Olinda Altomare Opinião

Aniversário

O autoritarismo nem sempre chega acompanhado de violência, ameaças ou imposições explícitas. Muitas vezes, começa com um discurso aparentemente bem-intencionado, uma promessa de mudança, uma ideia apresentada como solução para todos os problemas. E, quando encontra uma sociedade disposta a acreditar mais do que questionar, mais interessada em pertencer a um grupo do que em pensar por si mesma, pode crescer silenciosamente, até transformar a intolerância em virtude e a liberdade em ameaça. É justamente esse processo, tão inquietante quanto perigoso, que o filme O Aniversário nos convida a observar.

Dirigido pelo polonês Jan Komasa, o filme apresenta inicialmente uma família bem-sucedida, culta, aparentemente unida e acostumada a conviver com suas diferenças. Ellen e Paul Taylor comemoram 25 anos de casamento cercados pelos filhos, em uma celebração que deveria representar a solidez dos vínculos construídos ao longo dos anos. Entretanto, a chegada de Liz, namorada de um dos filhos e antiga aluna de Ellen, começa a revelar fissuras que, pouco a pouco, deixarão de ser apenas familiares para refletir a profunda transformação política e social de um país.

Liz é uma mulher inteligente, articulada e extremamente hábil na maneira de apresentar suas ideias. Sua capacidade de convencimento não decorre necessariamente da consistência de seus argumentos, mas da habilidade de compreender as fragilidades humanas, explorar ressentimentos e oferecer respostas aparentemente simples para questões complexas. É uma personagem que nos faz perceber como uma mente autoritária pode encontrar terreno fértil justamente onde as pessoas deixam de exercer o pensamento crítico.

Para mim, uma das reflexões mais importantes do filme está no fato de que o fanatismo não nasce apenas da ignorância. Pessoas instruídas, socialmente respeitadas e intelectualmente capazes também podem se deixar seduzir por discursos que oferecem certezas absolutas. A inteligência, quando desacompanhada de senso crítico, humildade e compromisso ético, não constitui proteção suficiente contra a manipulação. E o conhecimento, quando colocado a serviço da intolerância, pode se transformar em um instrumento particularmente perigoso.

O movimento denominado “A Mudança”, que ganha força ao longo da narrativa, representa exatamente esse fenômeno. Sob a aparência de renovação e unidade, vai se construindo uma estrutura na qual discordar passa a significar deslealdade, questionar se torna inconveniente e pensar de maneira diferente passa a representar uma ameaça.

E aqui está, ao meu ver, a questão central do filme: o autoritarismo não se fortalece apenas pela ação daqueles que desejam impor suas ideias, mas também pela omissão daqueles que, percebendo o perigo, preferem não se posicionar.

Essa reflexão ganha especial profundidade na figura de Paul, interpretado por Kyle Chandler. Seu personagem procura preservar a harmonia familiar, evitando confrontos e acreditando que o silêncio pode impedir a ruptura dos vínculos. Entretanto, sua postura nos coloca diante de uma questão moral extremamente delicada: até que ponto evitar conflitos significa agir com prudência, e em que momento essa atitude passa a representar uma forma de consentimento?

A paz construída sobre o silêncio imposto não é verdadeira paz. É apenas a ausência temporária de confronto, frequentemente conquistada à custa da liberdade de alguém.

O filme também demonstra como as relações familiares podem se tornar espaços de reprodução das mesmas práticas autoritárias que ameaçam a sociedade. O afeto passa a ser condicionado à concordância, a lealdade familiar se confunde com submissão e o respeito deixa de ser um valor recíproco para se transformar em exigência unilateral. Aos poucos, as pessoas já não conseguem conversar sem que suas opiniões sejam interpretadas como declarações de pertencimento ou de oposição.

É triste perceber como o fanatismo consegue destruir até mesmo os vínculos que deveriam ser protegidos pelo amor. Porque amar alguém não significa exigir que essa pessoa pense como nós, mas reconhecer sua individualidade, respeitar suas convicções e preservar sua dignidade, mesmo diante das divergências.

A narrativa se torna ainda mais perturbadora quando percebemos que aquilo que começa dentro de uma família se reproduz em escala nacional. As instituições vão perdendo sua independência, a liberdade de expressão passa a sofrer restrições, o medo começa a orientar comportamentos e a perseguição aos que discordam vai sendo gradualmente naturalizada.

Como cidadã, vejo nessa construção uma advertência importante sobre a fragilidade das conquistas democráticas. A democracia não se resume ao direito de escolher governantes. Ela pressupõe limites ao exercício do poder, respeito às instituições, proteção das minorias, liberdade de pensamento e, principalmente, o reconhecimento de que ninguém é proprietário absoluto da verdade.

Quando uma sociedade passa a admitir que determinados direitos podem ser afastados em nome de uma suposta causa superior, abre-se um caminho perigoso. Afinal, direitos fundamentais não existem apenas para proteger aqueles com quem concordamos. Sua verdadeira importância se revela justamente quando asseguram a dignidade e a liberdade de quem pensa de maneira diferente.

E há uma distinção que considero essencial: respeitar opiniões divergentes não significa aceitar discursos que defendam a eliminação da própria liberdade de divergir. O diálogo democrático exige tolerância, mas também exige firmeza na defesa dos princípios que tornam possível a convivência.

Sob o aspecto cinematográfico, Jan Komasa conduz a narrativa com uma tensão crescente, utilizando os sucessivos aniversários de casamento como marcos da passagem do tempo e da deterioração das relações. A escolha é particularmente interessante porque transforma uma celebração de continuidade e permanência em testemunho de tudo aquilo que vai sendo perdido. A cada novo encontro, a família parece menos capaz de reconhecer a si mesma.

A fotografia de Piotr Sobociński Jr. contribui significativamente para essa sensação. Os ambientes inicialmente acolhedores, a composição dos encontros familiares e a atenção aos rostos e aos silêncios vão cedendo espaço a imagens que transmitem desconforto, distanciamento e insegurança. A câmera valoriza os olhares, as expressões contidas e os pequenos gestos que revelam aquilo que os personagens já não conseguem dizer. É como se a própria imagem acompanhasse o enfraquecimento dos vínculos afetivos.

A trilha sonora, composta por Danny Bensi e Saunder Jurriaans, acompanha essa transformação sem procurar dominar as cenas. Sua atmosfera de inquietação reforça a sensação de que algo está profundamente errado, mesmo quando a aparência dos acontecimentos ainda sugere normalidade. Em diversos momentos, a contenção musical e os silêncios permitem que o desconforto emocional alcance o espectador de maneira ainda mais intensa.

As interpretações constituem outro ponto de destaque. Diane Lane oferece uma atuação especialmente sensível e firme como Ellen, uma mulher que percebe a gravidade do que está acontecendo, mas enfrenta a dolorosa experiência de ver suas convicções entrarem em conflito com o desejo de preservar a própria família. Sua personagem carrega a angústia de quem compreende o perigo, mas descobre que nem sempre a razão é suficiente para impedir uma tragédia.

Kyle Chandler constrói Paul com a contenção necessária para representar aqueles que acreditam ser possível permanecer à margem dos conflitos, enquanto Phoebe Dynevor, no papel de Liz, impressiona pela frieza e pela segurança com que apresenta uma personagem capaz de transformar convicções autoritárias em discursos sedutores. Dylan O’Brien, como Josh, também merece destaque ao representar o processo de transformação de alguém que, gradualmente, passa a confundir fidelidade ideológica com superioridade moral.

Embora o roteiro apresente algumas simplificações na maneira como retrata a ascensão de um movimento autoritário e a rápida transformação de toda uma sociedade, sua força está menos na explicação dos mecanismos políticos e mais na demonstração de suas consequências humanas. O filme não pretende oferecer respostas para todos os fenômenos que aborda, mas consegue provocar perguntas que deveriam acompanhar qualquer sociedade comprometida com a liberdade.

E talvez seja exatamente por isso que O Aniversário cause tanto desconforto. Porque nos obriga a reconhecer que os grandes retrocessos nem sempre começam com acontecimentos extraordinários. Muitas vezes, nascem de pequenas concessões, de preconceitos tolerados, de mentiras repetidas até parecerem verdades e da disposição de trocar a liberdade pela promessa de segurança e pertencimento.

Ao terminar o filme, fiquei pensando em quantas vezes, nas relações familiares, profissionais e sociais, preferimos não questionar para evitar desentendimentos. Quantas vezes deixamos de enfrentar uma afirmação injusta, uma atitude discriminatória ou um discurso intolerante simplesmente porque seria mais confortável permanecer em silêncio.

É evidente que nem toda divergência exige confronto, assim como nem toda opinião equivocada representa uma ameaça à democracia. Mas existem momentos em que o silêncio deixa de ser prudência e passa a permitir que aquilo que é inaceitável se torne comum.

O maior perigo do fanatismo está em transformar a certeza em uma virtude absoluta e a dúvida em um defeito. Quem acredita possuir todas as respostas deixa de fazer perguntas. E quem deixa de perguntar, pouco a pouco, também deixa de ouvir, compreender e respeitar.

Para mim, a grande lição de O Aniversário é que a liberdade não desaparece apenas quando alguém a retira de nós. Ela também começa a morrer quando desistimos de exercê-la, quando abrimos mão do pensamento crítico e quando permitimos que o medo de discordar seja maior do que a coragem de defender nossos princípios.

Porque uma sociedade verdadeiramente livre não é aquela em que todos pensam da mesma maneira, mas aquela em que ninguém precisa renunciar à própria consciência para continuar pertencendo a ela.

E talvez a mais triste das perdas não seja a destruição de uma família ou de uma instituição, mas o momento em que as pessoas deixam de reconhecer a humanidade umas nas outras.

Afinal, quando o diálogo é substituído pelo fanatismo, o que adoece é a própria capacidade humana de conviver.

Vale a pena assistir.

@aeternalente

Olinda Altomare

About Author

Olinda Altomare é magistrada em Cuiabá e cinéfila inveterada, tema que compartilha com os leitores do Circuito Mato Grosso, como colaboradora especial.

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