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‘A IA não vai eliminar 75% dos empregos da noite para o dia’

Ian Beacraft, CEO da consultoria Signal and Cipher e uma das maiores autoridades globais em futuro do trabalho, vê a adoção da inteligência artificial (IA) nas empresas como um processo gradual, assim como foi a incorporação das máquinas a partir da Revolução Industrial. O especialista não vê grandes riscos de eliminação rápida de postos de trabalho, mas sim uma transição para uma diferente forma de trabalhar com a tecnologia.

“Não consigo imaginar um mundo onde eliminaremos 75% dos empregos da noite para o dia. Eu vejo um mundo onde uma certa parcela das tarefas que realizamos hoje será automatizada, e isso pode acontecer mais cedo do que imaginamos. O impacto será resultado de como nossas organizações reagirão, e não da rapidez com que a tecnologia tornará isso possível”, afirma.

Um dos palestrantes do São Paulo Innovation Week, Beacraft diz que a IA atualmente só é capaz de automatizar parte das funções hoje feitas por humanos, deixando uma lacuna que será preenchida por eles. Além disso, alerta que as companhias tendem a ser lentas na adoção real de tecnologias, que evoluem numa velocidade muito maior.

O São Paulo Innovation Week, uma parceria entre o Estadão e a Base Eventos, será realizado entre os dias 13 e 15 de maio. Assinantes do Estadão podem comprar ingressos com 35% de desconto.

Como os profissionais humanos podem manter seus empregos e até se destacarem diante da ascensão da IA?

Provavelmente, não estamos longe de um mundo onde a IA poderá fazer tudo o que eu faço. É fácil cair nessa armadilha, especialmente quando os próprios criadores de IA estão vendendo a ideia de um mundo onde podem eliminar muitos dos desafios do trabalho. Certas funções serão automatizadas, mas, na maior parte, serão apenas partes dessas funções. O que acontece é que você não automatiza um trabalho inteiro de uma vez, e sim certas partes dele. O trabalho fica com uma lacuna e temos dificuldade em entender como preenchê-la. Como criar algo que possa pegar o trabalho de uma pessoa e agregar mais do que a organização precisa fazer? Essa é uma questão tanto de teoria organizacional quanto de gestão, tanto operacional quanto tecnológica. Um dos desafios em responder a essa pergunta é que geralmente ela é feita a partir de uma perspectiva tecnológica, de como prosperar nesta era em que a tecnologia está impulsionando tudo. A tecnologia não impulsiona tudo.

Como um profissional especializado pode começar sua transição para se tornar um “generalista criativo” sem perder a autoridade técnica que já possui?

Pessoas com conhecimento profundo se tornarão ainda mais importantes, não menos. A própria expertise pode se tornar menos defensável, porque o custo de aquisição de novo conhecimento é zero. A IA facilitou a atuação como se fosse conhecimento. Mas o que ela não fez foi ajudar a incorporar o discernimento, a compreensão e a sabedoria de quem já se deparou com situações e casos extremos centenas ou milhares de vezes, para saber quais perguntas fazer, para saber como antecipar certos casos extremos ou cenários que outros podem não ter vivenciado antes. Essa sabedoria tem mais importância, não menos. Quando você tem pessoas com acesso ao conhecimento, mas sem experiência, fica mais fácil se deparar com desafios, problemas e dificuldades que poderiam passar despercebidos. Já aqueles que possuem conhecimento profundo e expertise sabem como evitá-los antes mesmo de surgirem.

Quais profissões podem ser mais “seguras”?

A questão não é tanto a segurança das profissões, mas como percebemos a evolução de tudo, porque tudo está mudando. Se a discussão for entre profissões seguras e inseguras, vira um jogo de “nós contra eles”. É como se fosse o povo contra a tecnologia. A tecnologia está vindo para cima de nós, e sempre foi algo capaz de amplificar todo o espectro do espírito e da capacidade humana. Nós, como sociedade, vamos mudar enormemente por causa do que está acontecendo no mundo e do que a IA possibilita. Isso nos permitirá fazer coisas incríveis. Mas também vai eliminar certas partes de nossas funções que realmente amamos, tornando-as desnecessárias. Isso traz benefícios e desvantagens. Então, a sociedade terá que se adaptar a isso de muitas maneiras.

Quais as habilidades serão as mais valiosas nos próximos cinco anos?

A primeira coisa que eu diria é discernimento e a capacidade de articular intenções. Discernimento significa entender o que deve ser construído e como deve ser construído, ou o que deve ser criado com IA. A declaração de intenções é uma das características marcantes de um bom comunicador e um bom gestor. Consigo articular o que quero de uma forma que me garanta um retorno valioso? Fazemos o mesmo com a IA quando a implementamos. A maioria das pessoas tem muita dificuldade com essa parte porque não estamos acostumados a articular as intenções em detalhes. Podemos receber um retorno que simplesmente parece que não funciona, mas será porque não especificamos como seria o resultado esperado.

Em um mundo onde diferentes IAs assumem funções dos trabalhadores, como a economia irá se manter?

Normalmente, o que acontece quando há uma mudança estrutural na economia é que outros setores começam a surgir e a evoluir em torno dela. Não se trata simplesmente de uma bolha que se evapora. Se um certo número de funções for impactado pela IA, outras áreas da economia precisam se desenvolver em torno disso. Não consigo imaginar um mundo onde eliminaremos 75% dos empregos da noite para o dia. Eu vejo um mundo onde uma certa parcela das tarefas que realizamos hoje será automatizada, e isso pode acontecer mais cedo do que imaginamos. O impacto será resultado de como nossas organizações reagirão, e não da rapidez com que a tecnologia tornará isso possível. Existe uma enorme defasagem entre a capacidade da tecnologia e sua difusão na sociedade. O custo é um fator importante: quão caro é usar IA para realizar essas tarefas? Atualmente, a IA é muito cara para a maioria delas.

Então, levará anos para que a IA cause impactos relevantes nas empresas?

Estamos falando de vários anos para que esses grandes impactos que as pessoas pensam que virão amanhã se consolidem de fato. Isso nos dá tempo, como sociedade, para termos essas conversas sobre como seria se houvesse menos trabalho humano a ser feito aqui e mais trabalho sendo realizado ali. As empresas que usam IA fazem uma separação entre a coordenação do trabalho e a cultura do trabalho. A maneira como construímos organizações hoje é que essas duas coisas estão completamente interligadas. Agora, a IA cuida da coordenação e as pessoas definem a cultura. Isso significa que a natureza do trabalho muda fundamentalmente. É parecido com o que aconteceu na Revolução Industrial. Não ficamos sem trabalho, nós migramos para outras formas de trabalho. Estamos deixando de valorizar nosso trabalho intelectual, o esforço de escrever o documento, fazer a síntese, criar o conteúdo nós mesmos e orquestrar, delegar e coordenar isso com a IA. Isso significa projetar fluxos de trabalho, ou melhor, reestruturar os ambientes em que o trabalho acontece. É outro nível de abstração, algo como do físico para o mental. Levamos 125 a 150 anos de teoria da administração moderna para chegar onde estamos hoje. Esse mesmo tipo de desenvolvimento provavelmente acontecerá em menos de uma década, talvez 15 anos.

Estadão Conteudo

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