Brasil avança na queda da taxa do analfabetismo, mas ainda não alcançou índice estipulado para 2015. Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que 7% da população brasileira com mais de 15 anos ainda é analfabeta, sendo que a meta do Plano Nacional de Educação (PNE) era de 6,5% para quatro anos atrás. O professor Marcos Caron, do Instituto de Educação da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), aponta que um dos fatores para esses resultados é a desigualdade social.
Dados que Caron cita ao Circuito Mato Grosso diz que 10% da população mundial é analfabeta e ao relembrar os dados do IBGE, referentes ao Brasil, conta que os 7% da população representa cerca de 11,5 milhões de pessoas que não sabem ler e escrever no país.
“No conjunto o Brasil tem avançado, mas não avança no que a sociedade espera, no que os institutos de educação esperam e as próprias metas do Plano Nacional de Educação”, esclarece o professor.
Ele aponta que antigamente os índices eram piores, ou seja, havia mais analfabetos e mais pessoas fora das escolas. Nos resultados regionais o Centro-Oeste registrou 5,2%, o Nordeste demonstra o pior resultado, isso significa que 14,5% da população é analfabeta, enquanto na região Sul e Sudeste do país o índice foi de 3,5% cada. O Norte do Brasil registrou 8% da população analfabeta.
Caron diz que apesar do nordeste ser o maior índice listado, esta foi a região que mais avançou na alfabetização. Anos atrás, segundo ele, aquela região mostrava que cerca de 35% da população era analfabeta. Eles diminuíram esse número, enquanto as demais continuaram na mesma média.
No Brasil, atualmente, existe a Base Nacional Comum Curricular (BCNN) que visa centralizar o que é ensinado nas escolas de todo o país. Ou seja, conforme explicado por Caron, 70% do ensino nacional segue uma diretriz comum e os outros 30% é uma autonomia das unidades educacionais e dos professores para aplicar o ensino conforme a região e comunidades.
No que diz respeito à alfabetização, o BCNN determina que o período de alfabetização deve ser concluído até o final do segundo ano do ensino fundamental, que é quando a criança atinge oito anos de idade..
“É um absurdo pais que colocam o filho na educação infantil e acham que a criança tem que ler com quatro ou cinco anos. Não. Os estudos provam que não é necessário estar alfabetizado com essa idade, mas sim convivendo com as letras. A preparação, o ideal, é a partir dos seis anos e com oito anos a criança estar com o que é considerado o domínio pleno da linguagem para a idade dele”, explica Caron.
O professor da UFMT esclarece que a alfabetização não é considerado o ensino das letras, mas é o término da escolaridade na idade certa, ou seja, uma pessoa com 17 anos de idade, que tem o domínio razoável da leitura, da escrita e das operações matemáticas.
Ele ainda acrescenta que nas últimas décadas a sociedade brasileira, e o mundo como um todo, tem cobrado cada vez mais de um cidadão alfabetizado. “Não é como nos anos 60 e 70 que bastava o conhecimento das letras e saber escrever o nome”.
Marcos Caron também explica sobre o analfabeto funcional, que são aquelas pessoas que aprenderam a ler, tem domínio das letras, mas tem dificuldades em interpretação de texto, por exemplo.
“É aquela pessoa que passou pela escolarização, ou está na escola, no ensino fundamental, mas ele não acompanha aquele desenvolvimento e nem tem uma compreensão da leitura e da escrita, contando o raciocínio matemático, considerado satisfatório pelos índices educacionais”.
Ou seja, é, por exemplo, um aluno do 7º ano que lê e compreende textos como um aluno do 4ºano. “O Brasil não é um país de analfabeto, mas um país de muitos analfabetos funcionais, muitos brasileiros mal escolarizados, mal letrados. Isso não é a maioria, mas são muitos e isso é grave do ponto de vista sócio econômico”, declara o professor.
Barreiras educacionais
O professor Marcos Caron diz que “a desigualdade alimenta a educação e a educação alimenta a desigualdade”. Para o professor a desigualdade social é uma das principais barreiras que a educação encontra atualmente no Brasil, que acaba ocasionando entre as consequências uma alfabetização falha.
Uma família de baixa renda, geralmente, depende de uma escola pública para a educação dos filhos. Eles frequentam escolas municipais e estaduais que costumam ter a carga horária reduzida e enfrentam várias greves, ocasionadas por baixos salários, péssimas condições de trabalho, entre outros fatores, como cita Caron.
“Uma educação efetiva pode fazer com que uma desigualdade social seja amenizada. Uma sociedade desigual tende a não priorizar as bases da educação popular. Há muita desigualdade de escola para escola, de sistema para sistema e isso acabou fragmentando muito”.
O docente aponta também que essas questões pioram com a atual realidade brasileira. É o desemprego, a crise econômica, baixos salários, e outras situações, que atingem a vida do trabalhador, sua casa, sua família e pode resultar na vida escolar dos filhos.
“Um país melhora no ponto de vista do desenvolvimento social quando tem uma elevação salarial, redução da desigualdade, desenvolvimentos econômico, quando há esse casamento econômico-social com políticas públicas educacionais como o Fundeb ( Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação ). A escola acaba sendo um resultado da sociedade”.
O professor Caron também fala da importância de programas sociais como o “Bolsa Família” para a educação da criança, apesar de não ser uma política pública voltada para o ensino.
“Um menino que entra no Bolsa Família é o mais pobre. Quando a gente faz o teste de alfabetização e de matemática, no segundo ano, ele está lá em baixo. Outro aluno de escola pública, mas o de classe popular que não pertence a extrema pobreza, tem o índice mais avançado. Faz o teste de novo no quarto ano e o do Bolsa Família ainda perde e o outro avança. No sexto ano o do Bolsa Família empata. Quando chega no nono ano você não sabe mais quem é o do Bolsa Família e o da classe popular. As políticas não respondem de imediato. Ela vem com o tempo. Com a educação sempre será políticas de longo prazo”.
Caron explica que o aluno que recebe o auxílio Bolsa Família vai melhorando porque está frequentando a escola, que ajuda no aprendizado. Sem o dinheiro mensal ele iria fraco para as aulas, até chegar um momento em que desistiria do ensino. “É a peneira social que vai cortando”.
“Em um país desigual e vasto, do ponto de vista territorial, essas respostas vão demorar um pouco mais. Principalmente, porque no meio do caminho aparecem esses contingenciamentos e alguns governos parecem não compreender essa caminhada necessária do esforço contínuo que é até nós atingirmos índices melhores. A educação responde a longo prazo”.
O docente também se mostrou contra a ideia das crianças brasileiras passarem a ter aulas em casa. “É uma concepção elitista e desligada da sociedade. A importância da escola não é só na transmissão de conhecimento. A escola é a socialização do cidadão já no início da vida. Ele convive com o outro, tem que respeitar o outro, ele aprende o que é a luta com o outro. As diversidades fazem parte da formação e não um ambiente dourado dentro de casa onde você acha que vai livrar seus filhos dos problemas”.
O professor conclui afirmando que o Brasil tem muito o que comemorar no avanço da educação dos últimos 30 anos, mas não pode comemorar o fato de não ter alcançado a própria meta de alfabetização para 2015.



