Cidades

Católicos e evangélicos preparam passeata contra homossexual

Padre André Luis, de São Gonçalo, defende a família heterossexual e acha que uniões do mesmo sexo prejudicam crianças. Ele organiza passeata com 30 igrejas evangélicas

Uma marcha na contramão do Vaticano. No mesmo ano em que um Papa, pela primeira vez, flexibiliza o discurso e pede igualdade no tratamento  dado aos homossexuais, o vicariato de São Gonçalo realizará, amanhã, a Caminhada pela Família. O evento também contará com a participação de representantes de 30 igrejas evangélicas.

Um dos líderes do movimento, o padre André Luis Siqueira, pároco da Igreja de São Gonçalo do Amarante, admite que militará contra a “identidade de gênero nas escolas do município e as propostas diferentes de família”. Oito vereadores do município apoiam o manifesto.

Idealizador do evento, o padre conta que a ideia surgiu quando a Câmara de Vereadores do município iniciou um debate sobre ideologia de gênero, no mês de junho, em sessão extraordinária. A votação poderia garantir aos estudantes a escolha do gênero em que seriam tratados. Sob protesto de várias correntes religiosas, o plano foi rejeitado por unanimidade dos vereadores: o placar marcou 24 a 0.

“Nós, cristãos (imensa maioria em São Gonçalo), consideramos a proposta gravemente danosa à educação de nossas crianças”, diz por e-mail o padre, que encontra-se em retiro espiritual. Ele diz que o evento teve a adesão de outras 30 igrejas evangélicas, convidadas pelo pastor Samuel Brito, líder da Igreja Fé para Todos. O grupo não descarta qualquer corrente religiosa. “Aceitamos as adesões de pessoas de quaisquer religiões que também acreditem nos mesmos princípios”, completa.

A ideia revoltou ativistas de direitos LGBT. “Eles vão fazer uma marcha pra privar as pessoas de direitos. Eles acham que estão fazendo uma marcha pra defender a família mas, na verdade, é o contrário, é uma marcha para restringir direitos em uma sociedade machista patriarcal”, afirmou Indianara Alves Siqueira, presidente do coletivo Transrevolução, que atua em favor dos direitos de travestis e transexuais. "Essa marcha é desumana", definiu. 

Apesar de rejeitar a acusação de homofobia e intolerância, os mais de 100 mil cartazes e panfletos entregues na Matriz de São Gonçalo, além de busdoors e outdoors, convocam o público com uma imagem de família bastante ortodoxa: pai e mãe olham candidamente para um bebezinho. Em outro panfleto, crianças aparecem separadas por sexo, sob a frase: “Sou católico e digo: NÃO para a ideologia de gênero”.

Um dos oito parlamentares confirmados no evento é o petista Marlos Costa, membro da Comissão de Educação e Cultura de São Gonçalo. Ele diz que rechaça qualquer preconceito mas não nega a presença na marcha. “A família é a base da vida social. A importância do núcleo familiar é menosprezado por muitos segmentos da sociedade atual”, diz.

O vereador garante que o evento marca o início da Semana Nacional da Família, evento criado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que será aberta no domingo, dia 9. Por telefone, a CNBB não confirmou o reconhecimento da caminhada.

Papa Francisco faz História

No dia 18 de fevereiro, em momento considerado épico por lideranças católicas e dos direitos dos homossexuais, o Papa Francisco recebeu gays nos assentos especiais da audiência geral semanal com Sumo Pontífice.

Em 2013, logo após a Jornada Mundial da Juventude, no voo que ia do Rio de Janeiro para Roma, na Itália, ao ser questionado quanto à aceitação da união homossexual, o Santo Padre respondeu. “Quem sou eu para condená-los?”.

Em outro ato considerado progressista, o Papa elogiou divorciados que decidem se casar novamente. “Essas pessoas não são excomungadas e não devem ser tratadas como tal. Elas são sempre parte da Igreja, que não tem portas fechadas para ninguém”, afirmou ele, desmontando um velho preconceito da Igreja contra o divórcio. Em outra oportunidade, o Papa admitiu a possibilidade remota de padres casados.

‘Eles não nos representam’

Membro do Conselho Estadual LGBT e diretor do Grupo Arco Íris, Júlio Moreira lamenta que o evento de São Gonçalo venha na contramão dos esforços do Papa Francisco pela aceitação de homossexuais e pelo acolhimento das diferenças dentro da fé católica.

“Existe uma pastoral LGBT na igreja, com eles sim, nós dialogaríamos. Nosso posicionamento é ideológico”, afirma ele, que rechaça qualquer embate em repúdio ao evento de amanhã. “Eles não representam a Igreja. Faremos nosso papel de continuar militando pacificamente, de forma inteligente. Eles deveriam respeitar a harmonia familiar, mas democracia é isso mesmo”, completa.

A votação que derrubou a ideologia de gênero em São Gonçalo ocorreu em sessão extraordinária por solicitação do Prefeito Neilton Mulin (PR). O projeto do Plano é de autoria do Poder Executivo. Na ocasião, 24 dos 27 parlamentares votaram contra. Três vereadores faltaram à sessão.

Mas nem tudo está perdido para o favoráveis à ideologia de gênero: as emendas aprovadas serão submetidas à analise do Poder Executivo que poderá sancioná-las junto com o projeto aprovado ou vetá-las. Caso sejam vetadas, retornam à analise dos vereadores que podem derrubar os vetos. No último mês de junho, a Alerj aprovou lei punindo estabelecimentos públicos e privados que agirem com discriminação contra LGBTs, mas excluiu as igrejas da medida.

Fonte: iG

Redação

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Reportagens realizada pelos colaboradores, em conjunto, ou com assessorias de imprensa.

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