Com mais de 2,5 milhões de participantes no Brasil, a comunidade virtual ‘Mulheres contra Bolsonaro’ surgiu no Facebook e em poucos dias ganhou manchete internacional. O ato que conta com os slogans ‘ele não’ ou ‘ele nunca’ se fortaleceu tanto nas redes sociais que promete tomar ruas e avenidas das principais cidades no dia 29 de setembro contra a candidatura do presidenciável Jair Bolsonaro (PSL-RJ).
O protesto reunirá mulheres de diferentes idades, classes sociais e níveis de escolaridade em prol de uma mesma ideia: respeito. Em Cuiabá, o ato está sendo organizado nas redes sociais por quatro mulheres do ‘Coletivo mato-grossense unidas’ (Suellen, Josiane, Tafnys e Valéria) e já soma mais 900 pessoas interessadas em participar. O encontro ocorrerá no sábado (29), às 16h, no monumento Ulisses Guimarães, em frente ao Pantanal Shopping.

“Esse ato está acima de qualquer ideologia partidária com o único objetivo de mostrar que as mulheres de Cuiabá não apoiam fascistas. Estamos fazendo tudo dentro da lei para garantir a segurança de todos os participantes, a proposta é que seja pacífico. Não vamos aceitar extremistas querendo levantar bandeiras usando esse grupo”, explica a estudante universitária Valéria Badocco, de 33 anos.
As orientações para participar incluem a utilização de camiseta lilás com #eleNAO ou camiseta branca, mas sem ideologia política ou partidária. O movimento conta com o apoio e as sugestões das mulheres que estão no grupo do Whatsapp (no momento são mais de 240 mulheres). Os homens que compartilham dos mesmos ideias também podem se juntar ao evento que estará em sintonia com o ato nacional.
Mônica Aragona, de 44 anos, é professora na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), mãe do Rafael, de 8 anos, e vai participar do ato que considera histórico e retrata a mudança de uma lógica machista altamente arraigada de ver a outra mulher como ‘vagabunda’, para enxergá-la como guerreira e com isso buscar união. Mesmo que o candidato não venha a ganhar, ela avalia o momento político como delicado e sombrio, com risco do retorno da ditadura militar.
“A união das mulheres é o reflexo de anos de empoderamento feminino, que somada às outras minorias, LGBT+, movimento negro, quilombola e indígena, já não será mais minoria e sim maioria contra o levante da extrema direita que quer acabar com os direitos socias trazidos pela Constituição de 1988. O ‘coiso’ é a personificação de toda a intolerância e autoritarismo que estão no bojo de um golpe orquestrado ainda no governo da esquerda”.
Mesmo sob o risco de retaliações, a advogada Miriele Garcia Ribeiro, de 35 anos, moradora de São José dos Quatro Marcos, região de Cáceres (200 km a noroeste da capital), onde há um grande número de eleitores apaixonados do Bolsonaro, se posicionou nas redes sociais convocando todas mulheres a participar do movimento nacional.
“Venho acompanhando o candidato há muito tempo e percebo que ele não está preparado minimamente para representar o Brasil, porque tem um discurso simplista, que excluí pessoas, subjuga mulheres, desvalorizas as populações mais pobres, como se não merecessem ser brasileiros. Ao invés de integrar o país e discutir de forma séria a solução de conflitos, ele desagrega e gera violência”.
Miriele acrescenta que as análises mostram que o candidato começou a crescer nas pesquisas ao dar voz a um grupo seleto composto em sua maioria por homens brancos e relativamente bem posicionados socialmente. Pessoas que são contra as políticas sociais, trabalhistas e inclusivas, como cotas em universidades e concursos, programa bolsa família e até a Lei Maria da Penha. “Mais de 50% da população brasileira é mulher, então, nós não servimos?”.
Filho de uma mulher que criou sozinha os dois filhos, foi presa e torturada na ditadura militar, Julio Resende, de 36 anos, professor de turismo no Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT) e doutorando da Universidade da Coruna (Espanha), representa o aposto do que pregou o discurso do general Hamilton Mourão, vice do Bolsonaro, que nesta semana apontou as famílias chefiadas por mulheres como ‘fábrica de elementos desajustados’.
“Elas são incrivelmente fortes, sensacionalmente competentes e maravilhosamente sensíveis. Por isso estou com elas contra o Candidato Raivoso. Sabe por que o nome das mães vem primeiro na carteira de identidade? São elas o arrimo de boa parte das famílias brasileiras, estendo a minha admiração à minha mãe Eloisa Resende e esposa Jocimary Brandão a todas”.
Participe do ato, sábado (29)
O ato das mulheres brasileiras contra o candidato do PSL ocorrerá simultaneamente em 43 pontos do Brasil e exterior, sendo oito em São Paulo, três no Rio de Janeiro, seis em Minas Gerais, seis em estados do nordeste, quatro em estados do norte, um no Distrito Federal, sete em estados da região sul, dois em Mato Grosso (Cuiabá e Cáceres) e um no Mato Grosso do Sul e ainda cinco no exterior, sendo um na Alemanha, um em Portugal, um em Londres e dois na Austrália.
Adesão crescente
No último fim de semana, o grupo nacional de mulheres chegou a ser hackeado por eleitores do deputado, que tentaram tirar a página do ar, mas a ação surgiu efeito reverso causando comoção de pessoas no país inteiro, homens e mulheres. Em menos de 48 horas, houve mais de 200 mil menções a hashtags #EleNão e #EleNunca nas redes sociais que são contrárias ao candidato do PSL.
Muitas famosas aderiram à campanha que se espalhou pelo Instagram e Twitter. A atriz Bruna Marquezine, por exemplo, argumentou no Instagram usando a hashtag que ‘dizer que preferia um filho morto a um filho homossexual não é família’, ‘considerar gravidez um motivo para mulheres ganharem menos ou que filha mulher é ‘menor’ que filho homem não é família’.
Já Débora Secco foi além em seu Twitter, argumentando que #EleNao tem a ver apenas com política, tem a ver com moral. “Com a dignidade de ser e pensar que eu espero que a minha filha tenha, e os filhos de todos vocês também tenham”. Camila Pitanga, Claudia Raia, Patrícia Pillar, Fernanda Lima são outras famosas que aderiram.



