As maquininhas de calcular portáteis começaram a se popularizar no Brasil no final dos anos 1970. Antes delas, pequenas contas eram feitas “de cabeça” e as maiores em folhas de papel com um lápis ou caneta Bic, que substituíram as tradicionais canetas-tinteiro.
Começava aí, talvez, o nosso processo de terceirização cognitiva — ou, dito de forma menos elegante, o nosso emburrecimento. Logo depois, nos anos 1990, para fazer uma conta das mais simples — digamos, qual é o troco que devo dar ao cliente, que entregou uma nota de 20 para tirar doze reais — o caixa de um mercado já usava a calculadora.
Hoje quase ninguém carrega uma calculadora, porque esta ferramenta já está embutida nos celulares, facilitando a execução de contas “complexas”, como dividir 40 objetos para quatro pessoas.
Aí chegaram os computadores. Agora não é preciso mais saber regras de acentuação de palavras, porque os editores de textos acentuam as palavras por nós. Tem ainda ferramentas que corrigem a escrita, inclusive colocando pontuação faltante ou retirando a excessiva.
Há cerca de quatro anos, começaram a aparecer os chats de IA. Se até então não tínhamos ficado completamente burros, agora podemos ficar. Basta dar um comando, por meio do que os entendidos chamam de prompts, para termos quase imediatamente um texto completo sobre qualquer assunto.
O mesmo chat fará, se acionado, contas de alta complexidade em poucos segundos, aposentando as maquininhas de calcular que já estavam obsoletas e os aplicativos de celular que usávamos até então.
Lembram-se daquela regra de três recorrente no segundo grau? Se 10 trabalhadores, trabalhando 4 horas por dia, fazem 15 metros de valetas em 4 dias; quantos metros farão 12 trabalhadores, laborando 5 horas diárias durante 6 dias?
33,75 metros, me respondeu o ChatGPT em 15 segundos, após eu ter selecionado esta proposição e colado na área de prompts dele. Não vou conferir porque, comprovando meu emburrecimento, não sei mais fazer esta conta.
Eu não sei, mas outro chat sabe: para tirar a prova, vou colar a mesma pergunta no Claude. Espera um pouquinho, caro leitor: pronto, já veio a resposta: confirmado: 33,75 metros.
Se estas ferramentas ainda não eram suficientes para nos emburrecer totalmente, colocaram GPS nos nossos celulares e nos carros, de forma que podemos dirigir em cidades totalmente desconhecidas, bastando digitar o endereço procurado e seguir as instruções orais e os mapas exibidos na tela do telefone.
Hoje a maioria de nós ficou tão dependente deste aplicativo que, mesmo na cidade em que moramos, preferimos seguir o mapa e as instruções do Waze para ir a um restaurante novo que nos indicaram.
Nesta semana, alguns “donos” das tecnologias do mundo anunciaram que há sério risco de a IA sair do controle e acabar com a humanidade em dez anos.
Há dois mil anos a Bíblia já anunciava o fim iminente do mundo. Mais recentemente elegemos outros apocalipses: a bomba atômica, a Guerra Fria, o buraco na camada de ozônio, o bug do milênio, a pandemia.
Para tudo houve e haverá remédio, menos para o nosso emburrecimento, se continuarmos terceirizando tudo para a IA.
Renato de Paiva Pereira.


