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Confira os principais pontos do depoimento do cabo-PM Gerson Correa

Em quatro horas de depoimento, o réu cabo Gerson Corrêa falou e esclareceu sobre pontos de sua confissão no caso das interceptações telefônicas ilegais, que ficaram conhecidas pelo nome 'Grampolândia Pantaneira'.

Em seu depoimento anterior, ele apontou que o governador Pedro Taques e seu primo Paulo Taques (que chegou a ocupar uma pasta no mandato do tucano) eram os “verdadeiros donos" da arapongagem.

As escutas ilegais de grampos ouviram políticos, empresários e jornalistas. O esquema foi revelado pelo programa Fantástico, da Rede Globo. O processo está relacionado à Operação Esdras na Vara Militar.

Gerson foi intimado a falar após a própria defesa pedir um novo interrogatório. A audiência anterior teria durado mais de 15 horas e o cabo, fadigado, teria deixa algumas pontas soltas. O cabo disse que muitos pontos da sua fala ficaram obscuros. 

"Em primeiro momento, o interrogatório teve mais de quinze horas É evidente que muitos pontos ficaram para trás. Além disso, há alguns pontos controversos que tenho que reconhecer que também ficaram para trás", disse.

Confira abaixo nove pontos principais do testemunho de Gerson na tarde desta segunda (27):

1) "NÃO É NOVO"

O primeiro ponto que Gerson esclareceu é que o projeto técnico de interceptações telefônicas, usado no caso da grampolândica, não é novo para a polícia militar.

"O projeto de implantação de interceptação telefônica no âmbito da polícia militar não é novo", disse

Em fevereiro de 2012, o Coronel Zaqueu lhe encomendou um projeto para a implantação desse novo sistema de arapongagem. Ele então escreveu um documento com pouco mais de 30 páginas detalhando os aspectos técnicos e jurídicos do programa. O sistema foi utilziado no caso de 2014. 

“Não teria o motivo de fazer um projeto de plataforma com as mesmas características que foi levado a cabo pelo coronel Zaqueu em 2014. Então, eu estou afirmando que essa intenção de implementar essa plataforma, no bojo da polícia militar, não é de 2014. No mínimo é de 2012”, disse.

2) A FAMÍLIA BARBOSA GRAMPEADA

Em seguida, Gerson afirmou que houve irregularidade nas investigações da Operação Ouro de Tolo e que culminou na prisão de Roseli Barbosa, que é esposa do ex-governador Silval Barbosa.

Gerson relatou que a família de Silval Barbosa – ele, a esposa e os filhos – foram grampeados. O cabo disse que isso só foi possível por uma brecha no pedido de interceptação feito a Justiça. 

Segundo o réu, a Gaeco já sabia onde Roseli e Silval estavam antes mesmo de solicitar as interceptações telefônicas perante a Justiça.

Roseli estava em São Paulo, e Silval em Cuiabá. A Gaeco sabia da localização do casal, pois conseguiu acesso ao histórico de chamadas realizadas entre os dois. Eles teriam utilizado outras decisões/ordens judiciais para conseguir acesso a dados telefônicos dos acusados.

"Antes mesmo de iniciar as interceptações, nós já tinham identificados, pelo extrato telefônico, onde se encontrava Roseli Barbosa", disse.

O cabo pontuou que a operação só teve sucesso por que "se deu essa atividade ilícita".

Roseli foi presa e transferida de São Paulo para Mato Grosso. Ela passou uma semana em cárcere até ser solta pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). A ex-primeira-dama foi acusada por suposto prejuízos aos cofres públicos de R$ 8 milhões.

3) GRAMPOS EM OPERAÇÕES DO GAECO

Segundo Gerson, esse era só mais um exemplo do que ocorria rotineiramente no Gaeco. Para acessar as escutas de quem se queria ouvir, o cabo explica que eram usadas ordens judiciais de outros casos para os terminais telefônicos disponibilizarem os dados.

As irregularidades ocorreram em outras quase todas as operações criminais envolvendo esquemas de corrupção, como a Metástase e a Seven. O réu explica ainda que esta é uma prática corriqueira da Gaeco desde que entrou em 2004 – e que pode está em vigor nas investigações de hoje. Ele afirma que os promotores do Ministério Público tem ciência dos fatos.

Ele imagina ainda que isto não é uma prática exclusiva do Gaeco. Os demais núcleos de inteligência devem utilizar o mesmo procedimento. Contudo, ele não foi capaz de provar tais alegações.

Questionado sobre quem ordenava ou ensinava tal procedimento, ele disse que ninguém o fez e que foi aprendendo no decorrer dos dez anos de investigações que ficou a frente da Gaeco e da PM.

4) AS PROMESSAS DE PAULO TAQUES

Paulo Taques pediu que o processo dos grampos não atingisse o atual governador Pedro Taques. O cabo revelou que recebeu uma proposta de dinheiro e de serviços jurídicos para blindar o tucano, que tenta uma reeleição ao cargo. Segundo o réu, o ex-secretário não chegou a mencionar valores.

Paulo chegou a oferecer duas vezes a proposta a Gerson. A oferta teria ocorrido quando Gerson e ele estavam presos no Centro de Custódia da Capital (CCC). Questionado pelo juiz Murilo, ele deu detalhes sobre os dois pedidos.

No primeiro, Paulo teria sido direto e perguntou se Gerson estava precisando de ajuda. "Eu disse que não", respondeu. O réu disse que a conversa foi pessoalmente.

Já no segundo pedido, Paulo chegou a oferecer um advogado do seu escritório. Gerson narrou que o coronel Airton Siqueira iria procurar sua esposa. Contudo, o oficial nunca chegou a procurar a cônjuge do cabo.

5) O USO DE SELMA ARRUDA

Gerson ainda relatou uma suposta participação da juíza aposentada Selma Arruda, que concorre a uma vaga no senado nas eleições deste pelo PSD. Ela teria sido usada pelo promotor Marco Aurélio para escutas ilegais contra Silval Barbosa.

Em 2015, a magistrada denunciou um suposto atentado contra sua vida. Ela narrou que algum familiar de Antonio Carlos Milas tinha recebido José Riva e outras pessoas. Eles comentavam que Selma era a cabeça do Gaeco e chegado até a sugerir o nome de uma operação por causa de sua filha.

Eles teriam comentado também que sabiam onde a neta de Selma estudava. Por isso, o promotor Marcos Aurélio pediu para abrir um procedimento no Gaeco. Contudo, ele solicitou que o caso fosse aberto a partir de uma denúncia anônima, e não da própria juíza.

Além disso, o promotor pediu também que fosse Filadelfo dos Reis Dias, Silval Barbosa e seu irmão Antônio Barbosa, que não tinham nada a ver com as ameaças, fossem incluídas. "Filadelfo seria o novo Arcanjo de Mato Grosso", teria dito o promotor.

7) JUÍZES ENGANADOS E ENVOLVIDOS EM ESQUEMA

Com o objetivo de aumentar o rol de magistrados que aprovavam as escutas, Gerson relata que foi chamado pelo coronel Airton Sirqueira para ir à Rondonópolis e conversar com o juiz Waldymir Perri.

Eles iriam discutir uma investigação contra policiais corruptos da cidade. Contudo, o objetivo mesmo era incluir novos nomes que poderiam ser interceptados. Segundo Gerson, o juiz não sabia do esquema de barriga de aluguel.

Gerson pontua que Perri só se livrou de cair como vítima no esquema, pois ele próprio não chegou a elaborar nenhum relatório para descrever a organização criminosa. 

O cabo disse que não teve tempo de elaborar tal relatório por que não teve tempo. Assim, o caso acabou passando. "Senão, seria mais um juiz vítima nisso aí", destacou.

"Se fizesse, novos números seriam inseridos em relatórios, que seriam deferidos por esse juiz”, disse. Perri atua na 1º Vara Criminal de Rondonópolis.

7) EMPRÉSTIMO DE LESCO

Questionado se Gerson reafirma tudo que disse em seu último interrogatório, o cabo disse que sim. Contudo, ele disse que tinha "uma situação que tenho que esclarecer em relação" a um suposto empréstimo do Coronel Lesco.

Gerson relatou que recebeu R$ 50 mil de Paulo Taques para comprar os equipamentos da interceptação. Em seguida, ele pegou R$ 24 mil de Lesco e fez ainda mais dois empréstimos de R$ 2,4 mil para aluguel do imóvel.

Em seus depoimentos iniciais, Gerson teria dito que os R$ 24 mil que tinha recebido de Lesco não era um empréstimo. "Na verdade foi empréstimo", disse.

Na época, ele não ia pagar os R$ 24 mil emprestados por que para financiar o projeto – e não de fato de um empréstimo. Contudo, Gerson disse que o dinheiro era sua parte no investimento do sistema. "Eu tinha de esclarecer isso", pontuou.

Apesar do empréstimo, Gerson afirmou que não pode pagar o superior neste momento. "Eu não tenho condições de pagar. Quem sabe um dia, Deus me dá a oportunidade de pagar", disse.

8) A ORIGEM DA ESDRAS

Gerson também revelou que os documentos que embasaram as investigações, a denúncia e o processo que contra si e demais réus vieram do seu computador na Gaeco.

Contudo, ele não sabe como os arquivos foram copiados de sua máquina. Tampouco, como o caso chegou ao promotor Mauro Zaque.

9) VAZAMENTOS SELETIVOS DE ÁUDIOS

Gerson também afirmou que os áudios interceptados em conversas eram vazados pelo próprio Gaeco.

A fala é uma resposta a uma pergunta de seus advogados. Ele reconheceu que a pergunta é "polêmica". "Por que, nós da polícia militar, por várias e várias vezes discutiam com os promotores de justiça sobre vazamentos de áudios sigilosos logo após a deflagração da operação", disse.

O réu disse que os áudios interceptados e que possuam alguma relação com a investigação do caso em que estavam apurando era repassado direto para o coordenador do Gaeco, que é o promotor Marco Aurélio. "Todas. Sem exceção", enfatizou.

O cabo disse ainda que policiais – e até mesmo coronéis que é corréu pelo mesmo caso – já chegaram a discutir com promotores por causa desses vazamentos.

Ele exemplifica um caso relacionado à Operação Ouro de Tolo. Segundo Gerson, o áudio foi vazado um dia após a então juíza Selma Arruda ter recebido o caso em sua vara. O caso se refere a uma suposta conversa com o ex-governador Silval com o desembargador Marcos Machado e que foi divulgado pelo TVCA.

O objetivo dos vazamentos dos áudios, segundo Gerson, era "causar espanto" ou "queimar a imagem pública de alguma pessoa".

Redação

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