A Última Sessão de Freud (Freud’s Last Session) parte de um exercício ficcional ao imaginar um encontro entre Sigmund Freud e C. S. Lewis nos últimos dias de vida do criador da psicanálise.
O filme se ancora quase inteiramente no diálogo, utilizando esse confronto de ideias para discutir temas centrais da experiência humana, como a dor, a fé, a razão e a proximidade da morte.
Mesmo aos 86 anos, Anthony Hopkins, interpretando Sigmund Freud, demonstra estar em pleno domínio de sua arte. Sua atuação é imponente e hipnotizante, marcada por uma vitalidade que desafia o tempo. Há uma entrega genuína em cada gesto e palavra, e é justamente essa intensidade que sustenta o filme. Hopkins tem a capacidade rara de elevar qualquer material que interpreta, fazendo com que sua presença ultrapasse eventuais fragilidades do roteiro e mantenha o espectador atento.
O embate entre Freud e Lewis, esse interpretado por Mattheus Goode que igualmente traz muito brilho em suas atuações, vai além de um simples debate intelectual.
O filme propõe o diálogo como uma experiência de escuta e confronto respeitoso, sugerindo que não é necessário convencer o outro para que haja crescimento. Essa reflexão encontra eco em uma das falas mais marcantes da obra: “A dor não prova a inexistência de Deus — ela prova apenas que somos humanos.” Essa frase resume a maneira como o longa trata o sofrimento: não como um argumento conclusivo, mas como um elemento comum que expõe a vulnerabilidade compartilhada entre os personagens.
Ainda assim, parte da recepção crítica foi dura com o filme. Muitos apontaram uma abordagem rasa dos temas centrais, com maior atenção à trajetória pessoal dos personagens do que a um aprofundamento real das questões filosóficas e teológicas propostas. Também há quem veja o roteiro como excessivamente dependente de sua origem teatral, funcionando melhor no palco do que na linguagem cinematográfica. A narrativa contida, quase estática, levou alguns espectadores a classificarem o filme como árido e pouco dinâmico. Em resposta a essas limitações, o diretor Matt Brown opta por ampliar o foco narrativo ao incluir a história de Anna Freud. Anna, que futuramente se tornaria a mãe da psicanálise infantil, adiciona uma camada emocional relevante ao filme, revelando conflitos afetivos, laços de dependência e tensões silenciosas na relação com o pai, além de sua vida íntima ao lado da companheira. A atriz alemã Liv Lisa Fries, conhecida por Babylon Berlin (2017), se destaca ao conduzir essas nuances com sensibilidade e profundidade, oferecendo uma interpretação contida, mas extremamente expressiva.
Do ponto de vista técnico, o filme aposta em uma estética discreta. A fotografia utiliza tons fechados e iluminação suave, reforçando o clima introspectivo e a sensação de confinamento, enquanto a trilha sonora surge de forma sutil, apenas para sustentar o tom melancólico da narrativa. Tudo é construído para dar espaço às performances e às palavras, mantendo uma atmosfera quase teatral.
No fim das contas, A Última Sessão de Freud está longe de ser um filme voltado ao entretenimento fácil, assim como não pretende satisfazer especialistas profundos nas obras de Freud ou de C. S. Lewis. O longa se posiciona em um meio-termo: uma obra pensada para quem busca pequenas revelações sobre a vida e o pensamento desses dois nomes fundamentais do século XX.
Trata-se de um recorte histórico ficcional que oferece reflexões pontuais e acessíveis, convidando o espectador a compreender, ainda que de forma introdutória, o legado intelectual de Freud e Lewis. Vale a pena assistir, e refletir.
Olinda Altomare é magistrada em Cuiabá e cinéfila inveterada, tema que compartilha com os leitores do Circuito Mato Grosso, como colaboradora especial. @aeternalente


