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Aversão a risco em NY faz dólar voltar a R$ 5,20, após mínima desde maio 2024

Após tocar R$ 5,15, menor nível desde maio de 2024 pela manhã, ainda com a rotação global de carteiras e o carry trade atrativo, o dólar inverteu o sinal e passou a subir na segunda etapa do pregão. O movimento ocorreu na esteira de aversão a risco, com índices de Wall Street e Ibovespa em queda, apreciação da divisa americana ante pares fortes e emergentes, e rali dos Treasuries. Também não houve força das commodities, com destaque para o petróleo cedendo quase 3%.

No segmento à vista, o dólar fechou em alta de 0,25%, a R$ 5,2004, em correção vista como “natural” por operadores. Isso porque a divisa americana ainda acumula queda de 0,38% na semana, 0,90% no mês e de 5,26% no ano ante o real. Já o contrato futuro para março avançava 0,62%, a R$ 5,230 por volta das 18h, em sintonia com o índice DXY – que mede a divisa americana contra seis moedas fortes – subindo 0,07%.

Em meio a expectativas para a leitura do índice de preços ao consumidor (CPI) dos Estados Unidos na sexta, que deve ajudar a redirecionar as avaliações sobre a trajetória de juros do Federal Reserve (Fed), os índices americanos aprofundaram queda por volta das 13 horas. A deterioração no sentimento respingou também no petróleo e em commodities metálicas.

“É um movimento típico de aversão a risco, está tudo no mesmo sentido: Bolsas para baixo, dólar para cima, Treasury para cima. Vejo como uma realização natural”, afirma o chefe da Tesouraria do Travelex Bank, Marcos Weigt. Para ele, o principal fator que atormentou o mercado foi a preocupação com as chamadas Mag 7 (sete “ações magníficas”, de tecnologia, no mercado americano), que estão fazendo investimentos massivos em Inteligência Artificial (IA), tornando-se empresas de capital intensivo e gerando questionamentos sobre a continuidade de retornos excepcionais.

O especialista em investimentos da Nomad, Bruno Shahini, também ressalta o modo mais defensivo no ambiente externo. Assim, “embora o vetor estrutural via carry e fluxo permaneça favorável ao real, o tom de ‘flight to safety’ limitou a pressão adicional de baixa sobre o dólar no fim do dia”, afirma.

Em relatório, a Capital Economics avalia que o valuation das moedas da América Latina já parece “esticado”. A partir da tese de que os ativos de mercados emergentes não devem ter um desempenho tão positivo a partir de agora quanto em 2025, aborda ainda que o Fed provavelmente cortará menos os juros do que o mercado espera, o que tende a impulsionar uma recuperação generalizada do dólar. Além disso, diz que os preços de commodities devem cair, pressionando o desempenho do câmbio de exportadores de matérias-primas.

Bolsa

Após ter encostado nos 190 mil pontos no fechamento de quarta – e atingido o mesmo nível, inédito, durante a quarta-feira -, o Ibovespa fez uma pausa para corrigir excessos na sessão desta quinta-feira, 12, com os investidores aproveitando a cautela externa para realizar lucros. Entre a mínima e a máxima do dia, oscilou dos 186.959,07 até os 189.989,97 pontos, encerrando em baixa de 1,02%, aos 187.766,42 pontos, com giro a R$ 39,4 bilhões, ainda reforçado, neste quase fim de semana. No mês, acumula ganho de 3,53%, com avanço de 2,63% no intervalo entre segunda e esta quinta. No ano, o índice sobe 16,53%.

Em Nova York, as perdas na sessão chegaram a 2,03%, no Nasdaq, que já cede cerca de 3,7% no mês com o escrutínio dos investidores sobre o Capex das empresas de tecnologia em IA, já comparados, em escala e em peso relativo, aos realizados no grande ciclo de expansão das ferrovias americanas, no século 19. Com a aversão a risco e a rotação global de ativos, e alguma redução da exposição a ações listadas nos Estados Unidos, os rendimentos dos Treasuries cederam terreno. O dia foi negativo para o petróleo, em baixa de quase 3%, em Londres e Nova York.

Na B3, entre as principais blue chips, exceção apenas para Banco do Brasil ON, em alta de 4,50% no fechamento. A instituição – após o balanço trimestral, da noite de quarta, e da conferência sobre os resultados, nesta manhã – conseguiu se descolar da correção observada nas ações do setor financeiro, com perdas que chegaram a 4,88% em Santander Unit, na mínima do dia no encerramento assim como Bradesco PN (-1,44%). Principal papel do segmento, Itaú PN caiu 2,29%.

Com os investidores à espera do balanço do quarto trimestre de 2025, a ser divulgado nesta quinta após o fechamento do mercado, Vale ON cedeu 0,95%. Na ponta negativa do Ibovespa, Raízen (-12,99%), Braskem (-11,27%), CSN (-9,56%) e Magazine Luiza (-8,56%). No lado oposto, Assai (+5,09%) e Ambev (+4,76%), após os resultados do quarto trimestre da fabricante de bebidas, à frente de Banco do Brasil ON na sessão.

“A queda de mais de 10% nas ações da Braskem teve relação com a Petrobras ter confirmado que não pretende exercer seus direitos de compra ou de venda conjunta na negociação das ações da petroquímica, o que frustrou as expectativas de alguns investidores sobre o futuro da empresa”, diz Luise Coutinho, head de produtos e alocação na HCI Advisors.

Com o petróleo em queda nesta quinta, Petrobras também figurou entre os destaques de baixa na sessão, na ON (-3,09%) e PN (-2,55%). “A Agência Internacional de Energia revisou estimativas e prevê que o mundo consumirá menos petróleo em 2026 do que o esperado anteriormente, o que fez o preço do barril cair no mercado internacional, impactando diretamente empresas brasileiras como Petrobras, Prio (-2,56%), PetroReconcavo (-3,36%, na mínima do dia no fechamento) e Brava (-3,09%)”, aponta Luise.

“Lá fora, os mercados se ajustam ainda aos dados de emprego dos EUA mais fortes do que o esperado divulgados na quarta, e reagem a resultados corporativos negativos, de olho também no CPI (Índice de Preços ao Consumidor) dos Estados Unidos, a ser divulgado amanhã [sexta, 13]”, diz Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos.

Juros

Os juros futuros negociados na B3 não acompanharam a piora do comportamento do dólar e da Bolsa na segunda etapa do pregão, terminando a sessão praticamente de lado.

Os trechos mais curtos encontraram espaço para ampliar ligeiramente o recuo no meio da tarde, que, no entanto, não chegou a ultrapassar 2 pontos-base ante os ajustes. Sem gatilhos mais fortes na sessão, a retração da atividade dos serviços de dezembro, divulgada na abertura dos negócios, apenas referendou a perspectiva de que o corte da Selic em março deve ser de 0,5 ponto porcentual.

Os vértices médios e longos também desceram mais um degrau ao longo da tarde, tendo como pano de fundo o forte fechamento da curva dos Treasuries nesta quinta-feira, 12, em meio ao sentimento de cautela no ambiente externo. Do lado doméstico, o Tesouro Nacional adotou postura mais ativa e aumentou o ritmo de emissões de prefixados no certame de hoje, mas não houve pressão na curva nominal, com maior concentração em vértices mais curtos e reação positiva do mercado.

Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 cedeu de 13,332% no ajuste de terça para 13,325%. O DI para janeiro de 2028 oscilou de 12,641% no ajuste anterior a 12,64%. O DI para janeiro de 2029 fechou igual ao ajuste, em 12,71%, e a taxa negociada para janeiro de 2031 caiu levemente, de 13,155% a 13,145%.

Principal indicador do dia em uma agenda doméstica escassa, a Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) mostrou que a atividade no setor ficou 0,4% menor em dezembro ante novembro, feitos os ajustes sazonais, enquanto a mediana do Projeções Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, projetava redução mais branda, de 0,1%.

O desempenho um pouco mais fraco não mudou apostas para a trajetória da Selic à frente, mas consolidou a percepção de que o Produto Interno Bruto (PIB) deve ter crescimento praticamente nulo no quarto trimestre, o que traz conforto para que o Banco Central (BC) dê início ao processo de calibragem dos juros em março.

“Após o resultado as curvas de juros se mantiveram mistas, mostrando que o dado não deve ter impacto significativo na próxima reunião do Copom. A curva continua precificando um corte inicial de 0,5 p.p. da Selic em março”, apontou Sara Paixão, analista de macroeconomia da InvestSmart XP.

Diretor de análise da Zero Markets Brasil, Marcos Praça afirma que o indicador dos serviços evidencia que o “socorro” do BC à economia, cortando os juros, é necessário. Mas como o mercado não compra um ciclo de afrouxamento robusto diante do tom conservador nas últimas comunicações do BC, há pouca movimentação nos vértices curtos, que respondem mais à política monetária. “Já foi dito pelo presidente do BC, Gabriel Galípolo que a ideia é ir no ‘conta-gotas'”, disse.

Os trechos intermediários e longos, por sua vez, que rondavam estabilidade no começo da tarde, passaram a operar em viés de queda por volta das 14h, influenciados pelo alívio vindo dos yields dos Treasuries, mas também não tiveram fôlego para se afastar muito dos ajustes.

Praça observa que, desde a última quinta, todos os contratos de DI a partir de 2030 praticamente não se moveram. “A perda é mínima na ponta curta, e a longa reflete o risco-país, que está bem incerto”, avalia, tendo em vista a crise institucional deflagrada pelo caso do banco Master e quadro eleitoral ainda pouco claro.

Estadão Conteudo

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