Essa foi a primeira vez que um filme mato-grossense disputou a principal
premiação do festival, considerado o mais importante do país.
O triunfo do filme “Cinco Tipos de Medo”, do diretor cuiabano Bruno Bini, no
prestigiado Festival de Cinema de Gramado, é mais do que uma vitória pessoal
ou técnica: é um grito de afirmação da cultura cuiabana e mato-grossense no
cenário nacional.
Ao conquistar quatro Kikitos — melhor longa-metragem, melhor roteiro, melhor
montagem e melhor ator coadjuvante, com a estreia surpreendente do músico
Xamã — a obra não apenas levou aplausos e troféus, mas ergueu a bandeira
de uma produção artística que nasce no coração do Brasil e chega, com força
e autenticidade, aos grandes palcos.
Cada prêmio recebido carrega o peso simbólico da superação de fronteiras
geográficas e de preconceitos invisíveis que, por tanto tempo, limitaram o olhar
para além dos eixos tradicionais da indústria audiovisual.
Essa conquista é também fruto de um caminho coletivo. O próprio diretor
reconheceu que o longa só se tornou possível graças ao apoio de mecanismos
de fomento, aqueles instrumentos tão indispensáveis para que a arte respire e
floresça em meio às dificuldades.
E é preciso sublinhar: sem investimento público, sem editais, sem políticas de
incentivo, histórias como esta permaneceriam guardadas em gavetas ou em
sonhos distantes. O cinema, como toda manifestação cultural, não pode viver
apenas do esforço individual e da paixão de seus realizadores; precisa da mão
firme do Estado, da sensibilidade das instituições e do compromisso de uma
sociedade que entende que cultura não é luxo, mas necessidade vital.
Quando um filme cuiabano vence em Gramado, o que se celebra não é apenas
a vitória de um roteiro ou de uma montagem, mas a prova de que Mato Grosso
é capaz de produzir narrativas que emocionam, que questionam, que inspiram.
É a confirmação de que nossas histórias, nossas vozes e nossas paisagens
também merecem estar na tela grande, iluminando plateias e despertando
reflexões.
Os Kikitos conquistados por “Cinco Tipos de Medo” são, ao mesmo tempo,
coroação e convite: coroação de um trabalho feito com talento e coragem, e
convite para que continuemos a investir em nossos artistas, para que novas
obras surjam e revelem ao Brasil a riqueza cultural que pulsa em nosso Estado.
O cinema mato-grossense já mostrou que tem força. Agora, cabe a todos nós
— gestores, sociedade civil e amantes da arte — garantir que essa chama não
se apague, mas se multiplique, iluminando gerações e fazendo da cultura o
caminho seguro para a construção de um futuro mais humano, justo e criativo.
Viva o cinema e a cultura Mato-Grossense.
Olinda Altomare é magistrada em Cuiabá e cinéfila inveterada, tema que compartilha com os leitores do Circuito Mato Grosso, como colaboradora especial.