Texto e foto de Valéria del Cueto
O resquício desse carnaval encavalado em um mês de atividades frenéticas foi um quase colapso físico e mental.
Fiz o que pude, mas não consegui resistir a queda de imunidade no esforço contínuo de três finais de semana com maratonas de ensaios técnicos com tudo a que tinha direito na Sapucaí.
A saber: calor, chuvas e muitas correrias multiplicadas pelo número de escolas de samba que passaram pela pista se preparando para os desfiles.
Pelos meus cálculos, as dezessete da série ouro no primeiro final de semana e mais doze vezes dois nos subsequentes.
O tempo para editar o material da capa do Diário de Cuiabá foi mínimo e dividido entre outras tarefas como a missão de ir ao centro da cidade pegar a tão almejada credencial para cobrir os desfiles.
Me planejei e executei o combinado entregando o material prometido sobre os desfiles na quarta-feira. Na quinta encarei tranquilamente o metrô em direção a sede da Liesa, pertinho do Museu do Amanhã.
Tudo certo e o primeiro imprevisto. O metrô estava parado! Havia um acidente na estação de São Conrado paralisando o tráfego. Ao anunciar o problema pelos alto-falantes da General Osório, veio o comentário de um usuário: “Isso é hora de alguém resolver tirar a própria vida no metrô, dois dias antes do carnaval?”
Abandonei a calorenta e, agora, superlotada estação. A solução era pegar um táxi e morrer na grana para chegar a tempo de resgatar a credencial.
Vou pular a descrição detalhada dos dias que se seguiram. Pode ser resumida em translado à Sapucaí, pista e/ou torre de transmissão, a loteria bem-sucedida de conseguir um táxi no final dos desfiles da noite/dia que cobrasse a corrida no relógio junto com Cristina Frangelli, do Carnavalizados, chegar em casa, me alimentar, tomar um banho, baixar e fazer a primeira seleção das fotos, dormir e… começar tudo de novo depois de um almo/janta substancial.
Foram 5 dias quase no automático. Neles, todas as intenções e ações criativas estiveram voltadas ao olhar e ao equipamento, que registrava minha visão, e a da seleção de imagens do material que prometi entregar aos parceiros. Mas quem disse que consegui (espero) captar as sensações que vivemos na pista? Foram cinco dias e mais vinte e nove desfiles, ou quase. Perdi alguns da série Ouro…
Na quarta-feira, depois de vibrar com o resultado do Grupo Especial e a vitória inconteste da Viradouro cantando Mestre Ciça, relaxei…
E falhei. Em vez de manter a rotina de guerra, não resisti e sucumbi ao desejo de comer rissoles fritos na hora do restaurante Príncipe de Mônaco, em Copacabana.
Nada incomum, a não ser o fato de não ter argumentos para contrariar meus primos, que voltariam no dia seguinte a Porto Alegre, ter aceitado ficar na área com ar condicionado e não na parte externa do estabelecimento que sempre frequento.
Quando cheguei em casa, três rissoles, um pastel e um caipiroska de lima sem açúcar depois, senti um “hã,hrã” de um lado da garganta.
Aí começou meu padecer. Ainda tentei fazer a segunda rodada da seleção de imagens do material prometido aos parceiros. Mas quem disse que consegui? Tudo começou a doer, especialmente os olhos diante da luz da tela do computador.
E assim continuou e só piorou até a madrugada de quinta para sexta, véspera dos desfiles das campeãs, em que aos trancos e barrancos distribuí o material concluído de “Pra cima, Ciça”. Foi a duras penas, muitos analgésicos e xaropes…
Fiquei tão mal que perdi o desfile das Campeãs. Foi sem apelação e arrependimentos. Nem meu corpo, nem minha mente tinham qualquer condição de deslocamento até a Sapucaí.
O “castigo” maior foi ter que acompanhar pela TV a transmissão dos desfiles campeões. Que horror… Entendo porque tanta gente desgosta do carnaval carioca no Brasil. Volta, Manchete! Ressuscita, Fernando Pamplona!
Continuo me recuperando do colapso. Corri pro mato, dormi dias seguidos e só hoje consegui me expressar. Duas semanas depois das Campeãs!
Peço desculpas aos amigos que me cobram a edição das fotos que fiz nesse carnaval. Mas, confesso, ainda é cedo para rever o resultado da maratona alucinante. Sei que o material é bom, porém, parafraseando Juliano Yule, “Meu corpo não pede”, nesse momento, esse esforço. Ainda…
Estou voltando à vida devagar. Escrever essa crônica é mais um passo nessa reconstrução.
Paciência, amigos, que chego já…
*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “É carnaval” do SEM FIM… delcueto.wordpress.com


