A Viagem do Peregrino da Alvorada representa a fase mais madura e interior da saga. Aqui, Nárnia já não é um reino a ser salvo, mas uma experiência que transforma e, depois, se despede. C. S. Lewis conduz o leitor, e o espectador, para além da luta externa, convidando-o a olhar para dentro.
A jornada marítima simboliza o caminho da consciência, revelando tentações, medos e desejos ocultos. O autor parece afirmar que o maior perigo não está nos inimigos visíveis, mas naquilo que cresce silenciosamente no interior humano.
Este último filme adaptado para o cinema assume tom contemplativo e espiritual. Ele fala de amadurecimento, desapego e aceitação. Lewis sugere que há momentos em que o aprendizado se completa, e seguir adiante torna-se não uma perda, mas um sinal de crescimento.
A Viagem do Peregrino da Alvorada . o terceiro filme da saga é o mais introspectivo e simbólico, funcionando a viagem marítima como metáfora da travessia interior. Cada ilha visitada corresponde a um desafio moral, revelando fragilidades, desejos ocultos e conflitos internos.
O arco psicológico de Eustáquio é o mais expressivo. Egoísta, arrogante e cético, ele se transforma literalmente em um dragão, imagem poderosa da deformação moral causada pelo egocentrismo. Sua libertação ocorre apenas quando reconhece sua própria miséria e aceita ajuda.
A mensagem é clara: ninguém se transforma sozinho, e a humildade é condição essencial para o crescimento interior.
A trilha sonora é mais leve e contemplativa, acompanhando o tom reflexivo da narrativa.
A fotografia privilegia o mar, a luz e o horizonte, criando constante sensação de busca e transcendência. Visualmente, o filme aposta mais na contemplação do que no conflito. As atuações são contidas e maduras, especialmente Skandar Keynes, que apresenta um Edmundo já marcado pela experiência e pela responsabilidade moral adquirida.
No desfecho, o encontro final com Aslan ensina que algumas presenças não permanecem fisicamente, mas deixam marcas definitivas na consciência. A despedida de Nárnia não é uma perda, mas um amadurecimento.
O verdadeiro sentido da jornada não está no lugar mágico, mas na transformação silenciosa do coração.
A lição final é serena e profunda: chega um tempo em que é preciso seguir adiante, levando consigo não o encanto, mas os valores que ele ensinou.
Vale a pena assistir.
Olinda Altomare é magistrada em Cuiabá e cinéfila inveterada, tema que compartilha com os leitores do Circuito Mato Grosso, como colaboradora especial. @aeternalente



