se cristalizou na cultura brasileira. O brasileiro não gosta de discutir, é conservador, tem ideias prontas e as repete. Mas, inevitavelmente, a crescente aceitação da Cannabis vai acontecer, gostando ou não”, afirma.
Fonte: O Tempo



