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Cachaça é a ‘solução’ dos sem-teto contra o frio na grande São Paulo

"Ela é boa porque dá uma ‘baqueada’ (acalmada) no cara.”, diz Kauê / Nelson Coelho/Diário SP

Com as baixas temperaturas, a cachaça é uma das principais aliadas dos moradores de rua na tentativa de amenizar o frio intenso. 

O pintor Anderson Serafim de Lima, 35, há um ano e meio vivendo nas vias paulistanas, diz que toma a “barrigudinha”, como é conhecida a aguardente preferida de quem não tem um teto, próximo a um albergue na Barra Funda, Zona Oeste, para conseguir dormir melhor. A embalagem de 500 ml é vendida a R$ 2,50 em uma venda vizinha ao centro de acolhida.

“Às vezes a gente toma até cair. Quando estou na rua e faz muito frio, a gente só quer dormir rápido, porque está na ânsia de descansar. E no frio intenso a gente não consegue dormir. Então, a gente bebe muito para apagar, o amanhã chegar mais rápido e o frio passar”, contou Anderson. “Sei que, na verdade, a gente está ludibriando nossa condição de vida, e que no dia seguinte a ressaca é brava, porque você fica zoado. Aí vem a velha desculpa de tomar uma de manhã para a dor de cabeça passar.”

O torneiro-mecânico Kauê dos Passos Gonçalves, 30, já havia tomado três “barrigudinhas” de meio litro cada uma até as 12h de ontem. “E acho que até o fim do dia tomo umas 10”, disse. “Ela é boa porque dá uma ‘baqueada’ (acalmada) no cara.”

Ao ser questionado se sabe dos perigos do uso contínuo e indiscriminado da cachaça, o torneiro-mecânico respondeu que sim. “Todo mundo sabe. Mas a gente é meio louco mesmo. Não liga para isso.”

CARRO-CHEFE / Em uma venda na  Avenida Rudge, próxima ao albergue,  o produto carro-chefe e campeão de vendas é justamente a “barrigudinha”. “Abrimos às 6h30 e já tem morador de rua na porta para comprar a primeira do dia. O movimento só para às 19h, quando a gente fecha”, revelou a dona do comércio, Rosana Angélica, 25. Ela afirmou vender, em média, até 20 caixas com 12 unidades cada em três dias, o que dá cerca de 80 aguardentes por dia. “E só vendemos por unidade.”

Não há uma média de temperatura em que o ser humano passe a sofrer de hipotermia. Depende muito da quantidade de abrigo que ele tem e também do nível de consciência no qual ele se encontra. Crianças, idosos e pessoas embriagadas tendem a não conseguir pedir ajuda. E o uso de álcool de forma indiscriminada faz da  população de rua em geral ser mais vulnerável.

Redação

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Reportagens realizada pelos colaboradores, em conjunto, ou com assessorias de imprensa.

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