Angelina engravidou. A primeira reação foi de culpa, julgando que Deus a estivesse punindo por desrespeitar a moral pregada pela igreja que frequentava. Em seguida considerou que o Altíssimo, na sua infinita bondade, não iria trazer uma criança ao mundo somente para punir pais transgressores.
Os amigos de Angelina diziam que ela “era incapaz de matar uma mosca”. Esse gênio conformado que a impedia de magoar qualquer pessoa seria o culpado da situação em que se encontrava, pois há muito queria romper o namoro, mas lhe faltava determinação ou coragem.
Casou.
O aborto espontâneo aconteceu em fevereiro, quando ela já tinha desistido de voltar à faculdade por causa da gravidez. Com o fim inesperado da gestação a mãe dela sugeriu a retomada do curso, dispondo-se a pagar as mensalidades. Angelina ficou muito entusiasmada, mas recebeu uma seca negativa do marido.
– Mas é a mãe que vai pagar a escola, Romeu – argumentou humildemente.
– Pegue este dinheiro para ajudar nas despesas aqui de casa.
Cinco anos depois, o marido continuava o mesmo funcionário sem futuro de um frigorífico, onde contava os animais que chegavam para o abate e preenchia um romaneio de recebimento. Entretanto prosperava em grosseria e vulgaridade. Agora exigia que a mulher pegasse mais dinheiro da mãe e já tinha feito pequenas dívidas para pagar as cachaças que tomava e custear o vício de jogar no bicho.
Em seguida, mandou Angelina trabalhar como diarista. De novo não o contrariou e saiu em busca de serviço, confiando que ajudando nas despesas, melhoraria seu humor.
Piorou. Passou a chegar bêbado e humilhar a mulher.
Era um sábado frio de junho quando o marido chegou. Estivera no boteco com os amigos, enchendo a cara de cerveja e cachaça.
– Tá pronta a gororoba? Foi gritando o Romeu, enquanto jogava sobre a mesa as ferramentas que trazia.
– Vou esquentar. Disse Angelina.
– Já sei que está uma porcaria como sempre. Você nunca vai aprender a cozinhar; minha mãe é que fazia comida boa.
– Boa mesmo …
– Nunca vai chegar aos pés dela. Não prestou para ter filhos, não serve nem para matar uma mosca.
– Filho é Deus que dá ou não dá. Não deu pra mim e nem pra você. Disse ela.
– A culpa é sua, em terra ruim e seca, nenhuma semente nasce.
– Posso guardar essas ferramentas? Perguntou Angelina enquanto punha o prato de comida na frente do marido.
Primeiro guardou o alicate e a chave de fenda. Voltou devagar e perguntou se ele queria mais alguma coisa.
– Sai pra lá, tribufu. Disse, dando um empurrão na esposa.
Em silêncio, pegou a marreta para guardar e, passando atrás do marido bêbado, viu uma mosca pousada no cocuruto dele.
Tentou espantar o inseto, mas ele insistia. Aí, tranquilamente, ergueu a marreta acima da cabeça e deu uma violenta pancada na mosca teimosa.
Antes de sair, ela viu a cara do Romeu enterrada no prato de comida, agora cheio de sangue e miolo.
“Acho que matei os dois” – ela pensou – “não farão falta”.
Adaptado do meu livro “Ouro dos Tolos”, Editora Ítala – Curitiba-Pr
Renato de Paiva Pereira.


